O cardeal alemão publica o livro "O Evangelho da família", que inclui o seu discurso de introdução no consistório sobre a família
Roma, 11 de Março de 2014 (Zenit.org) Rocio Lancho García
O livro "O Evangelho da família", do cardeal Walter Kasper,
estará disponível nos próximos dias nas livrarias italianas com o texto
integral do discurso introdutório feito por ele no consistório
extraordinário da família, que aconteceu no Vaticano em 20 e 21 de Fevereiro.
Em entrevista à Rádio Vaticano, o cardeal explica que "o Evangelho
da família quer dizer que Deus ama a família e que a família foi fundada
por Deus desde o início da criação: é a instituição mais antiga da
humanidade". Por isso, recorda Kasper, "Jesus Cristo fez o seu primeiro
milagre durante as bodas de Caná: ele aprecia a família e a elevou ao
patamar de sacramento, o que quer dizer que o amor entre o homem e a
mulher é integrado no amor de Deus".
Kasper afirma que precisamos reforçar esta realidade "num período em
que há uma crise da família; [reforçá-la] nas actuais condições de crise económica e de trabalho; temos que prestar a nossa ajuda porque a grande
maioria dos jovens quer uma família, quer uma relação estável, para
toda a vida. A felicidade dos homens depende também da vida familiar".
O jornalista entrevistador perguntou ao cardeal qual é a sua proposta
para uma atitude mais tolerante para com as famílias em dificuldade,
sem se negar a natureza indissolúvel do matrimónio. "Proponho um caminho
que vá além do rigoroso e do relapso: é óbvio que, na Igreja, não
podemos adoptar só o ‘status quo’; temos que encontrar um ponto
intermediário, a via moral tradicional da Igreja", que evoca as
propostas de Santo Afonso Maria de Ligório e de Santo Tomás de Aquino em
sua "Summa Theologica". Kasper matiza que "não é contra a moral, não é
contra a doutrina, mas a favor de uma aplicação realista da doutrina à
situação actual da grande maioria dos homens, para contribuir com a
felicidade das pessoas".
A entrevista abordou também a situação actual da família e a política
agressiva que a ataca em sua concepção tradicional. O cardeal observa
que "é óbvio que há pessoas e grupos que têm interesse político contra a
família". Mas, ao mesmo tempo, lembra que "não há somente interesses
ideológicos e políticos: há também problemas económicos, problemas que afectam as condições de trabalho e que hoje são muito graves". As
condições de vida na sociedade mudaram muito e muitos têm dificuldades
para realizar o próprio projecto de felicidade, explica o cardeal. "A
maioria dos jovens, porém, quer uma relação estável, uma família
estável, mas não consegue: a Igreja tem que ajudar as pessoas em
dificuldade".
Sobre as possíveis mudanças que o sínodo da família poderia trazer no
futuro, o cardeal Kasper diz que "não falaria de uma revolução", mas de
um "aprofundamento e desenvolvimento, porque a doutrina da Igreja é um
fluxo que se desenvolve; a doutrina sobre o matrimónio também se
desenvolveu". O purpurado alemão acredita que "o passo actual é
semelhante ao do concílio, quando havia posições da Cúria Romana contra o
ecumenismo e contra a liberdade religiosa. O concílio conservou a
doutrina vinculante, e aqui também eu quero conservar a doutrina
vinculante, mas encontrou uma via para superar essas questões e
encontrou uma saída. E é esta saída que nós também temos que encontrar
hoje. Não é uma novidade, mas uma renovação da prática da Igreja, que é
sempre necessária e possível".
A fala do cardeal Kasper no começo do consistório era de conteúdo
privado, mas, dias depois, foi publicada pelo jornal italiano Il Foglio,
avivando o debate mediático em torno às matérias tratadas. O purpurado
explica que "é necessário um debate; eu já esperava isso e o papa também
tinha dito que 'no início haverá um debate'. O papa acrescentou:
'Queremos um debate. Não queremos uma Igreja que dorme, queremos uma
Igreja viva'".
Kasper explica que "não era um documento secreto: um texto que está
nas mãos de 150 pessoas não pode ser secreto; seria irreal e utópico". O
cardeal pensou em publicar o texto, mas matiza que "o jornal italiano
que o publicou sem autorização agiu contra a lei". Em sua opinião, “eles
sabotaram a vontade do papa. Eles querem encerrar a discussão, enquanto
o papa quer uma discussão aberta no sínodo. O resultado dependerá do
sínodo e do papa. Eu fiz uma proposta, como o papa me pediu, e vamos ver
como continuar a discussão nos próximos dois anos".
(11 de Março de 2014) © Innovative Media Inc.
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