Na sua homilia, o Santo Padre pediu para não cair na tentação da resignação
Nesta terça-feira, penúltimo dia de sua visita ao México, o Papa
Francisco celebrou a santa missa no estádio Venustiano Carranza em
Morelia, com a participação de cerca de 20.000 sacerdotes, religiosos,
religiosas, religiosos e seminaristas. O Papa foi recebido pelo cardeal
Alberto Suárez Inda, em meio a uma atmosfera de festa com gritos como
“Nós te amamos, Papa, te amamos!” ou “Papa, amigo, eres bem-vindo!”
Em sua homilia, o Santo Padre disse que “a nossa vida fala da oração e
oração fala da nossa vida”. “Ai de nós se não somos testemunhas do que
vimos e ouvimos, ai de nós. Não somos e nem queremos ser funcionários do
divino, não somos e nem queremos ser nunca empregados de Deus, porque
somos convidados a participar da sua vida, somos convidados a entrarmos
no seu coração, um coração que reza e vive dizendo: “Pai nosso”. Qual é a
missão, senão dizer com nossa vida: “Pai nosso?”, acrescentou.
“Qual tentação pode vir-nos de ambientes muitas vezes dominados pela
violência, a corrupção, o tráfico de drogas, o desprezo pela dignidade
da pessoa, a indiferença perante o sofrimento e a precariedade?”,
perguntou aos presentes.
“Confrontados com esta realidade podemos ser vencidos por uma das
armas preferidas pelo demónio, a resignação. Uma resignação que nos
paralisa e nos impede de não só de caminhar, mas também abrir caminho;
uma resignação que não só nos assusta, mas que nos fecha nas nossas
“sacristias” e aparentes seguranças; uma resignação que não só nos
impede de anunciar, mas que nos impede de louvar. Uma resignação que não
só nos impede de projectar, mas que nos impede de arriscar e
transformar”, destacou o Pontífice.
“Faz-nos bem apelar nos momentos de tentação à nossa memória. Quanto
nos ajuda olhar a “madeira” de que somos feitos. Nem tudo começou
connosco, nem tudo terminará connosco, por isso, quanto bem nos faz
recuperar a história que nos trouxe até aqui”, recordou.
“Pai, papai, abba, não nos deixes cair na tentação da resignação”, concluiu.
Publicamos a seguir as palavras do Papa Francisco:
***
Há um dito entre nós que recita assim: «Diz-me como rezas e dir-te-ei
como vives, diz-me como vives e dir-te-ei como rezas»; porque,
mostrando-me como rezas, aprenderei a descobrir o Deus vivo e,
mostrando-me como vives, aprenderei a acreditar no Deus a quem rezas,
pois a nossa vida fala da oração e a oração fala da nossa vida.
Aprende-se a rezar, como se aprende a caminhar, a falar, a escutar. A
escola da oração é a escola da vida, e a escola da vida é o lugar onde
fazemos escola de oração.
E Paulo, quando ensinava ou exortava o seu discípulo predilecto
Timóteo a viver a fé, dizia-lhe: «Lembra-te da tua mãe e da tua avó». E,
quando os seminaristas entravam no Seminário, muitas vezes
perguntavam-me: «Padre, eu gostava de ter uma oração mais profunda, mais
mental». «Olha, continua a rezar como te ensinaram na tua casa e
depois, pouco a pouco, a tua oração irá crescendo, como cresceu a tua
vida». Aprende-se a rezar, como tudo na vida.
Jesus quis introduzir os seus no mistério da Vida: no mistério da
vida d’Ele. Mostrou-lhes – comendo, dormindo, curando, pregando, rezando
– o que significa ser Filho de Deus. Convidou-os a partilhar a sua
vida, a sua intimidade e, enquanto estavam com Ele, fez-lhes tocar na
sua carne a vida do Pai. No seu olhar, no seu caminhar, fê-los
experimentar a força, a novidade de dizer: «Pai Nosso». Em Jesus, esta
expressão «Pai Nosso» não tem o sabor velho da rotina ou da repetição;
pelo contrário, sabe a vida, a experiência, a autenticidade. Ele soube
viver rezando e rezar vivendo, ao dizer: Pai Nosso.
E convidou-nos a fazer o mesmo. A nossa primeira chamada é para fazer
experiência deste amor misericordioso do Pai na nossa vida, na nossa
história. A primeira chamada que Jesus nos fez foi para nos introduzir
nesta nova dinâmica do amor, da filiação. A nossa primeira chamada é
para aprender a dizer «Pai Nosso», como insiste Paulo: Abbá.
A propósito da sua chamada, diz São Paulo: «Ai de mim, se eu não
evangelizar!» Ai de mim, porque evangelizar «não é para mim – explica –
motivo de glória, é antes uma obrigação que me foi imposta» (1 Cor
9, 16). Pois bem! Jesus chamou-nos para participar na sua vida, na vida
divina: Ai de nós – consagrados, consagradas, seminaristas, sacerdotes,
bispos – ai de nós se não a compartilharmos! Ai de nós, se não formos
testemunhas do que vimos e ouvimos! Ai de nós! Não queremos ser
funcionários do divino; não somos, nem o queremos ser jamais, empregados
da empresa de Deus, porque fomos convidados a participar na sua vida,
fomos convidados a encerrar-nos no seu coração, um coração que reza e
vive dizendo: Pai Nosso. Em que consiste a missão senão em dizer com a
nossa vida – desde o princípio até ao fim, como o nosso irmão bispo que
faleceu esta noite –, em que consiste a missão senão em dizer com a
nossa vida: Pai Nosso?
É a este Pai Nosso que nos dirigimos todos os dias. E que Lhe dizemos
numa das súplicas? Não nos deixeis cair em tentação. Fê-lo o próprio
Jesus. Rezou para que nós, seus discípulos – de ontem e de hoje –, não
caíssemos em tentação. E uma das tentações que nos assalta, uma das
tentações que surge não só de contemplar a realidade, mas também de
viver nela… sabeis qual pode ser? Qual é a tentação que nos pode vir de
ambientes dominados muitas vezes pela violência, a corrupção, o tráfico
de drogas, o desprezo pela dignidade da pessoa, a indiferença perante o
sofrimento e a precariedade? À vista de tudo isto, à vista desta
realidade que parece ter-se tornado um sistema irremovível, qual é a
tentação que repetidamente podemos ter nós, os chamados à vida
consagrada, ao presbiterado, ao episcopado?
Acho que a poderemos resumir numa só palavra: resignação. À vista
desta realidade, pode vencer-nos uma das armas preferidas do demónio: a
resignação. «E que podes tu fazer? A vida é assim». Uma resignação que
nos paralisa e impede não só de caminhar, mas também de abrir caminho;
uma resignação que não só nos atemoriza, mas também nos entrincheira nas
nossas «sacristias» e seguranças aparentes; uma resignação que não só
nos impede de anunciar, mas impede-nos também de louvar, tira-nos a
alegria, o prazer do louvor. Uma resignação que nos impede não só de
projectar, mas também nos trava na hora de arriscar e transformar.
Por isso, Pai Nosso, não nos deixeis cair em tentação.
Nos momentos de tentação, faz-nos muito bem apelar para a nossa
memória. Ajuda-nos muito considerar a «madeira» de que fomos feitos. Não
começou tudo connosco, e tão-pouco acabará tudo connosco; por isso, por
isso faz-nos bem recuperar a recordação da história que nos trouxe até
aqui.
E, revisitando a memória, não podemos esquecer-nos de alguém que amou
tanto este lugar, que se fez filho desta terra. Alguém que pôde dizer
de si mesmo: «Tiraram-me da magistratura para me porem na plenitude do
sacerdócio por mérito dos meus pecados. A mim, inútil e completamente
inábil para a execução de tão grande empreendimento; a mim, que não
sabia remar, elegeram-me primeiro bispo de Michoacán» (Vasco Vásquez de
Quiroga, Carta pastoral, 1554).
Permiti-me aqui um parêntesis! Agradeço ao Senhor Cardeal Arcebispo
por ter querido que se celebrasse esta Eucaristia com o báculo deste
homem e o seu cálice. Convosco quero lembrar este evangelizador,
conhecido também como Tato Vasco, como «o espanhol que se fez índio».
A realidade vivida pelos índios Purhépechas – que ele descreve como
«vendidos, vexados e errando pelos mercados a recolher os restos que se
deitavam fora» –, longe de o fazer cair na tentação da acédia e da
resignação, moveu a sua fé, moveu a sua vida, moveu a sua compaixão e
estimulou-o a realizar várias iniciativas que permitissem «respirar» no
meio desta realidade tão paralisante e injusta. A amargura do sofrimento
dos seus irmãos fez-se oração e a oração fez-se resposta concreta. E
isto valeu-lhe, entre os índios, o nome de «Tata Vasco» que, na língua
purhépechas, significa «papá».
Pai, Papá, Tata, Abbá…. Esta é a oração, esta é a palavra que Jesus nos convidou a dizer.
Pai, Papá, Abbá, não nos deixeis cair na tentação da resignação, não
nos deixeis cair na tentação da acédia, não nos deixeis cair na tentação
da perda da memória, não nos deixeis cair na tentação de nos
esquecermos dos nossos maiores que nos ensinaram, com a sua vida, a
dizer: Pai Nosso.
in

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