Palavras, na íntegra, do Papa Francisco antes da oração do Angelus de ontem, domingo
Queridos irmãos!
Na primeira leitura deste domingo, Moisés recomenda ao povo: no
momento da colheita, no momento da abundância, no momento das primícias,
não te esqueças das tuas origens, não te esqueças donde vens. A acção
de graças nasce e cresce numa pessoa e num povo que seja capaz de
recordar: tem as suas raízes no passado, que, entre luzes e sombras,
gerou o presente. No momento em que podemos dar graças a Deus porque a
terra deu o seu fruto e assim é possível fazer o pão, Moisés convida o
seu povo a fazer memória enumerando as situações difíceis pelas quais
teve de passar (cf. Dt 26, 5-11).
Neste dia, neste dia de festa, podemos celebrar o Senhor que foi tão
bom para connosco. Damos graças pela oportunidade de estarmos reunidos
para apresentar ao Pai Bom as primícias dos nossos filhos e netos, dos
nossos sonhos e projectos; as primícias das nossas culturas, das nossas
línguas e das nossas tradições; as primícias do nosso compromisso…
Quanto teve de enfrentar, cada um de vós, para chegar aqui! Quanto
tivestes de «caminhar» para fazer deste dia uma festa, uma acção de
graças! E quanto caminharam outros que não puderam chegar, mas, graças a
eles, pudemos continuar para diante.
Hoje, seguindo o convite de Moisés, queremos como povo fazer memória,
queremos ser povo com a memória viva da passagem de Deus por meio do
seu povo, no seu povo. Queremos olhar os nossos filhos, sabendo que
herdarão não só uma terra, uma língua, uma cultura e uma tradição, mas
herdarão também o fruto vivo da fé que recorda a passagem certa de Deus
por esta terra; a certeza da sua proximidade e da sua solidariedade. Uma
certeza que nos ajuda a levantar a cabeça e, com vivo desejo, esperar a
aurora.
Também eu me uno convosco a esta memória agradecida, a esta
recordação viva da passagem de Deus na vossa vida. Olhando os vossos
filhos, tenho vontade de repetir as palavras que um dia o Beato Paulo VI dirigiu
ao povo mexicano: «Um cristão não pode deixar de manifestar a sua
solidariedade e de dar o melhor de si mesmo, para resolver a situação
daqueles a quem ainda não chegou o pão da cultura ou a oportunidade de
encontrar um trabalho honrado (…), não pode ficar insensível enquanto as
novas gerações não encontrarem o caminho para realizar as suas
legítimas aspirações». E imediatamente depois continua o Beato Paulo VI
com um convite a estar «sempre na vanguarda em todos os esforços (…)
para melhorar a situação daqueles que padecem necessidade», a ver «em
cada homem um irmão e, em cada irmão, a Cristo» (Rádiomensagem no 75º aniversário da coroação de N.S. de Guadalupe, 12 de Outubro de 1970).
Desejo convidar-vos hoje a estar na vanguarda, a «primeirear» em
todas as iniciativas que possam ajudar a fazer desta abençoada terra
mexicana uma terra de oportunidades; onde não haja necessidade de
emigrar para sonhar; onde não haja necessidade de se deixar explorar
para ter emprego; onde não haja necessidade de fazer do desespero e da
pobreza de muitos ocasião para o oportunismo de poucos.
Uma terra que não tenha de chorar homens e mulheres, jovens e crianças que acabam destruídos nas mãos dos traficantes da morte.
Esta terra tem o sabor da «Guadalupana», Aquela que sempre nos
precedeu no amor; digamos-Lhe do fundo do coração: Virgem Santa,
«ajudai-nos a refulgir com o testemunho da comunhão, do serviço, da fé
ardente e generosa, da justiça e do amor aos pobres, para que a alegria
do Evangelho chegue até aos confins da terra e nenhuma periferia fique
privada da sua luz» (Exort. ap.Evangelii gaudium, 288).
in

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