Que este Dia da Mulher nos sirva para tornar mais clara a necessidade de
proclamar que lutar pelos mesmos direitos e pela mesma dignidade não
implica, de modo nenhum, suprimir a diferença, nem a peculiaridade
envolvida no facto de sermos homens e mulheres
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| Pixabay |
Ainda há pouco, quando cheguei no trabalho, deparei-me com uma
pequena mensagem de homenagem às mulheres, ao inicializar o meu
computador, que dizia:
“Sinta-se livre para ser quem você é. O seu poder está na sua individualidade! Feliz dia da mulher!”
Esta mensagem me inquietou. Ela ressalta um certo “poder” feminino que estaria localizado na “individualidade”, e que implicaria na “liberdade”
de ser quem se é. E isto me soa, de facto, muito estranho e incoerente:
se alguma coisa caracteriza o sermos homens e mulheres, isto não se
caracteriza pelo desenvolvimento do “poder” da nossa “individualidade”, mas exactamente na importância da nossa relação recíproca. Vale dizer, somente há mulheres porque há homens, e vice-versa. Não se trata, pois, de exaltar o “poder” de um “individualismo” feminino como fonte de “liberdade”, mas exactamente o de reconhecer que somente na diferença é que podemos nos realizar, porque a diferença é exactamente o que possibilita a nossa relação.
Lembro-me de um pequeno episódio que ocorreu nos meus tempos de
advogado recém-formado. Eu descia o elevador do prédio em que morava
então, trajado de paletó e gravata, com uma pequena pasta nas mãos. Ao
entrar no elevador, encontrei um casal que discutia agressivamente. A
discussão parou subitamente quando eu entrei no elevador. Mas restou
aquele ar pesado, constrangedor, impossível de evitar no ambiente tão
apertado de uma cabine de elevador. De repente, após alguns momentos,
aquela senhora se dirigiu a mim: “Com licença, o senhor é advogado?” Eu respondi que sim. Então ela me interpelou: “Então diga aqui para o meu marido se as mulheres não são iguais aos homens”.
Juntando todo o meu bom humor juvenil, não resisti em lhe responder: “desculpe-me, senhora, as mulheres não são iguais aos homens. E é exactamente a diferença que permite que ele seja o seu marido…”
Para surpresa minha, a senhora abriu um grande sorriso, com o marido,
e se reconciliaram ali mesmo. Mas o episódio vem à minha memória cada
vez que alguém prega a “igualdade entre homens e mulheres”. É preciso especificar um pouco esta declaração, que não é incondicionalmente verdadeira.
Se falamos de dignidade e de direitos, a resposta é inegavelmente um
“sim”. Somos iguais em dignidade, somos iguais em direito, e, portanto, a
luta feminina para que estes dois aspectos sejam reconhecidos é muito
justa. Mas, no plano estritamente fático, somos diferentes. E
esta diferença tem tudo a ver com a relação, e com ela a própria
condição humana e sua perpetuação. Mas nós perdemos a capacidade de
reconhecer na relação aquilo que ela é de fato, a abertura recíproca que conduz à complementariedade, que por sua vez é pressuposto da completude. Não vemos nas relações senão a opressão; ou seja, definimos a essência da relação pelo seu defeito.
De fato, relação é abertura para a completude que aperfeiçoa. Mas não
há como negar que, num mundo profundamente ferido pelo mal como é o
nosso, as relações se desvirtuam e, muitas vezes, tornam-se opressoras.
Mas é neste momento que certos pensadores, como Marx, Sartre, Simone de
Beauvoir, Foucault e outros da mesma estirpe deixam de enxergar na
relação aquilo que ela é (abertura) e passam a caracterizá-la, essencialmente, como opressão. É por isto que somos massacrados com discursos que, a pretexto de eliminar a opressão, desvalorizam a própria relação
humana. E, a partir daí, o individualismo se implanta como resposta
necessária (e falsa): eu só serei feliz, dizem estes “profetas da
opressão”, à medida que me afirmar como indivíduo, e construir, sozinho,
a mim mesmo. A relação é denunciada, muitas vezes, como infernal: “o
inferno são os outros”, dizia Sartre.
Eis, pois, a ambiguidade de tudo que se vê e celebra neste “Dia Internacional da Mulher”. Em vez de celebrar a diferença
que nos abre ao outro, e que nos permite buscar, na complementariedade,
a completude, as mensagens muitas vezes nos apresentam, subtilmente, a
ideia de que homens e mulheres são adversários, e de que exactamente a
visibilidade da diferença, a sua afirmação fática, é parte do plano de opressão. Não é.
Eliminar a opressão, pois, deve passar pelo restabelecimento de que
somente na construção da sadia relação, na complementariedade,
chegaremos à perfeição desejada. As relações devem ser, de fato,
bastante cuidadas, porque, dada a condição decaída do mundo, é muito
fácil que elas decaiam em opressão. Mas a opressão não transforma a
própria relação em algo a ser descaracterizado, destruído, negado,
superado, em nome de uma “libertação individualista”. Não se nega a
distorção do poder criando um poder distorcido inverso. Isto é apenas
hegelianismo mal lido.
É por isto que me preocupa, também, que o termo “género” tenha sido adoptado para definir as mulheres. Palavras têm género. Homens e mulheres
têm sexo. Não estamos celebrando o dia da “orientação de género”, mas o
dia da mulher. Ser homem e mulher é alguma coisa que nos especifica.
Ter esta ou aquela orientação libidinosa, não. E não estou usando, aqui,
a palavra “libidinoso” com uma carga moralista, senão com uma carga
especificamente antropológica. Esta é mais uma daquelas expressões que
nos leva a uma distorção de pensamento muito comum na contemporaneidade.
Lembro-me de um debate que tive, há pouco tempo, com um grupo de
psicólogos. De como tive muita dificuldade em afirmar que as noções de
“homem” e “mulher” ainda descrevem uma realidade concreta, necessária,
ou seja , não podem ser substituídas por expressões de “género”. Isto
não é escamotear as graves questões de identidade sexual, mas é apenas
garantir a necessidade de que a linguagem humana continue inteligível.
Diante da reclamação de uma militante feminista radical, que estava
presente, de que eu estava revelando um machismo latente ao me expressar
assim, eu redargui que eu defendia apenas que a condição de mulher era privativa das mulheres, respeitadas toda a variação de apetites no entremeio como apenas acidentais. Enquanto ela entendia que qualquer homem, desde que sentisse atracção por pessoas do mesmo sexo, teria o direito de declarar-se tão mulher quanto as mulheres. E que, portanto, ela desconsiderava o factor biológico, científico, mensurável, da condição feminina, para garantir aos homens que quisessem o direito de serem mulheres também. Isto me parece, aí sim, um tremendo machismo.
Não podemos desconsiderar a realidade complexa da multiplicidade com
que os desejos e os comportamentos se apresentam na vida de cada ser
humano. Mas ao negar às mulheres o direito de serem as únicas mulheres
não me parece ser um bom feminismo. E, se é isto que o Dia da Mulher
celebra, ou seja, a diferença entre homens e mulheres, que é abertura à complementariedade, e que representa a expressão visível de que nenhum ser humano é auto-suficiente, então viva o Dia da Mulher!
Simone de Beauvoir, certa vez, afirmou que “ninguém nasce mulher, as
mulheres fazem-se”. Esta afirmação não faz nenhum sentido: se fosse
assim, cada vez que um promotor de Justiça precisasse denunciar alguém
pelo crime de feminicídio, ele precisaria submeter a vítima a uma
“perícia antropológica” para saber se, a despeito do sexo feminino que
ela traz em seu corpo, ela chegou a “fazer-se mulher” pela vida afora,
de modo a caracterizar a agravante de matar uma mulher. Isto é de um
absurdo tão patente que não precisa maior indagação. Simone de Beauvoir,
com todos os que repetem este mote por aí, desconhecem a distinção
aristotélica de “ato” e “potência”, e, na sua ignorância, produziram um slogan de campanha
travestido de mote filosófico. Todos nascemos como seres humanos em
ato, e com nossa biologia masculina e feminina em ato, mas em potência
para o desenvolvimento de todas as perfeições que nos caracterizarão na
idade adulta. Os raros casos de más formações biológicas somente
confirmam esta regra.
As mulheres são mulheres. E fazem-se mulheres, ao desenvolverem suas potencialidades humanas ao longo de sua vida. O resto é somente má poesia.
in

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