Páginas

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

O Anjo da Guarda de Jesus

Camila convidou-me para a ir visitar nesta quadra de Natal: “Sabes?” - dizia ela- “Arranjamos uma caminha nova para o Menino Jesus”. De facto, além do Presépio, mas noutra habitação, vi uma imagem do Deus Menino deitado numa cama com cerca de dois palmos de comprimento. Na cabeceira, alguém se tinha lembrado de colocar um anjinho da guarda, como fazem as mães com os seus filhos. Creio que foi ideia de uma das filhas de Camila.
 
Aquele pormenor chamou-me a atenção e dei comigo a pensar se Jesus teria tido um Anjo da Guarda. Não era Ele Deus, o criador dos anjos? Mas também era verdadeiro homem. Deus e homem numa só pessoa, o Filho de Deus, a segunda pessoa da Santíssima Trindade. Duas naturezas, a divina e a humana, numa única pessoa, Jesus, como sabemos acontecer pela União hipostática, algo misterioso para nós. Como homem, Jesus devia ter, como todos os homens, o seu Anjo da Guarda para o proteger do mal e encorajar no bem. Como Deus, todas as criaturas o devem adorar, louvar, obedecer e servir... também os Anjos. Seria isto possível? Podemos descobrir episódios na vida de Jesus que assegurem estes pensamentos? Está teologicamente correto o gesto da filha de Camila, ou não passa de um impulso poético de ternura infantil?
 
Logo que Jesus nasce, um anjo dá a notícia aos pastores da proximidade e, pouco depois, um coro de anjos canta glorificando a Deus. Parece-nos que o primeiro anjo vela pelas necessidades materiais de Jesus, pois os pastores acodem à gruta com presentes: leite, mel, queijo... Jesus menino, Jesus homem já está na terra e tem um Anjo da Guarda que o cuida. Mas o coro dos anjos canta e louva Jesus como Deus. A sua presença visível dá força à notícia que o primeiro anjo deu aos pastores: “Nasceu o Salvador, Jesus Cristo, Senhor” Lc. 2, 8-14, e eles partem para ver o Menino.
 
Antes de iniciar a sua vida pública, Jesus passa quarenta dias no deserto a jejuar, é tentado pelo demónio e, finalmente, “eis que os anjos se aproximaram e O serviram”, Mt. 4, 4-11.
 
Durante a agonia de Jesus no Getsémani, a sua humanidade manifesta-se de forma dramática: medo, solidão, luta contra a tentação: “Pai, se quiseres, afasta de mim este cálice; não se faça, contudo, a Minha vontade, mas a Tua.” É nesse momento que “Então apareceu-Lhe um anjo do céu que O confortava.” Lc. 22, 39-46.
 
Nestes dois últimos parágrafos reconhece-se Jesus verdadeiro homem, a sofrer no seu corpo (fome e sede) e no seu espírito (as tentações do demónio, após o jejum do deserto e, no Jardim das Oliveiras, o medo, a solidão, o desconsolo). No primeiro episódio, os anjos vêm servir Deus. No segundo, o anjo comporta-se como um Anjo da Guarda: conforta e encoraja, mas não intervém para evitar a prisão, paixão e morte de Jesus. O Anjo da Guarda ajuda os homens a seguirem a sua vocação, a conseguirem cumprir a missão que Deus confia a cada um.
 
Afinal, a filha de Camila tinha razão.

Isabel Vasco Costa
30 de Dezembro 2015





Sem comentários:

Enviar um comentário