Numa extensa entrevista no La Repubblica
| O Papa Francisco fala com o jornalista ateu Scalfari numa longa entrevista no La Repubblica |
Actualizado 1 de Outubro de 2013
Efe
O Papa Francisco assegurou que o defeito da Curia romana, o governo da Igreja, é que se ocupa só dos problemas da Santa Sé esquecendo o mundo que a rodeia, numa entrevista publicada hoje 1 de Outubro no diário "La Repubblica".
A Curia "tem um defeito: é Vaticano-Centrica. Vê e se ocupa dos interesses do Vaticano e esquece o mundo que a rodeia. Não partilho esta visão e farei de tudo para mudá-la", explicou o papa na entrevista ao fundador do jornal, Eugenio Scalfari.
A entrevista publica-se hoje em concomitância com a primeira reunião que manterá o papa com o chamado G8 da Igreja, o Conselho de oito cardeais nomeados por Francisco para analisar a possível reforma da Cúria romana.
Voltar a ser uma comunidade
"A Igreja tem que voltar a ser uma comunidade do povo de Deus e os presbíteros, os párocos e os bispos devem estar ao serviço do povo de Deus", acrescentou o papa Jorge Bergoglio.
Para o ex-arcebispo de Buenos Aires, no passado "os chefes da Igreja foram com frequência narcisistas, adulados pelos seus cortesãos" e acrescentou que "a Corte é a lepra do papado".
Sobre a sua visão da Igreja, explicou que não se deve basear no "proselitismo" mas sim "em escutar as necessidades, as desilusões, a desesperação e dar esperança aos jovens e ajudar os velhos, abrir o futuro e difundir o amor. Ser pobres entre os pobres".
Abrir-se à cultura moderna
Bergoglio indicou nesta entrevista de três páginas que no Concilio Vaticano II se decidiu "olhar o futuro com espírito moderno e abrir à cultura moderna, que significava ecumenismo religioso e diálogo com os não crentes".
Mas o pontífice reconheceu que "até agora se fez pouco" e anunciou que ele tem a humildade e a ambição" de levar a cabo esse caminho da Igreja até à modernidade.
O Conselho dos oito sábios
A respeito das mudanças que tem previsto efectuar, recordou como nomeou o Conselho dos oito cardeais para que o aconselhem.
"Não são cortesãos mas sim pessoas sábias, animadas pelos meus mesmos sentimentos. Isto é o início de uma Igreja com uma organização não só vertical mas sim também horizontal", destacou.
Durante a conversação com Scalfari, Francisco brincou ao assegurar que quando tem à frente um "clerical" também ele se torna "anticlerical de repente" e é que, explicou, "o clericalismo nada tem que ver com o cristianismo" e que "São Paulo foi o primeiro que falou com os pagãos, os crentes de outras religiões".
Por outra parte, asseverou que a Igreja "não se ocupará de política", pois "as instituições políticas são laicas por definição e actuam em esferas diferentes".
"A Igreja não irá mais além do seu dever de expressar e difundir os seus valores, ao menos enquanto eu esteja aqui", confirmou.
Os desempregados, crianças e anciãos
Na entrevista também se tocam assuntos de actualidade e Bergoglio considerou que "os grandes males que afligem o mundo são o desemprego dos jovens e a solidão na qual deixaram os velhos".
"Os velhos necessitam cuidados e companhia. Os jovens trabalho e esperança", indicou.
O Papa também criticou o "liberalismo selvagem" que faz que "os fortes se façam mais fortes, os débeis mais débeis e os excluídos mais excluídos", e acrescentou que "se necessitam regras de comportamento e se fosse necessário também a intervenção do Estado para corrigir as desigualdades mais intoleráveis".
Na entrevista, o Papa fala dos santos da sua experiência religiosa e, ainda que acrescentou que não se pode fazer uma classificação de preferidos "como se fossem futebolistas argentinos", os "mais próximos à sua alma" são São Francisco e Santo Agostinho.
Uma experiência de luz
Sobre a "vocação mística" de alguns santos, Bergoglio explicou que não crê que tenha esta vocação, ainda que revelou como depois de ser eleito papa e enquanto esperava antes de assomar-se ao balcão da basílica de São Pedro fechou os olhos e deixou de sentir "a ânsia e a emotividade"
"Uma grande luz invadiu-me, durou só um momento ainda que me pareceu muitíssimo tempo. Logo a luz se dissipou, eu levantei-me de repente e dirigi-me à mesa onde estavam os cardeais para assinar o acto de aceitação. E assinei", relatou.
O papa termina a entrevista com Scalfari prometendo um novo diálogo com o jornalista, que se define ateu e a quem já dirigiu uma carta sobre os não crentes, na qual se afrontaram assuntos como o papel da mulher na Igreja.
A entrevista completa em PDF em italiano, AQUI
Efe
O Papa Francisco assegurou que o defeito da Curia romana, o governo da Igreja, é que se ocupa só dos problemas da Santa Sé esquecendo o mundo que a rodeia, numa entrevista publicada hoje 1 de Outubro no diário "La Repubblica".
A Curia "tem um defeito: é Vaticano-Centrica. Vê e se ocupa dos interesses do Vaticano e esquece o mundo que a rodeia. Não partilho esta visão e farei de tudo para mudá-la", explicou o papa na entrevista ao fundador do jornal, Eugenio Scalfari.
A entrevista publica-se hoje em concomitância com a primeira reunião que manterá o papa com o chamado G8 da Igreja, o Conselho de oito cardeais nomeados por Francisco para analisar a possível reforma da Cúria romana.
Voltar a ser uma comunidade
"A Igreja tem que voltar a ser uma comunidade do povo de Deus e os presbíteros, os párocos e os bispos devem estar ao serviço do povo de Deus", acrescentou o papa Jorge Bergoglio.
Para o ex-arcebispo de Buenos Aires, no passado "os chefes da Igreja foram com frequência narcisistas, adulados pelos seus cortesãos" e acrescentou que "a Corte é a lepra do papado".
Sobre a sua visão da Igreja, explicou que não se deve basear no "proselitismo" mas sim "em escutar as necessidades, as desilusões, a desesperação e dar esperança aos jovens e ajudar os velhos, abrir o futuro e difundir o amor. Ser pobres entre os pobres".
Abrir-se à cultura moderna
Bergoglio indicou nesta entrevista de três páginas que no Concilio Vaticano II se decidiu "olhar o futuro com espírito moderno e abrir à cultura moderna, que significava ecumenismo religioso e diálogo com os não crentes".
Mas o pontífice reconheceu que "até agora se fez pouco" e anunciou que ele tem a humildade e a ambição" de levar a cabo esse caminho da Igreja até à modernidade.
O Conselho dos oito sábios
A respeito das mudanças que tem previsto efectuar, recordou como nomeou o Conselho dos oito cardeais para que o aconselhem.
"Não são cortesãos mas sim pessoas sábias, animadas pelos meus mesmos sentimentos. Isto é o início de uma Igreja com uma organização não só vertical mas sim também horizontal", destacou.
Durante a conversação com Scalfari, Francisco brincou ao assegurar que quando tem à frente um "clerical" também ele se torna "anticlerical de repente" e é que, explicou, "o clericalismo nada tem que ver com o cristianismo" e que "São Paulo foi o primeiro que falou com os pagãos, os crentes de outras religiões".
Por outra parte, asseverou que a Igreja "não se ocupará de política", pois "as instituições políticas são laicas por definição e actuam em esferas diferentes".
"A Igreja não irá mais além do seu dever de expressar e difundir os seus valores, ao menos enquanto eu esteja aqui", confirmou.
Os desempregados, crianças e anciãos
Na entrevista também se tocam assuntos de actualidade e Bergoglio considerou que "os grandes males que afligem o mundo são o desemprego dos jovens e a solidão na qual deixaram os velhos".
"Os velhos necessitam cuidados e companhia. Os jovens trabalho e esperança", indicou.
O Papa também criticou o "liberalismo selvagem" que faz que "os fortes se façam mais fortes, os débeis mais débeis e os excluídos mais excluídos", e acrescentou que "se necessitam regras de comportamento e se fosse necessário também a intervenção do Estado para corrigir as desigualdades mais intoleráveis".
Na entrevista, o Papa fala dos santos da sua experiência religiosa e, ainda que acrescentou que não se pode fazer uma classificação de preferidos "como se fossem futebolistas argentinos", os "mais próximos à sua alma" são São Francisco e Santo Agostinho.
Uma experiência de luz
Sobre a "vocação mística" de alguns santos, Bergoglio explicou que não crê que tenha esta vocação, ainda que revelou como depois de ser eleito papa e enquanto esperava antes de assomar-se ao balcão da basílica de São Pedro fechou os olhos e deixou de sentir "a ânsia e a emotividade"
"Uma grande luz invadiu-me, durou só um momento ainda que me pareceu muitíssimo tempo. Logo a luz se dissipou, eu levantei-me de repente e dirigi-me à mesa onde estavam os cardeais para assinar o acto de aceitação. E assinei", relatou.
O papa termina a entrevista com Scalfari prometendo um novo diálogo com o jornalista, que se define ateu e a quem já dirigiu uma carta sobre os não crentes, na qual se afrontaram assuntos como o papel da mulher na Igreja.
A entrevista completa em PDF em italiano, AQUI
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