Entrevista com Riccardo Cristiano, especialista em geopolítica do Oriente Médio
O cenário internacional está vivendo mudanças que para alguns
especialistas em geopolítica qualificam-se como importantes. Os eventos
vão desde a dramática crise dos migrantes com números bíblicos de
vítimas no Mediterrâneo aos grandes êxodos para a Europa que colocam a
dura prova a política das fronteiras abertas; de uma superlotação dos
países que acolhem, à remoção das sanções contra o Irão e o flerte entre a
potência pérsica e os Estados Unidos, considerados até pouco tempo,
“As-Shaytan al-akbar” (O grande demónio); da luta internacional contra
auto-denominado Estado islâmico às acusações russas contra Ankara e seu
pacto secreto com os terroristas de Al-Baghdadi…
Portanto, com esse panorama nos voltamos a Riccardo Cristiano,
jornalista da Rai, especialista em política do Oriente Médio e autor de
várias obras de aprofundamento sobre temas quentes dessa área.
***
ZENIT: O cidadão europeu médio, mas também o mais prudente,
se depara com um complexo tabuleiro de xadrez do qual não se
interessaria caso não lhe despertasse medo e se não tocasse na sua porta
com violência e insistência (pensemos nos atentados em París, mas não
só). A questão surge amarga, alimentada com todo o medo do desconhecido:
onde estamos? O que está acontecendo?
Riccardo Cristiano: Eu tenho um sentimento desagradável de que
estamos de volta ao mesmo ponto em que se vivia no fim do império
Otomano quando se chegou a conceber o genocídio dos arménios como fruto
de uma política defensiva dos unionitas. No livro Mezzanotte a Istanbul (Meia
noite em Istambul), Charles King reflete sobre a formação da Turquia
Kemalista e não fala mal dos unionistas, que acolhem alguns casos de
modernidade. Mas o autor afirma que perante o medo dos império (o
império russo e outros) chegam a conceber o genocídio como um sistema
para acabar com o possível aliado do inimigo. Escreve King: “Os
funcionários do governo otomano estavam determinados a desmascarar
qualquer quinta coluna (ou suposta) que fosse favorável aos objectivos
territoriais dos aliados. Na Anatólia oriental unidades do exército e
milícias irregulares organizaram a deportação de aldeias arménias
inteiras e de outros cristãos considerados potencialmente leais à
Rússia”.
ZENIT: E como isso se aplica aos nossos dias?
Riccardo Cristiano: O meu medo é que no emaranhado caótico de tantas
frentes, se chegue à solução bárbara que passa silenciosa, como o
genocídio dos arménios. Também hoje é possível chegar a conceber
soluções finais deste tipo. Os turcomanos são um problema? Tornam-se um
sujeito candidato a um genocídio. A Turquia corre o risco de perder a
sua unidade estadual, e chega-se a conceber a transferência de pessoas.
Os cristãos deixam a Turquia, os muçulmanos deixam a Grécia. De fato,
são arrancadas comunidades tecidas de cansativa vida comum. O dado que
unifica os dois nacionalismos: o grego e o turco é a religião. Mas isso
não foi feito em nome da religião, mas em nome dos nacionalismos.
ZENIT: Então, a sua leitura dos fatos contemporâneos não é
religiosa? Nem sequer na luta aberta entre xiismo e Sunismo guiados
respectivamente pelo Irão e Arábia Saudita?
Riccardo Cristiano: Como o genocídio foi concebido usando a
alavancagem religiosa, mas na sua fundação houve mais o dado
nacionalista, também hoje nos encontramos diante de dois motores
primários: o nacionalismo e o imperialismo. O nacionalismo está lá e
pode chegar a pensar em termos extremos. A rivalidade entre árabes e
persas é uma rivalidade imperial que sempre olhou para o Mediterrâneo.
Temos de nos adaptar ao imperialismo de um e do outro ou buscar uma
política inclusiva que faça emergir os estados e dê a cada um o próprio.
Falando em termos concretos, os sauditas querem garantir-se
fazendo-se portadores do imperialismo árabe. O Irão quer alavancar o dado
religioso para propor a cultura imperialista iraniana.
ZENIT: É bem sabido que a distinção entre política e religião
são “valores” ocidentais. O homo islamicus é um homem que não pode –
precisamente porque tanto o seu livro sagrado quanto o seu profeta –
falam de simultânea e recíproca confluência entre “din wa dunya”
(religião e mundo). Tendo em conta isso, o seu não é, talvez, um ponto
de vista de um ocidental leigo capaz de distinguir entre dado religioso e
dado político?
Riccardo Cristiano: Eu não posso julgar a partir da mente do outro,
julgo a partir da minha cultura. E os dados da minha cultura me ensinam
que viver juntos em algumas áreas do mundo árabe foi possível, apesar da
diferença religiosa. Em outras áreas não foi possível pelo fechamento
impenetrável de algumas áreas. Pense que até há pouco tempo não
conhecíamos a configuração de alguns terrenos da Arábia Saudita.
As outras áreas, como Líbano, Síria, Egipto são símbolos mundiais de convivência. Difícil sim, mas factível.
ZENIT: Como se faz para construir a cidadania da qual fala muitas vezes nos seus escritos?
Riccardo Cristiano: Criando um espaço comum na base da própria
cidadania. Se temos uma região complexa do ponto de vista da sua
composição étnica cultural, devemos protege-la. Não se pode fazer como o
tratado de Losanna, onde os libaneses cristãos foram destinados às
montanhas, e os muçulmanos à planície.
Agora fazemos a mesma escolha de Losanna? Ou tentamos proteger o
espaço como espaço aberto através de uma política inclusiva. No caso
específico do Líbano, este foi o milagre de Taef que, após 15 anos de
guerra civil, destacou a necessidade de todos de uma habitabilidade
comum do único Líbano.
A criação das realidades compactas são criadas com as deportações. O
objectivo, então, qual é? Deportação de dezenas de milhões de pessoas? Eu
acho que seja uma solução prejudicial que implicaria, se aplicada, em
muito sofrimento e muito sangue.
ZENIT: Olhando para o cenário sírio (mas também o Iraque), o
que você acha da presença ocidental e das intervenções dos grandes na
área militar e política? Quais seriam as acções desejadas?
Riccardo Cristiano: Se colocarmos a Rússia contra a parede, a
forçamos a intervir de forma extrema, e isso diz respeito à política
russa e a Igreja Ortodoxa. Podem haver aqueles que falam da guerra
santa. Para não colocar ninguém contra a parede é necessário que todos
renunciem a algo em troca de um legítimo lucro. O Ocidente demonstrou
que não sabe desempenhar esse papel, por várias razões, difíceis de
enumerar.
A diplomacia do Papa Francisco compreendeu isso. Que não é possível
excluir ninguém. E não se trata só do Oriente Médio. Pensemos na
Ucrânia, no Irão, etc.
O problema é convencer-nos de que não é torcendo por quem está mais
próximo às nossas visões que se ajuda a mudar o problema. Ajuda-se a
resolver o problema convencendo-se de que não existe atalhos. Em um
lugar onde o estado foi borrado do mapa por 50 anos, não posso somente
fazer um suporte técnico, mas eu tenho que fazer propriamente um nation
bulding, encontrando os chefes das tribos e ajudando-os a conceber-se
como nação.
Assim também a intervenção do 2003 no Iraque que queria exportar a
democracia. Contribuiu só a dividir o país em facções e a causar milhões
de mortes.
ZENIT: Você acabou de publicar um livro sobre o Papa
Francisco com o título interessante: Bergoglio sfida globale (Bergoglio
desafio global). Como é possível que um especialista em política se
interesse pelo Papa Francisco?
Riccardo Cristiano: Podemos começar olhando para o jubileu da
misericórdia, cuja geopolítica é o diálogo. Este diálogo que, no
tabuleiro político mundial ninguém está procurando. Francisco nos
convida a conhecer a força do diálogo, que é uma força que ninguém usa.
Isso não significa nunca mais recorrer à força. O cardeal Parolin,
secretário de Estado da Santa Sé, justamente convidava a ONU a responder
de forma adequada ao perigo do Isis. Se o mundo tivesse sido capaz de
responder envolvendo envolvendo internamente o mundo árabe sunita no seu
sentido mais amplo, não teríamos tido tantas vítimas quanto agora.
Mas voltando a Francisco: o único que fala a este mundo é o discurso
sobre a misericórdia de papa Francisco. Tentar fazer espaço ao outro
para que tenha um espaço vital próprio. Temos uma responsabilidade para
com a raça humana, de parar as barbaridades que estão devorando milhões
de pessoas. Vejo tantos juízos sobre a situação, mas pouca capacidade de
propor respostas adequadas. A única coisa que vejo como factível é
cortar os extremos e dobrar a estrada da inclusão.
ZENIT: Para quem prejudicialmente olha para o discurso do Papa como bonacheirão, ou até, como evangélico, como responde?
Riccardo Cristiano: Eu falo do que eu vejo. O papa foi capaz de
conter diversas questões pelas consequências dramáticas. Um exemplo é a
questão ucraniana, onde não houve uma atitude de condenação que exclui
um dos jogadores. E estamos falando também de uma situação onde os
próprios fieis são também envolvidos. Isso é um grande ato de
responsabilidade e de coragem diplomática. A diplomacia vaticana não se
resignou ao status quo, mas convidou a uma resolução justa a favor de
todos os jogadores.
E no discurso ao corpo diplomático do começo do ano o Papa não
convidou a uma separação, mas a uma integração dos cristãos em seus
países, convidando-os a integrar-se na própria sociedade. São propostas
politicamente credíveis e viáveis. A outra lógica, que parece mais
lógica, aquela da espada e da destruição vale também para quem a quer
aplicar se vem alguém mais forte do que ele.
in

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