Francisco recorda que o padre que está no confessionário, “está ali no lugar do Pai que faz justiça com a sua misericórdia”
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| Papa Francisco na Audiência Geral, 03 de Fevereiro |
Apresentamos o texto completo da catequese do Papa Francisco
realizada nesta quarta-feira, 03 de Fevereiro, durante a tradicional
Audiência Geral na Praça de São Pedro.
Queridos irmãos e irmãs, bom dia,
A Sagrada Escritura nos apresenta Deus como misericórdia infinita,
mas também como justiça perfeita. Como conciliar as duas coisas? Como se
articula a realidade da misericórdia com as exigências da justiça?
Poderia parecer que são duas realidades que se contradizem; na realidade
não é assim, porque é justamente a misericórdia de Deus que leva a
cumprimento a verdadeira justiça. Mas de qual justiça se trata?
Se pensamos na administração legal da justiça, vemos que quem se
considera vítima de uma injustiça se dirige ao juiz no tribunal e pede
que seja feita justiça. Trata-se de uma justiça retributiva, que inflige
uma pena ao culpado, segundo o princípio de que a cada um deve ser dado
aquilo que lhe é devido. Como diz o livro dos Provérbios: “Quem pratica
a justiça é destinado à vida, mas quem persegue o mal é destinado à
morte” (11, 19). Também Jesus fala da parábola da viúva que ia
repetidamente ao juiz e lhe pedia: “Faz-me justiça contra o meu
adversário” (Lc 18, 3).
Este caminho, porém, ainda não leva à verdadeira justiça, porque, na
realidade, não vence o mal, mas simplesmente contém seu avanço. É, em
vez disso, respondendo a ele com o bem que o mal pode ser realmente
vencido.
Eis, então, outra maneira de fazer justiça que a Bíblia nos apresenta
como caminho-mestre a percorrer. Trata-se de um procedimento que evita o
recurso ao tribunal e prevê que a vítima se dirija directamente ao
culpado para convidá-lo à conversão, ajudando-o a entender que está
fazendo o mal, apelando à sua consciência. Deste modo, finalmente
reconhecido o próprio erro, ele pode se abrir ao perdão que a parte
lesada lhe está oferecendo. E isso é belo: após a persuasão daquilo que é
o mal, o coração se abre ao perdão, que lhe é oferecido. Este é o modo
de resolver os contrastes dentro das famílias, nas relações entre
esposos ou entre pais e filhos, onde o ofendido ama o culpado e deseja
salvar a relação que o liga ao outro. Não cortar aquele relacionamento,
aquela relação.
Certo, este é um caminho difícil. Requer que quem sofreu o erro
esteja pronto a perdoar e deseje a salvação e o bem de quem o ofendeu.
Mas somente assim a justiça pode triunfar, porque, se o culpado
reconhece o mal feito e deixa de fazê-lo, eis que não há mais o mal e
aquele que era injusto se torna justo, porque perdoado e ajudado a
reencontrar o caminho do bem. E aqui entra justamente o perdão, a
misericórdia.
É assim que Deus age nos confrontos de nós pecadores. O Senhor,
continuamente, nos oferece o seu perdão e nos ajuda a acolhê-lo e a
tomar consciência do nosso mal para poder nos libertar. Porque Deus não
quer a nossa condenação, mas a nossa salvação. Deus não quer a
condenação de ninguém! Algum de vocês poderia me perguntar: ‘mas, padre,
a condenação de Pilatos foi merecida? Deus a queria?’ Não! Deus queria
salvar Pilatos e também Judas, todos! Ele, o Senhor da misericórdia,
quer salvar todos! O problema é deixar que Ele entre nos corações. Todas
as palavras dos profetas são um apelo apaixonado e cheio de amor que
procura a nossa conversão. Eis o que o Senhor diz através do profeta
Ezequiel: “Terei eu prazer com a morte do malvado? (…) mas antes com a
sua conversão, de modo que tenha vida” (18,23; cfr 33,11), aquilo que
agrada a Deus!
E este é o coração de Deus, um coração de Pai que ama e quer que os
seus filhos vivam no bem e na justiça, e portanto, vivam em plenitude e
sejam felizes. Um coração de Pai que vai além do nosso pequeno conceito
de justiça para nos abrir aos horizontes ilimitados da sua misericórdia.
Um coração de Pai que não nos trata segundo os nossos pecados e não nos
retribui segundo as nossas culpas, como diz o Salmo (103, 9-10). E
precisamente é um coração de pai que nós queremos encontrar quando vamos
ao confessionário. Talvez nos dirá algo para nos fazer entender melhor o
mal, mas no confessionário todos vamos encontrar um pai que nos ajude a
mudar de vida; um pai que nos dê a força de seguir adiante; um pai que
nos perdoe em nome de Deus. E por isso ser confessor é uma
responsabilidade tão grande, porque aquele filho, aquela filha que vem a
você procura somente encontrar um pai. E você, padre, que está ali no
confessionário, você está ali no lugar do Pai que faz justiça com a sua
misericórdia.
in

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