Na missa de Santa Marta, o Papa Francisco convida a seguir o exemplo do Bom Samaritano do Evangelho e "deixar que Deus escreva a própria vida"
Roma, 07 de Outubro de 2013
Às vezes, "pode acontecer que mesmo um cristão, um católico
fuja de Deus, enquanto que um pecador, considerado distante de Deus,
escute a voz do Senhor”. É a reflexão que o Papa Francisco fez durante a
homilia da Missa matutina na Casa Santa Marta. O Papa, que no dia 13 de
Outubro consagrará o mundo ao Coração Imaculado de Maria, vestia uma
casula branca em honra à Beata Virgem do Rosário que se celebra hoje.
A homilia do Pontífice foi inspirada na primeira leitura da
liturgia de hoje, que recorda a história de Jonas, que "foge" depois de
ter recebido o chamado de Deus para pregar contra Nínive. Jonas reza,
louva e serve a Deus, faz o bem, destacou o Santo Padre, ainda quando o
Senhor o chama, “pega um navio para a Espanha. Fugia do Senhor”, porque
“não queria ser incomodado”.
Este ato de "fugir de Deus", é uma tentação que todos nós, cristãos
ou não, enfrentamos todos os dias, disse o Papa. “É possível fugir de
Deus, ainda sendo cristão, sendo católico, sendo da Acção Católica, sendo
sacerdote, bispo, Papa... Todos podemos fugir de Deus! É uma tentação
diária”, frisou.
Com tal de “não escutar a Deus, não escutar a sua voz, não sentir no
coração a sua proposta, o seu convite” estamos dispostos a
distanciar-nos Dele, e as modalidades são infinitas. “Pode-se fugir directamente” ou encontram-se outros modos “um pouco mais educados, um
pouco mais sofisticados”.
Um exemplo é o Evangelho de hoje, em que Cristo, contando a parábola
do Bom Samaritano, fala de um sacerdote que vê um homem espancado e
ferido na rua e passa adiante. “Foge” portanto de Deus, observou
Bergoglio: “Aí está esse homem meio morto, jogado no chão da estrada, e
por acaso um sacerdote descia por aquela mesma estrada – um digno
sacerdote, de batina, bom, muito bom! – Viu e olhou: ‘Chego tarde à
Missa’, e foi embora. Não tinha ouvido a voz de Deus, ali”.
Do mesmo modo um levita, passando - continuou o Papa – vê o homem e
pensa: “Se eu o pegar ou se me aproximar, talvez amanhã estarei morto, e
amanhã terei que ir ao juiz para dar testemunho...”. Portanto, segue
adiante e também ele “foge desta voz de Deus”.
Finalmente – disse Francisco – passa um Samaritano, “alguém que
normalmente fugia de Deus, um pecador”, e talvez por isso o único que
“tem a capacidade de compreender a voz de Deus”. O samaritano, de fato,
“não estava acostumado às práticas religiosas, à vida moral, até
teologicamente estava errado” – explicou – porque os samaritanos
“acreditavam que Deus deveria ser adorado em outro lugar e não onde
queria o Senhor”. " No entanto, ele "percebeu que Deus o chamava, e não
fugiu", mas "aproximou-se, enfaixou-lhe as feridas colocando óleo e
vinho, depois o colocou sobre a própria montaria”. Como se não fosse
suficiente “levou-o a uma estalagem e tomou conta dele”. “Perdeu toda a
tarde”, afirmou Bergoglio.
Mas como explica tudo isso? "Por que Jonas fugiu de Deus? Por que o
sacerdote fugiu de Deus? Por que o levita fugiu de Deus?" perguntou-se o
Santo Padre. “Porque tinha o coração fechado – respondeu – e quando a
pessoa tem o coração fechado, não pode escutar a voz de Deus”. Pelo
contrário, o samaritano “tinha o coração aberto, era humano, e a
humanidade o aproximou”.
O problema, além do mais – acrescentou o Pontífice – é que Jonas,
assim como o sacerdote e o levita, “tinha um projecto para a sua vida:
ele queria escrever a própria história”, tinha “um projecto de trabalho”.
Pelo contrário, o samaritano pecador “deixou que Deus escrevesse a sua
vida: mudou tudo, aquela tarde, porque o Senhor aproximou dele a pessoa
desse pobre homem, ferido, gravemente enfermo, jogado no caminho”.
A pergunta que o Papa Francisco dirigiu a todos os presentes,
incluindo ele próprio, foi: “Deixamos Deus escrever a nossa vida, ou
queremos escrevê-la nós?". E ainda: "Somos dóceis à Palavra de Deus?
Você tem a capacidade de escutá-la, de senti-la? Você tem a capacidade
de encontrar a Palavra de Deus na história de cada dia, ou as suas
ideias são as que lhe guiam, e você não deixa que a surpresa do Senhor
lhe fale?”.
Concluindo a homilia, o Santo Padre disse: "Tenho certeza de que
todos nós vemos que o samaritano, o pecador, não fugiu de Deus". A sua
esperança é portanto que o Senhor “nos conceda sentir a Sua voz, que nos
diz: Vai e também você faça a mesma coisa".
No final da celebração, o Papa cumprimentou todos os presentes na
função. Entre eles, um grupo de funcionários do Vaticano e de
jornalistas credenciados junto à Santa Sé, entre os quais uma
representação de ZENIT.
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