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sábado, 12 de dezembro de 2015

"Um amanhã que nunca chega." Carta dos Maristas de Aleppo

Fonte: Wiki commons, Zyzzzzzy Cc by b51d249e2d16231efeb0f4a544fef9904a8234f10c73468f9facfe5b3440b91e
Uma fotografia da dramática situação na Síria feita pela Congregação que escolheu ficar em vez de fugir, para apoiar jovens, famílias e crianças


Esta manhã faz frio em Aleppo, um frio quase glacial e nós não podemos aquecer-nos pela falta de gasolina... Estamos completamente sem eletricidade por mais de 50 dias. Felizmente a água, estritamente racionada, voltou depois de uma interrupção de várias semanas. O único caminho que liga a cidade ao mundo inteiro foi aberto depois de um bloqueio de 13 dias...”.

Começa com estas notas dramáticas a carta que os ‘Maristas azuis’ de Aleppo enviaram por causa do Advento. “Ontem a tarde – dizem na carta – A.H., uma criança de 9 anos veio até nós. Levou mais de uma hora para chegar. É o décimo de uma família com 12 filhos. Queria pão. Sua mãe o enviou a nós para que lhe déssemos. Não parava de repetir: ‘Espero que não seja defraudado’. Não será. Voltará feliz”.

Como ele muitas crianças vivem atualmente na Síria uma situação precária, entre frio, fome, saúde ameaçada, insegurança. "No dia 20 de novembro o mundo inteiro comemorou o Dia Internacional dos Direitos da Criança", recordam os Maristas, “as crianças de Aleppo, como muitas crianças do mundo, sofrem as atrocidades da guerra no momento em que os grandes deste mundo procuram os seus interesses. O que dizer? O que fazer? Como apoiar tantas e tantas crianças na miséria? Como oferecer a estas crianças um apoio psicológico, humano e espiritual que permita-lhes viver plenamente a sua infância?”.

A Congregação escolheu garantir-lhes uma educação de qualidade, “uma educação na autêntica tradição marista, uma educação que segundo o desejo do nosso fundador, São Marcelino Champagnat, faz da criança no futuro ‘um virtuoso cidadão e um bom crente’”. Estão, também, os jovens que devem ser apoiados e consolados, como a voluntária que perguntava ao prior: “Por que estou perdendo os melhores anos da minha vida? Por que não sou como todos os jovens do mundo? Por que não tenho o direito de viver plenamente a minha juventude? Esta é a vontade de Deus? Por que não ouve as nossas orações e as nossas súplicas? Apesar de toda a nossa confiança Nele, não vemos o fim deste túnel...”.

Que resposta dar, a ela, e a tantos jovens? "Ouvi-los, apoiá-los, tentar balbuciar palavras de confiança e de fé", dizem os Maristas azuis. “Nem sempre é fácil! Os nossos jovens vivem angustiados... procuram ir embora... deixar este inferno sem saída... Os pais pedem conselho... o que dizer? Que resposta dar quando o quadro aparece sempre mais ameaçador e angustiante. No céu de Aleppo, como no céu de toda a Síria, terra de paz e civilização, as grandes potências se enfrentam... Homens de todas as raças e nações, armas, aviões... O nosso país tornou-se uma terra e um céu de confrontos. Os pais também estão angustiados. Muitos dos seus familiares, ou amigos, já partiram para outro país ou cidade síria".

Qual é futuro dessas pessoas? E por que sacerdotes e religiosos não decidem ir viver em outra comunidade, em outro lugar, longe desta situação dramática? "Para nós Maristas azuis - diz a carta - viver em Aleppo é aceitar o risco de esperar... Esperar a paz, Esperar o retorno à vida... Esperar o nascimento da civilização do amor... Neste tempo de espera, neste tempo de Advento, para nós, tudo parece a espera de mais de 2000 anos atrás. Uma espera cheia de perguntas. Um amanhã que não chega. Nós ousamos estar juntos até o fim”.

"É verdade que muitas famílias, ao nosso redor, partem, estão vagando como o casal e seu filho há 2000 anos. Eles andavam pelos caminhos do mundo em busca de algum país seguro. Ao longo do caminho descobrem que a única certeza com a qual poderiam viver é a sua fé em Deus”. “Nós escolhemos permanecer ao lado do povo sírio que sofre, de servi-lo, de testemunhar-lhes o amor de Deus, de ser testemunhas da luz em um tempo de escuridão, testemunhas da paz em um tempo de violência inaudita”.

As atividades, portanto, continuam: “As cestas de alimentos são distribuídas todos os meses, sem interrupção. Por ocasião das várias festas (Aid Al Adha e Natal), distribuímos também sapatos e roupas a todos os adultos e a todas as crianças das famílias que cuidamos”. Continua também o projeto “gota de leite” que consiste na distribuição a todas as crianças abaixo de 10 anos de idade de leite em pó ou leite para recém nascidos. “Respondemos positivamente a qualquer pedido de ajuda para aluguer. O nosso projeto ajuda completamente mais de 100 famílias refugiadas. Através do nosso programa de ajuda sanitária, oferecemos apoio a muitos doentes que se dirigiram a nós para um tratamento médico ou para operações cirúrgicas”, dizem os Maristas.

Também há o projeto “Feridos civis de guerra” que “continua a salvar a vida de várias pessoas feridas pelas explosões dos morteiros que caem diariamente nos bairros de Aleppo”; o centro de formação M.I.T.  que lançou o seu novo programa para os próximos dois meses; ou os três projetos educacionais e de desenvolvimento “Quero aprender”, “aprender a crescer” e “Skill School” que respondem às necessidades das crianças e dos adolescentes.


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