Entrevista exclusiva com Philippe Ariño, escritor e blogueiro contra-corrente
Roma, 16 de Maio de 2014 (Zenit.org)
[A primeira parte da entrevista foi publicada ontem, quinta-feira, 15 de Maio]
***
ZENIT: Você acha que é possível curar-se da homossexualidade?
Philippe: Sim. Deus pode curar todas as nossas feridas, incluindo
aquelas psico-sexuais. No entanto, não me fixo só em uma forma de cura
da homossexualidade. Não nos esqueçamos que é Deus que escolhe as formas
e não nós, não nós! Não nos esqueçamos nem mesmo que existem vários
graus de profundidade da feridade homossexual, e que em certas pessoas a
homossexualidade não é tão profundamente enraizada, enquanto que em
outras ela é tão profunda (sem, contudo, ser fundamental) que procurando
eliminar a erva daninha, é arriscado arrancar também a boa semente.
É importante acreditar nas curas espectaculares de Jesus (e conheço
algumas pessoas que conseguiram superar os seus medos e as suas feridas
homossexuais), sem mencionar as curas progressivas e menos espectaculares. Por exemplo, há pacientes com câncer que vão a Lourdes e
que retornam com a mesma doença. Oraram mal ou fizeram mal os seus
pedidos? Não. Eles se curaram de outra forma. Por meio do sentido que a
força de Jesus dá aos seus sofrimentos. Às vezes, Deus permite que o mal
se enraíze para melhor manifestar a sua presença transcendente.
Algumas pessoas (especialmente entre os fundamentalistas religiosos
cristãos e protestantes em particular) são fanáticos pelos “ex-gay” e
pelas “terapias reparadoras” no que diz respeito à homossexualidade. Na
prática, eles renegam totalmente as pessoas homossexuais, as suas
liberdades, os seus caminhos e a sua realidade do desejo homossexual.
Segundo eles, porque se trata de um problema “horrível”, que não deveria
existir, e acaba por não existir realmente!
A este respeito, ouvi dizer, algumas conferências contra o género e o
"matrimónio para todos”, são um claro incentivo para não enfrentar a
questão da homossexualidade. É muito preocupante esta fuga em direcção a
um maniqueísmo espiritual ou um cientificismo frio. A Igreja nos chama
para realmente colocarmos a pessoa antes da Verdade, mesmo que a Verdade
seja necessária para a consistência da Caridade.
Devemos encarar a homossexualidade antes de saber o que fazer com
ela. Em relação a este desejo real, um certo número de católicos tem a
tendência de concentrar-se na cura antes mesmo de observar do que é que
se tem que curar, antes mesmo de considerar a pessoa homossexual e de
ver que alguns de nós permanecerão homossexuais por toda a vida. Acaba
que essas pessoas se defraudam tanto da sua homossexualidade, por causa
dos muitos católicos que focam só na cura, que ocasiona muitos danos. O
pior é que são sinceros, desde o momento que nos vitimizam, choram por
nós, dramatizam a nossa situação e afinal nos culpam ainda mais. Se
ainda sente-se o desejo homossexual depois de casados, depois de ter
pedido incansavelmente a cura a Jesus, depois de uma psicoterapia ou uma
ágape-terapia, é preciso desconfiar por tamanha “maldade”? Por uma tão
grande falta de fé e de impermeabilidade ao dom da graça? Nunca devemos
deixar de acreditar na cura de Jesus. Não devemos deixar de pedi-la, mas
as formas desta cura não nos pertencem, mesmo que nós concorramos a
ela, Jesus não no-la dará sem o nosso consentimento e sem a nossa
liberdade.
Tento explicar (especialmente a certos espíritos tão piedosos que
colocam a Verdade por acima da Caridade e da realidade) que não é
porque eu os coloque em guarda contra a heterossexualidade (que é uma
paródia da diferença entre os sexos, paródia que a Igreja, por outro
lado, nunca defendeu), e nem mesmo porque eu trate com prudência o
conceito de “cura da homossexualidade", nem mesmo porque até fale
abertamente sobre a homossexualidade, que, portanto, eu justifique a
homossexualidade ou me reduza a ela ou ainda duvide da eficácia das
“terapias reparadoras”, em alguns casos. Tudo o que quero é a doçura e o
respeito pelas pessoas, na exigência da Verdade proposta por Jesus. Ele
não nos acolhe “a partir do momento em que não formos mais
homossexuais” ou “porque não seremos realmente homossexuais” nem “para
mudar-nos”. Ele quer converter-nos. Não mudar-nos. E leva a sério o que
nós sentimos. Ele trabalha com o que nós somos e, a partir daí, se
adapta e diz: "Vamos ver o que podemos fazer".
ZENIT: Finalmente, quais conselhos você daria aos países
europeus que se preparam para receber o tsunami do “matrimónio para
todos” e da ideologia do género?
Philippe: Aconselho que utilizem a mesma linguagem que os promotores
dessas leis desumanas que desconstroem a identidade sexuada, o matrimónio e a família, ao invés de começar com o que já se sabe (que
pode ser correto no papel ou na teoria, mas que não acrescentará nada ao
raciocínio emotivo e sentimentalista da opinião pública e dos nossos
governantes).
Por enquanto, e o caso da França em 2013 o provou mais uma vez, nós
tivemos muito medo de falar sobre homossexualidade e homofobia. Nos
escondemos atrás da criança, da família, tanto que a lei do “matrimónio
para todos” passou, dividindo-se hipocritamente em duas. Os nossos
políticos tiveram a coragem de dizer que se o que nos criava problemas
era somente a criança, eles teriam feito passar a lei de “abertura” do matrimónio “em nome do amor e da igualdade” e estariam prontos para
discutir as consequências sobre a filiação posteriormente!
A questão, para os adversários do género e do "matrimónio gay",
consiste no ajudar as pessoas homossexuais a falarem publicamente e
assim demonstrarem que a sua homossexualidade é instrumentalizada para
fazer passar uma lei que, concretamente, dá, mínimo, três pais para uma
criança, e que é uma grande mudança de civilização: é a condição da
alteração dos sexos no casamento que é reprimida!
Durante os debates sobre o "matrimónio para todos" será preciso,
acima de tudo, defender a diferença dos sexos amantes (não a diferença
dos sexos em si) e denunciar a heterossexualidade, que é a principal
base ideológica sobre a qual descansa o género, o "casamento para todos"
e todas as ideologias pró-gay (além da crença na "homofobia"). Só
desmistificando a homossexualidade mostra-se a grandeza dos casais
homem-mulher amantes e se destrói a idealização/banalização social da
homossexualidade!
[Entrevista por N.S. / Trad.T.S.]
(16 de Maio de 2014) © Innovative Media Inc.
in
Sem comentários:
Enviar um comentário