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sábado, 26 de fevereiro de 2022

O bem ainda existe e precisa ser afirmado

Na quarta-feira à noite, cuidava eu da máscara de Carnaval que o meu filho de seis anos queria levar para a escola na manhã seguinte. Antecipava o dia de brincadeira, com novas vidas possibilitadas pelas máscaras, comuns e inusitadas, um lanche cheio de coisas boas que as crianças tanto anseiam e uma liberdade que invejo e desejo preservar na sua inocência, a par da descoberta do mundo.

Acordei com a notícia que marcou o dia cinzento – no céu de Lisboa. Passei o dia de quinta-feira inundada em notícias da Ucrânia, a acompanhar reações, condenações de um ato ditatorial e a perceber que a vida de tantos mudou porque uma pessoa assim decidiu. Sem escolha, sem margem para negociação, por uma vontade oligarca de tudo ter e tudo decidir.

Pergunto-me que inocência preservar nas nossas vidas e que mundo entregamos às novas gerações?

Apesar da guerra, do sofrimento, da suspensão que as vidas na Ucrânia estão a viver – e tantas outras de familiares e cidadãos do mundo que acompanham com apreensão a situação – há que afirmar que o bem tem também uma palavra a dizer nestas horas.

O bem que se afirma em gestos comuns, de solidariedade e oração, como o que esta noite vai juntar a comunidade ortodoxa e a católica, na igreja da Senhora da Conceição, no Porto e no jardim do Marquês de Pombal, e que fazem afirmar que a paz «não é um assunto de crentes mas de toda a sociedade»;

O bem afirmado no gesto do Papa Francisco que procurou o embaixador russo em Roma, para tentar o regresso às negociações e uma possível mediação da Santa Sé;

O bem afirmado pela Comissão Nacional Justiça e Paz que recorda que nada se perde com a paz, mas que tudo pode ser perdido com a guerra;

O bem afirmado na livre escolha que o arcebispo-maior da Igreja grego-católica na Ucrânia, D. Sviatoslav Shevchuk, recordou ao dizer que os cidadãos ucranianos têm o direito de escolher o próprio futuro:

“É nosso direito natural e dever sagrado defender a nossa terra e o nosso povo, o nosso Estado e tudo o que nos é mais caro: família, língua e cultura, história e o mundo espiritual”.

O bem afirmado pelo arcebispo do Luxemburgo, D. Jean-Claude Hollerich, quando rejeita a guerra e a afirma como uma “grave afronta à dignidade humana” e que esta não tem lugar no continente europeu.

Será o bem suficiente para mudar um desejo imperial?

Lígia Silveira

 


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