De acordo com um relatório de Março de 2013, no Facebook, haveria 30 milhões de perfis de pessoas mortas
Roma, 19 de Maio de 2014 (Zenit.org) Jorge Henrique Mújica
Era o dia 4 de Outubro de 2012 quando o Facebook chegou ao
montante estratosférico de mil milhões de utilizadores registados. O facto não
passou despercebido e com razão: nenhuma outra rede social, pode
gabar-se de ter conseguido um alcance assim: “Na manhã de hoje, mais de mil milhões de pessoas estão usando o Facebook a cada mês activamente”,
escreveu Mark Zuckerberg em seu próprio perfil. E continuava: "Se você
está lendo isso: obrigado por dar a mim e à minha pequena equipe a honra
de servir-lhes. Ajudar a mil milhões de pessoas a conectar-se é incrível, enche-me de humildade e é de longe a conquista da qual mais me orgulho
em toda a minha vida. Estou comprometido a trabalhar a cada dia para
fazer que o Facebook seja melhor para vocês e, com esperança, algum dia
também poderemos conectar o resto do mundo”.
Em contraste, tornou-se menos conhecido um facto que não é para
subestimar: de acordo com um relatório realizado em Março de 2013 pelo
fundador de Entrusted, Nate Lustig, no Facebook, haveria 30 milhões de
mortos. Esses "perfis" seriam de pessoas que teriam se registado como
utilizadores e que, em diferentes momentos e por razões diversas, morreram,
deixando um património digital nessa rede social.
Quem se regista numa rede social como o Facebook fá-lo, na grande
maioria dos casos, para partilhar com os seus amigos a própria vida
através de fotos, comentários, vídeos, links, etc. Assim, o mural
pessoal do Facebook transforma-se numa linha do tempo da própria
existência: uma espécie de baú da lembrança no qual experiências vão
sendo acumuladas.
Em muitas ocasiões, as pessoas visitam os murais de outras para
conhecer um pouco sobre elas ou para actualizar-se sobre o que essa outra
pessoa fez e partilhou em datas recentes ou remotas. No caso dos
perfis das pessoas mortas, tornam-se uma espécie de “filme digital” que
permite repassar a vida dos defuntos.
O que tem isto a ver com o céu e o inferno? A doutrina católica
afirma que na hora da morte nos apresentamos diante de Deus para o nosso
juízo particular. Esse juízo será da própria vida e o resultado final
são duas opções: o céu ou o inferno. Mantendo-nos no número informado,
podemos dizer que 30 milhões de ex-utilizadores do Facebook apresentaram
como matéria do seu exame pessoal de vida também os conteúdos que
livremente publicaram.
Sendo as redes sociais uma realidade tão jovem, os mortos que as
usaram são, por assim dizer, aqueles que agora estão acrescentando ao
seu próprio juízo particular diante de Deus os bons ou maus conteúdos
colocados no seu próprio perfil pessoal. Que isso leve a um exame sobre
aquilo que os que ainda estamos vivos partilhamos no Facebook não
parece algo secundário para um católico que tenha a disponibilidade e a
convicção de querer viver como tal (e a segurança de que chegará o
próprio turno diante do tribunal de Deus). Quantas palavras
superficiais, mexericos, são ditos nas redes sociais; quantos ataques
contra pessoas e instituições em tantos murais do Facebook! Pensemos
naquelas fotografias onde se poderia pensar em tantas coisas menos que a
pessoa que a compartilha é um discípulo de Jesus Cristo. Quanta vaidade
em certos materiais e quanta inveja reflectida em outros!
Lembrar tudo o que contradiz o que afirmamos crer não é uma ocasião
para apaga-los (acção possível, além do mais), mas para levar o nosso
pensamento a outra realidade não menos importante do ensinamento
católico. Entre os sacramentos que Jesus Cristo instituiu encontra-se o
da penitência. Por meio da confissão e perdão dos nossos pecados (de
acordo com a prática da Igreja) ficamos limpos e em condições de seguir
o caminho do céu. Por assim dizer, pelo sacramento da reconciliação
Deus não somente apaga aqueles conteúdos moralmente reprováveis que
colocamos no Facebook, mas, além do mais, esquece voluntariamente que os
tenhamos colocado.
Em meados de Maio de 2014 um acórdão do Tribunal de Justiça Europeu
decidiu em favor do direito dos cidadãos ao assim chamado “esquecimento
digital”. Dessa forma, páginas como a Google ficam obrigadas a apagar todo o
rastro de dados de pessoas para que o seu direito à privacidade seja
assegurado. Em muitos casos, as pessoas que recorrem a este direito, fazem-no porque querem desvincular-se de uma parte das suas vidas
normalmente relacionadas a erros que lhes trouxeram descrédito ou o não
querer ficar associados a determinado modo de pensar que já não é o
seu. Não é maravilhoso pensar que o primeiro que nos presenteia o dom do
esquecimento é Deus mesmo quando nos perdoa no sacramento que instituiu
para isso? A sentença europeia é, por assim dizer, algo que Deus já
fazia e não somente no âmbito digital.
O Cura d'Ars tem um pensamento aplicável ao que estamos tratando: “O
bom Deus sabe de tudo. Antes mesmo de que você se confesse, já sabe que
vai pecar de novo e, apesar disso, lhe perdoa. Como é grande o amor do
nosso Deus que o leva até mesmo a esquecer-se voluntariamente do futuro,
para assim perdoar-nos!”. Certamente o tempo que nos fica de vida não
supõe um muro de Facebook imaculado. Mas, talvez sim, poderemos ter mais
presente que no final da nossa vida também deveremos prestar contas do
que fizemos aí ou deixamos de fazer. Ou em outras palavras: em cada
publicação vamos merecendo o céu... ou o inferno.
No contexto dos seus primeiros 10 anos de existência, em dezembro de
2013, o Facebook deu aos seus utilizadores a chamada "Timeline Movie Maker”: o
filme da própria vida que era possível conseguir com um simples clique.
Talvez será também o que Deus vai querer presentear-nos para que junto
com ele olhemos ao final do nosso passo por esta terra e pelo Facebook.
Que possamos desfrutar e não envergonhar-nos ou arrepender-nos é algo
que depende de nós, porque, afinal, somos o que publicamos.
(Trad.TS)
(19 de Maio de 2014) © Innovative Media Inc.
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