Manifestação em Roma para salvar Raif Badawi, blogueiro saudita que pode ser condenado a morrer
Roma, 09 de Janeiro de 2014 (Zenit.org)
Entre Outubro e Dezembro de 2013, Roma ficou literalmente
forrada de cartazes que falavam sobre "a descoberta da Arábia Saudita, a
terra do diálogo e da cultura". É que, para celebrar os oitenta anos de
relações diplomáticas entre a Itália e o reino saudita, o ministério
italiano de Assuntos Exteriores, a prefeitura de Roma e a embaixada
saudita promoveram uma série de iniciativas voltadas a demonstrar o
quanto o país é belo, aberto e cheio de atracções. Uma tenda instalada na
Praça do Povo [Piazza del Popolo] apresentava a música, os chás e os
doces tradicionais da Arábia. Mulheres de véu pintavam as mãos das
visitantes com hena (só mulheres, claro).
Qualquer um que conheça a realidade saudita, mesmo que
superficialmente, sabe que tudo aquilo foi a enésima operação de pintar
fachada, a enésima demonstração de hipocrisia. Um país em que as
mulheres sequer podem dirigir, um país em que os cristãos não podem usar
a cruz nem construir igrejas, um país em que os xiitas são
discriminados, um país que aplica a interpretação mais rígida da sharia,
com a lei de talião, a flagelação e a pena de morte. Um país em que um
blogueiro de trinta anos corre o risco de ser condenado à morte só
porque é um paladino sincero da liberdade. Da verdadeira liberdade.
Raif Badawi, que está desde 2012 no presídio de Briman, em Jeda, foi
condenado a sete anos de prisão e a 600 açoites por supostas ofensas
contra algumas figuras religiosas do islão. Ele sofrerá agora um processo
por apostasia. Badawi não é o primeiro nem será o último "espírito
livre" a sofrer o terrorismo contra a liberdade e o livre pensamento na
Arábia Saudita. Em Fevereiro de 2012, a mesma sina coube ao blogueiro
Hamza Kashghari, também acusado de apostasia e libertado recentemente,
depois de pedir o perdão oficial.
O caso Badawi é mais complexo: o problema vai além dos posts
e envolve principalmente o facto de ter fundado, em 2006, a "Rede
Liberal Livre Saudita", além de ter criticado em mais de uma ocasião não
apenas o extremismo islâmico dos pregadores wahabitas, mas também o
regime saudita que nunca freou o agravamento dessa situação durante os
últimos anos. Em entrevista publicada em Agosto de 2007 ao site liberal
Aafaq, Badawi denunciava sem panos quentes que os liberais residentes no
reino vivem entre a pressão do Estado e da polícia religiosa. O
blogueiro se descreve assim: "Raif Badawi não é nada mais do que um
simples cidadão saudita. Meu compromisso é com o avanço da sociedade
civil no meu país, é rejeitar qualquer repressão em nome da religião, é
promover os liberais sauditas iluminados cujo primeiro objectivo é a
presença na sociedade civil, objectivo que atingiremos pacificamente e
respeitando a lei".
Ele reafirma: "O pensamento liberal se enraíza profundamente na
realidade. O pragmatismo considera a pátria como sagrada, não se
contrapõe ao islão, mas deriva e se desenvolve a partir dos nobres
princípios deste. Temos certeza de que a evolução rumo ao pensamento
liberal requer uma formação, uma consciência e sentimentos abertos ao
bem comum, ao dever e à responsabilidade". As palavras de Badawi são
claras e não deixam dúvidas: nenhuma apostasia, só reformas que desejam o
bem do próprio país. As dúvidas surgem, na verdade, quanto à
sinceridade de quem o acusa.
A apostasia continua sendo um dos temas mais importantes quando se
fala da relação entre o islão e os direitos humanos. O intelectual
tunisiano Mohammed Charfi, em seu ensaio "Islam et liberté" (Casbah
Editions, Algeri 2000), recorda, a propósito da apostasia, alguns versos
do Alcorão em favor da liberdade de consciência: por exemplo, "que não
haja compulsão na fé" (II, 256). Ele quer demonstrar que "Deus não é
fanático, ao passo que os ulemás de ontem, assim como os ulemás e os
fundamentalistas de hoje, são". O Alcorão não afirma que a apostasia
deva ser punida com a morte. Quem justifica a condenação à morte pelo
delito de apostasia se baseia no que teria sido dito pelo profeta Maomé:
"Quem muda de religião, seja morto". Mesmo essa tradução é pouco
confiável, porque pertence à categoria dos ditos transmitidos por uma só
pessoa.
Diante desta panorâmica, a Associação da Comunidade Marroquina de
Mulheres na Itália (ACMID), junto com a organização Nessuno Tocchi
Caino, programou uma manifestação para hoje, 9, em frente à embaixada
saudita em Roma. Estarão presentes italianos e estrangeiros, muçulmanos e
não muçulmanos, para pedir a imediata libertação de Raif Badawi e para
recordar que, se existe um apóstata, é o próprio Reino Saudita, que
traiu os direitos humanos, começando pelo direito à vida e à liberdade
de culto.
(09 de Janeiro de 2014) © Innovative Media Inc.
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