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segunda-feira, 7 de outubro de 2013

O «anjo do Bronx» era capelão da temida prisão de Rikers Island e ali realizou o milagre

Criou a Casa de Abraham, um exemplo de reabilitação 

O padre Pierre foi capelão da ilha-cadeia de Rikers Island
Actualizado 5 de Outubro de 2013

Javier Lozano / ReL

O padre Pierre Raphael converteu-se durante a sua vida sacerdotal no apóstolo dos presos e marginais. Tal como Abraham, deixou a sua terra e a sua casa na sua França natal para embarcar na aventura que Deus lhe tinha preparado. Esta terra prometida não era outra que Nova Iorque, uma cidade onde pode viver até ao extremo a sua vocação sacerdotal.

Mas a sua missão não a desempenhou próximo dos grandes símbolos da grande maçã mas sim no oculto, no escondido para o mundo. Há já 43 anos que chegou a Nova Iorque e no populoso bairro do Bronx é toda uma instituição, conhecido como o “anjo bom” dos condenados. E é que durante mais de quinze anos foi o capelão da maior cadeia dos Estados Unidos, a temível ilha-prisão de Rikers Island, que alberga mais de 20.000 presos, dos mais perigosos.

A sua extraordinária obra não se centra nesta cadeia, na qual muitos presos encontraram a paz e a conversão, mas sim que depois da sua experiência como capelão criou a Casa de Abraham, um lugar situado no Bronx destinada à reabilitação domiciliária dos presos.

Uma autêntica comunidade onde também conviviam as famílias. Foi um êxito tão extraordinário que as autoridades estadunidenses estão mais que surpreendidas.

Deixou a sua terra na França para uma longa viagem
O Padre Pierre nasceu em 1930 e foi ordenado na Missão da França em 1961. Procurando uma vida mais contemplativa em 1968 saiu da Missão da França e entrou no noviciado dos Pequenos Irmãos de Foucauld. Imensamente feliz e impressionado pela sua vida de oração no deserto, o padre Pierre foi chamado a outro deserto, a um “deserto humano” em Nova Iorque. Fazia falta ali um sacerdote e em 1970 partiu para os Estados Unidos.

Ali passou anos tentando que frutificassem algumas iniciativas. Mas não o conseguia. Ele agarrava-se à vida de oração. Até que chegou o momento que mudou a sua vida. Produziu-se na véspera de Natal de 1978.

A sua chegada a Rikers Island
“Uma noite recebi uma chamada telefónica. Era um amigo meu, um sacerdote jesuíta que era capelão em Rikers Island. ‘Tenho que sair de Nova Iorque e ir a Washington e não consigo encontrar alguém que me substitua na cadeia. Poderias ir a Rikers dizer missa no domingo?’”. Assim começou a história de uma grande obra.

“Nunca tinha estado numa cadeia mas estava disposto a tudo. A oração é uma boa medicina”, recorda o padre Pierre. Deste modo, celebrou a Eucaristia perante cinquenta internos. “Chamou-me a atenção a sua grande esperança. Paradoxalmente, é mais fácil pregar o Evangelho na prisão que na catedral de São Patrício. Soube de imediato que estava na minha casa. Estava neste lugar para dar a minha vida”.

Poucos meses depois, este sacerdote era já o capelão desta gigantesca cadeia com a ajuda de duas irmãzinhas do Evangelho. A sua missão era árdua e complicada mas os frutos foram chegando.

O Senhor tinha-o ido preparando para esta missão. Conta este sacerdote que “antes de chegar a Rikers Island tinha passado três anos como assistente médico num centro de desintoxicação para alcoólicos” em Bowery, um dos bairros mais deprimidos de Nova Iorque. “Estava ali sem saber que me estava preparando com total naturalidade para o que ia encontrar todos os dias em Rikers. Descobri que toda a minha vida sacerdotal ia estar totalmente dedicada à aventura em Rikers”.

A sua grande missão na prisão
Numa cadeia que é conhecida como o inferno, a tarefa do capelão é mais que necessária. “Ao chegar o preso recebe um número. Em todo o momento deve estar preparado para dar o seu número. O valor da Igreja consiste em dizer-lhe que não é um número, que cada um de nós é chamado pelo seu nome”, afirma o padre Pierre Raphael no seu livro sobre a sua experiência nesta cadeia.


“O meu trabalho como capelão era antes de tudo fazer um serviço sacerdotal, tratava-se de um trabalho em profundidade”. Afirma que inclusive os melhores médicos às vezes não podem conseguir a cura de uma pessoa. “Eu como sacerdote estou a outro nível, em busca de uma sensibilidade diferente", conta no seu relato no qual além disso acrescenta que "o contacto pessoal e os períodos prolongados de escuta enchiam muitas das minhas horas em Rikers. Sempre acreditei, aceitei e amei o facto de que um dos dons do sacerdote é o de escutar os segredos do coração, aceitar e entender. É a maneira de entrar, em nome de Jesus no movimento sem precedentes do perdão, do magnífico perdão".

Os grandes sofrimentos na prisão
Este sacerdote viu muito na prisão, grandes dramas e sofrimentos. "Vi um montão de lágrimas na prisão, um homem que matou outro homem, um que violou a sua filha. Para eles, o capelão é uma espécie de saída de emergência". Comentava que lendo a Bíblia com os presos, estos recebem a vida e vêem uma palavra viva. Com esta frase de São Paulo: "mas vocês não viveis segundo a carne, mas sim segundo o Espírito", os encarcerados de Rikers o viam claro pois, diziam, "podemos ser presos mas esta palavra é para nós".

E certamente essa palavra ia calando em alguns destes presos, que iam verdadeiramente mudando a sua vida. Deste modo, fui amadurecendo uma ideia que pouco a pouco foi colhendo forma. No Natal de 1989 enquanto celebrava a misa para mais de 250 presos surgiu-lhe a ideia de criar um centro de reabilitação. "A prisão isola-te, eu queria tratar de reunir". 


A Casa de Abraham
Este era o embrião de uma realidade que emergiu em 1993. Era a Casa de Abraham. Junto com três monjas francesas e belgas, o padre Pierre fundava esta casa num edifício não utilizado da Diocese de Nova Iorque no bairro do Bronx.

“O impacto da saída da prisão é mais duro que o da entrada. O ex-preso não é aceite pela sociedade. Não encontra trabalho. Os seus laços familiares são tensos, quebrados ou inexistentes. Teme o exterior, sobretudo se passou mais tempo dentro da cadeia que fora”, afirma para recordar “o síndroma da porta giratória”. Segundo se vão da cadeia pouco depois voltam.

O milagre que surpreende as autoridades
Esta casa pretende, e assim o acreditou, romper o ciclo da delinquência. Curá-la por fora e por dentro. Dar a estes presos uma esperança na vida, que vá mais além da delinquência.

Vinte anos depois o padre Raphael é toda uma instituição no Bronx depois de ajudar a reinserir-se centenas de pessoas pelas quais ninguém se preocupava. “Queremos transformar delinquentes de pouca monta em cidadãos responsáveis. A religião, obviamente, joga um papel importante nesta reabilitação. Se queres sair, tens que acreditar em algo, não podes fazê-lo só. A espiritualidade lhes dá uma razão para reintegrar-se, para não render-se”.

A chave é criar o centro Abraham como uma família. Ali convivem presos e as suas famílias. Oram, preparam seminários e inclusive as crianças vão às aulas. O milagre é que enquanto no estado de Nova Iorque, 70% dos presos que sai da cadeia volta a recair, a percentagem cai estrepitosamente nos que passaram pela Casa de Abraham. Este sacerdote francês conseguiu todo um milagre.

"A fé é a única resposta"
Não é raro que os ex-presos voltem a nós para acompanhar-nos na missa de domingo, e dizem-nos que sem a fé, sem a ajuda da Casa de Abraham, não poderiam ter saído desta espiral”.

Depois de décadas dedicadas nas periferias existenciais, como diz o Papa Francisco, a força para o combate a encontrou em todo momento na oração. “Sem ela, estaria mumificado. A fé é a única resposta à imensidade dos problemas que tenho”.


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