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segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Mutismo do islão perante as matanças de cristãos: indiferença do clero muçulmano depois do massacre

No Paquistão

Actualizado 6 de Outubro de 2013

Francisco de Andrés / Abc 

Os islamitas perseguem brutalmente
os cristãos
Vale mais um muçulmano ofendido que um cristão morto à saída da igreja? A indiferença do clero muçulmano depois da matança de fiéis na igreja de Todos os Santos, na cidade paquistanesa de Peshawar, aponta nessa direcção.

Nenhuma mostra de luto nas máximas instâncias do islão paquistanês. Nenhuma convocatória de manifestações de protesto ou de solidariedade nos minaretes e sermões na passada sexta-feira. Ninguém responde pela minoria mais perseguida no Oriente, depois da maior matança de cristãos desde a criação do estado de Paquistão em 1947.

A crítica situação que vivem os mais de três milhões de cristãos paquistaneses repete-se em muitos países de maioria muçulmana, onde se regista um incremento de ataques contra as minorias não maometanas. A chamada Primavera Árabe não se traduziu em mais tolerância religiosa em nenhum dos países onde entrou há dois anos. Ao contrário, os prejuízos e o discurso da ira geraram mais episódios de ataques contra a comunidade cristã árabe no Egipto e na Síria, e dizimaram literalmente a do Iraque.

No Cairo, a pregação de imãs fanáticos, próximos dos Irmãos Muçulmanos, conduziu à queima e saqueio em finais de Agosto de mais de 60 igrejas coptas. «Em povoados de 50.000 habitantes, só uns mil apoiavam esses ataques, mas bastam e sobram porque os demais ficam em casa», relatou então às agências um dos responsáveis da comunidade copta.

Na Síria, os cristãos se encontram apanhados entre dois fogos no conflito armado sectário entre as comunidades xiitas — á qual pertence o presidente Assad — e a maioritária sunita, controlada por uma miscelânea de grupos armados, uns liberais e outros próximos à Al Qaeda. A recente ofensiva rebelde contra o histórico enclave arameu de Malula deu certa publicidade a uma hostilidade que é habitual contra a minoria cristã síria.

Porque não se ovem protestos nas mesquitas, nem aparecem — salvo raras excepções — cartas abertas na imprensa árabe dos ulemas, os teólogos do islão? Os últimos anos foram testemunhos, pelo contrário, de manifestações de apoio aos extremistas animadas pelo clero radical. Em Janeiro de 2011, dois pregadores incendiários animaram um jovem guarda de segurança a assassinar o governador da província paquistanesa do Punjab, pelas suas críticas à lei da blasfémia, responsável de múltiplos abusos contra os cristãos. Dias depois, dezenas de milhares de muçulmanos congregaram-se em Karachi não para condenar o assassino, mas sim para vitoriá-lo como um herói.

Em países onde os muçulmanos não são sequer maioria absoluta da população, como na Nigéria, a guerra contra os cristãos tem cores más políticas ainda que manipula igualmente os prejuízos religiosos de intolerância. A imposição da Sharia, a lei islâmica, no norte, assim como os ataques contra cristãos por parte da guerrilha islamita de Boko Haram, buscam semear o terror e provocar o êxodo dos não muçulmanos para criar o primeiro califado negro.

Mito e realidade
Quem poderá corrigir os excessos de islamitas e fanáticos religiosos, se o islão não tem Papa? A velha questão não justifica, sem dúvida, o mutismo das autoridades religiosas nos países onde existe a perseguição de cristãos pelo mero facto de ser «infiéis». A comunidade islâmica não tem clero, mas sim autoridades e hierarquias.

Existem, entre os sunitas, ulemas, muezzins, ímãs e xeques, que emitem fátuas e ajudam aos maometanos dá pé a interpretar o Corão.

Os xiitas — segunda grande corrente do islão — tem a sua própria hierarquia, composta por aiatolas e mulás, uns e outros tem grande ascendente no povo. Mais ainda que no Ocidente, porque, como recorda o especialista egípcio Samir Khalil Samir, «o clericalismo no islão é todavia mais forte que na Igreja católica».

O silêncio dos clérigos moderados — provavelmente maioritários — é aproveitado pelos radicais, muito activos em mesquitas, reuniões internacionais e desde há anos na internet.

Um encontro muito publicitado sobre a Yihad, a guerra santa, celebrado em 2002 em Beirute, com a presença de mais de 200 ulemas xiitas e sunitas procedentes de 35 países, chegou à conclusão de que os atentados suicidas de activistas palestinianos (qualificados de «muyahidín») eram «acções de martírio legítimas com fundamento no Corão e na tradição do profeta». A cúpula clerical celebrou-se quatro meses depois dos ataques do 11 de Setembro.


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