Ajudadas 2 mil famílias cristãs, muçulmanas e yazidis e 385 alunos de famílias deslocadas
Um Natal de "paz e misericórdia", vivido "em oração e
em serena celebração interior" nas igrejas de Bagdá repletas de fiéis
cheios "de muita fé e muita esperança". Assim o patriarca caldeu Mar
Louis Raphael Sako descreveu para a agência AsiaNews os dias festivos
vividos pela comunidade cristã da capital iraquiana, partilhados com a
maioria muçulmana da cidade. O nascimento de Jesus e as celebrações pelo
início do Ano Jubilar se tornaram oportunidades de encontro,
intercâmbio e solidariedade, porque "estes nossos atos concretos de
misericórdia criam contato" entre as comunidades, são "pontes entre nós,
apesar das muitas dificuldades".
Em Bagdad, a Igreja caldeia tem 30 paróquias e outras 35 igrejas
afiliadas à comunidade liderada por Mar Sako, que celebrou a missa de
Natal "em sete igrejas diferentes". O patriarca fala de lugares de culto
lotados "de pessoas com muita fé e muita esperança" e faz votos de que
"este 2016 seja um ano de paz, mesmo havendo tensões".
"As pessoas têm a paz no coração e rezam fervorosamente para que ela
se espalhe rapidamente pelo país". O sentimento é compartilhado não só
pelos cristãos, mas também por "muitas famílias muçulmanas que
participaram da missa de meia-noite, muita gente simples, que veio nos
trazer flores e intercambiar cumprimentos". Pessoas comuns, cidadãos, e
não autoridades ou líderes religiosos, salienta o patriarca caldeu, que
não aceitou augúrios e presentes de "líderes religiosos e políticos" por
causa das muitas questões não resolvidas que continuam atormentando os
cristãos e o Iraque inteiro.
Em sua carta aos fiéis, Mar Sako não deixou de lembrar e denunciar
mais uma vez os muitos males que ainda afligem a sociedade, alguns das
quais golpeiam em particular os cristãos: os refugiados de Mossul e da
planície de Nínive após a invasão do Estado Islâmico em 2014, as
famílias que são alvo de ataques e expropriações por parte de criminosos
e grupos extremistas, a islamização de seus filhos e a postura fechada
de alguns componentes do islão. "Esperamos uma mudança real e concreta do
Iraque, uma nova cultura, não só nos discursos e nas declarações da
fachada".
Nestes dias de festa, a Igreja caldeia e a comunidade cristã têm
promovido diversas iniciativas em prol dos pobres, marginalizados e
necessitados, sem distinção de fé ou etnia. "Como gesto para encarnar a
mensagem de Natal, ajudamos 2 mil famílias cristãs, muçulmanas e yazidis
em Bagdad, distribuindo dinheiro para as necessidades diárias. É uma
forma de testemunhar com factos que somos irmãos".
A Igreja caldeia em Kirkuk ajuda também 385 estudantes de famílias
deslocadas, "na maioria cristãos, mas também muçulmanos e yazidis". O
patriarcado contribui "com o pagamento de alojamento, aluga casas,
contribui para as necessidades alimentares e básicas, dando-lhes meios
para continuar a estudar". Na esteira desses gestos concretos de
misericórdia, continua o patriarca Sako, insere-se "a celebração de 24
de Dezembro em um campo de refugiados de Bagdad que abriga 130 famílias
de Mossul e 40 estudantes universitários. Eu ofereci uma ceia e um pouco
de dinheiro e abri a Porta Santa numa tenda do acampamento,
distribuindo às crianças os doces que nos foram enviados pelo cardeal
Fernando Filoni, prefeito da Propaganda Fide, como sinal de
solidariedade da Santa Sé".
"Estes nossos actos concretos de misericórdia criam contacto e
realmente ajudam a formar vínculos, partilha, desejo de encontro". Esta
experiência, em alguns casos, se torna "um sinal tangível de esperança.
Uma resposta à lógica de guerra e vingança, à falta de compaixão, de
perdão e de reconciliação, males que, há muito tempo, afligem o Iraque e
o jogam numa espiral de violência e terror. Mas este elemento da
reconciliação, embora desejável, ainda está muito longe", observa Sako.
Por fim, o patriarca caldeu relata um fato ligado às festas de Natal
que o encheu de alegria e satisfação: "Na noite de 31 de Dezembro, nós
caminhamos por algumas ruas de Bagdad sem escolta nem medidas de
segurança. Queríamos dar uma mensagem, um gesto que dissesse que nós,
cristãos, estamos aqui, estamos com todos e para todos. Na ocasião,
quatro milhões de pessoas, na maioria muçulmanos, saíram às ruas para
celebrar o Ano Novo. Encontrei mulheres, crianças, soldados, pessoas
provenientes de Basra e Najaf para celebrar o novo ano do ‘nascimento de
Jesus’. E, numa entrevista a um programa de TV de grande audiência, eu
falei com força contra um islão fechado e fundamentalista, desejando uma
actualização e maior abertura. Muitos me agradeceram, especialmente entre
os muçulmanos".
in
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