Entrevista exclusiva com Philippe Ariño, escritor e blogueiro contra-corrente
Roma, 15 de Maio de 2014 (Zenit.org)
A diferença é subtil: os actos homossexuais são pecado, mas a
inclinação homossexual é um fato que as pessoas que assentem não devem
sentir-se envergonhadas. Pelo contrário: se vivida na castidade e se o
sofrimento que provoca é oferecido a Deus, a inclinação homossexual pode
se tornar um instrumento de santificação.
Convencido disso está Philippe Ariño, jovem escritor e blogueiro
francês, cuja história tem causado polémica internacional. A partir de
algumas conferências na Itália (incluindo uma na Feira do Livro e outra
hoje em Milão no Palazzo Isimbardi, intitulada Homofobia: vítimas e agressores) Ariño falou de si mesmo para ZENIT. Sem falsa modéstia.
ZENIT: Philippe, em breve você vai ter 34 anos e é uma figura
emblemática no panorama homossexual e católico na França. O seu blog A aranha do deserto, (L’Araignée du Désert – www.araigneedudesert.fr),
e especialmente o seu Dicionário dos símbolos homossexuais,
(Dictionnaire des Codes homosexuels), fazem muito alvoroço nas redes
sociais. Como isso é possível, na sua opinião?
Philippe: Não é fácil entender como as pessoas homossexuais sejam
amadas! Estou falando sério. Normalmente, a fragilidade humana sempre
despertou a compaixão e ternura. Além disso, a homossexualidade é uma
palavra que fascina e, ao mesmo tempo, assusta, porque está cercada de
mistério, de sofrimento (intuído, mas pouco publicado), de ignorância,
de silêncio (as pessoas que se aventuram a falar no tema têm medo de
serem chamadas de “homossexuais” ou “homofóbicos”), de boas intenções
(com o tempo ela tomou o nome de “amor” ou de “identidade”
indiscutíveis, também a nível legislativo) e de uma grande violência
simbólica. De fato, no espaço de um século e meio, escorregou-se dos
Direitos do Homem aos “direitos dos heterossexuais e dos homossexuais",
removendo dos seres humanos a sua humanidade sexuada e isso é objectivamente violento. Como é possível reduzir as pessoas aos seus
fantasmas eróticos, em detrimento das suas identidades profundas de
homem (ou de mulher) e de Filhos de Deus? Eu, muito antes de ser uma
pessoa homossexual, sou um homem e um filho de Deus. Não me reduzo aos
meus instintos. Não sou um animal e nem um obcecado pelo sexo! Sou um
ser humano... habitado por um desejo homossexual mais ou menos
permanente. Isto é tudo.
Tendo em conta que hoje a homossexualidade é banalizada e, ao mesmo
tempo demonizada ou sacralizada (em outras palavras os nossos meios de
comunicação e os nossos políticos a absolutizam ou a justificam para não
explica-la) tornou-se o ópio dos povos, argumento de censura invocado
por qualquer motivo ou causa política, mesmo a mais delirante! Actualmente a bipolaridade homossexualidade/heterossexualidade, ou
melhor, uma humanidade definida pelos seus fantasmas eróticos, é a pedra
no sapato do nosso planeta. Os nossos contemporâneos se sentem perdidos
identitariamente na sexualidade e no amor, dado que eles se
distanciam das duas rochas que nos fundamentam e que nos ajudam a amar
verdadeiramente: a diferença entre os sexos amantes e a diferença entre
Criador e criatura. Os nossos contemporâneos também são perturbados pelo
fato de que a violenta exclusão dessas duas diferenças fundamentais
seja amplamente chamada de "amor", "espécie humana", "desejo homossexual
normal", "luta contra as discriminações”, etc., quando realmente é uma
rejeição das diferenças. Há um paradoxo que muitos homens modernos não
querem mais responder: de fato, como é possível argumentar, na mesma
frase, que "temos de aceitar todas as diferenças" e também que "as
diferenças não existem, porque somos todos iguais e temos os mesmos
direitos?” Estamos diante de uma cacofonia interior e exterior!
ZENIT: Como é possível dizer ser, ao mesmo tempo, católico
praticante e um homossexual, sabendo que a Igreja condena firmemente os
actos homossexuais?
Philippe: É muito simples! Em primeiro lugar, compreendo que a Igreja
acolhe plenamente o pecador com o seu pecado, mas sem justificar este
mesmo pecado ou os sinais que a pessoa traz dele consigo, sem
eliminá-los magicamente. Além do mais, é possível, não praticando a
própria homossexualidade, mas considerando-a, no entanto, como um desejo
realmente existente que pode ser transformado e doado aos outros.
Então, torna-se possível (re)descobrir a própria homossexualidade como
um poderoso motor de santidade, quando no início era uma vergonha, um
instinto do qual era necessário livrar-se. Desde que eu escolhi viver na
continência (desde Janeiro de 2011 coloquei um ponto final na sedução,
na pornografia e na masturbação), a vergonha me deixou, a língua se
soltou, a minha alegria é maior, as minhas amizades são mais numerosas e
mais sólidas, a minha homossexualidade se torna um factor de humor e
convívio, não vivo mais momentos de melancolia como antes. A
continência, embora não deva ser colocada no mesmo nível do matrimónio
entre homem e mulher ou do celibato consagrado, deve ser proposta com
delicadeza (dependendo de cada situação), pode ser um “celibato da
espera” maravilhoso, para cada pessoa que se sente permanentemente
homossexual e que poderá dificilmente aspirar ao matrimónio ou ao
sacerdócio. Na minha vida, a continência é já um passo muito grande em direcção ao dom completo da minha pessoa assim como é, com as minhas
forças, mas também com as minhas debilidades. A continência em si não é
suficiente para mim. Mas, já é uma libertação. Com a continência
criou-se uma unidade entre a minha condição homossexual e o meu amor à
Igreja. Posso doar-me inteiramente e também, como este desejo
homossexual vive em mim 24 horas por dia, sem ter que carregar a culpa
da prática homossexual. É realmente o ideal! Conheço somente as
vantagens do desejo homossexual sem os inconvenientes. Um ferida, em si,
não é nem bonita e nem para ser aplaudida. Mas não esqueçamos que uma
ferida doada se torna um coração aberto. Além do mais, as feridas, se
oferecidas a Deus e aos outros, deixam passar mais luz! Seria tolice,
portanto, negá-las e não utilizá-las!
ZENIT: Em breve você irá à Itália, Espanha e Inglaterra para apresentar a tradução do seu livro L’homosexualité en vérité que foi um sucesso na França e que acabou de ser traduzido ao italiano como o título Omossessualitá controcorrente (Edição Effatá)
Philippe: Sim, no início de Abril fiz uma primeira viagem a Bolonha e
volto à Itália para uma série de conferências em Turim, Milão e Roma,
por ocasião do Dia Mundial contra a Homofobia (IDAHOT), dia 17 de Maio
(para o programa completo dos eventos veja
www.coraggiodellacastita.blogspot.it). No dia 19 de Maio, irei a
Logroño, na Espanha, a convite do Bispo Mons. Omella-Omella; e em junho
me encontrarei com os Sentinelas de Londres.
[Entrevista realizada por N.S. e Trad.TS. A segunda parte será publicada amanhã, sexta-feira, 16 de Maio]
(15 de Maio de 2014) © Innovative Media Inc.
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