Sé de Beja, 5 de abril de 2020
Senhor padre Novais, prior da freguesia de Santiago Maior com
sede nesta catedral de Beja, senhor padre José Maria e diácono António, caros seminaristas,
irmãos e irmãs:
1 - Acabámos de escutar a proclamação
da Paixão e Morte do Senhor, segundo S. Mateus. Este texto é um grande espelho
que nos ajuda a ver quais são os nossos comportamentos e como são os
comportamentos dos nossos contemporâneos, sobretudo nos relacionamentos com o
próximo. Jesus, na sua entrega por todos nós, é a Luz que nos permite discernir
com bastante nitidez. Vejamo-nos, caros irmãos, ainda que brevemente, a esse
espelho.
Em qual, ou em quais destas
personagens te vês retratado? Em Judas? Em Pedro? Nos outros discípulos? Em
Caifás? No Sinédrio? Nos soldados? Em Pilatos? Em Barrabás? Em Simão de Cirene?
Nos salteadores crucificados com Jesus? Nas mulheres que, no Calvário, assistiram
à morte do Senhor? No centurião? Em José de Arimateia?
Caríssimos irmãos e irmãs, não
tenhais medo de vos ver à luz desta Palavra, à luz desta Palavra que é o
próprio Cristo. Ela, certamente nos denuncia mas também nos corrige e nos chama
à conversão.
Se te colocas, prudentemente, naquela
massa de povo que aclamou o Senhor na Sua entrada em Jerusalém, pensa que esse
mesmo povo, em sexta-feira Santa gritou: crucifica-O! Como cristão que
és, ver-te-ás facilmente integrado naquele grupo de discípulos que seguem o
Senhor. Mas tem presente que, quando Jesus foi preso, todos O abandonaram e
fugiram. E Pedro, Tiago e João que O viram glorioso no monte da
Transfiguração, como se comportaram quando Jesus os tomou consigo para estarem vigilantes
com Ele em oração, no Jardim das Oliveiras? Adormeceram. Não nos admiremos com estas
mudanças acontecidas em pessoas cansadas e cheias de medo. Discirnamos, mas não
julguemos seja quem for.
2 - Convido-vos, sobretudo, irmãos e irmãs, a
contemplar Jesus na sua Paixão, pelas suas atitudes, pelas suas palavras e
também pelos Seus silêncios. N’Ele transparece uma firmeza serena, uma mansidão
bondosa para com todos. N’Ele, desfigurado pelo sofrimento, é-nos oferecido o prólogo
do espetáculo da verdadeira Beleza que resplandece no encontro da Verdade e da
Bondade. Estas, levando-O a mergulhar no horror que foi morrer crucificado, tornaram
possível o aparecimento no mundo da infinita Beleza da glória da Sua
Ressurreição.
As duas breves leituras do livro de
Isaías e da carta aos Filipenses proclamadas antes do evangelho, dão-nos o
retrato espiritual de Cristo, o servo de Deus, ao entrar na Sua Paixão, e
convidam-nos a ver o seu percurso de Verbo Incarnado que se esvazia a Si mesmo
entregando a Sua vida nos mãos do Pai. Reparemos no esvaziamento de Cristo que,
para nos dar a Vida, a Sua própria Vida, está crucificado, repelido e rejeitado
pelo mundo, morrendo levantado entre o Céu e a terra, entre o escárnio dos
homens e o silêncio de Deus. É impressionante o abandono que Jesus Cristo sente
ao morrer crucificado, expresso naquele grito inicial do salmo 21, que Lhe sai
do coração: Meu Deus, meu Deus, porque Me abandonaste! Jesus sentiu-Se
verdadeiramente abandonado, mas sabia, pela fé, que o Pai não O abandonaria na
mansão dos mortos. Quantas vezes, irmãos, tomamos por verdade incontestável os
nossos sentimentos, que tantas vezes nos dizem o contrário da fé!... Aprendamos
com Jesus a caminhar na presença de Deus, quer dizer, a viver na fé, a fiar-nos,
realmente, do amor e da fidelidade de Deus Pai, mesmo quando isso significa
desprezo por aquilo que os sentimentos nos gritam.
Caros irmãos e irmãs que me escutais recolhidos
em vossas casas por causa da pandemia que está afligindo o mundo inteiro,
sobretudo vós que estais sozinhos, longe dos vossos familiares e amigos: o
Senhor Jesus Cristo é o nosso próximo mais próximo. Pela Sua morte na cruz Ele
desceu aos infernos da descomunhão e abriu, para toda a humanidade, as portas
do Reino dos Céus.
Assim, como Seus seguidores, peçamos-Lhe
que também se cumpram em nós estas palavras do livro de Isaías, que escutámos
há momentos. Supliquemos-Lhe a graça de falar como um discípulo, peçamos-Lhe
a graça de saber dizer uma palavra de alento aos que andam abatidos. A fé
e a esperança do cristão são um tesouro precioso que nos situa como irmãos ao
lado de outros irmãos. Ajudando-os, esquecemos as nossas próprias angústias e
problemas. Deixemos que o Senhor desperte os nossos ouvidos para nos mantermos
firmes nas adversidades, nesta adversidade que agora estamos vivendo. Confiai
no Senhor! Ele virá em vosso auxílio, Ele não vos abandonará e vos dará
capacidade para sofrer por amor a Ele e ao próximo.
Esta confiança no Senhor supõe o
esvaziamento de nós mesmos, este esvaziamento que nos leva pelo caminho de
Jesus até ao último lugar da Terra. Trata-se de obedecermos até à morte e morte
de cruz. Caríssimos irmãos: podemos sofrer sem ser cristãos mas não podemos ser
cristãos sem sofrer. O caminho do discípulo de Cristo começa no renegar-se a si
mesmo, e faz-se tomando cada um a sua cruz todos os dias e seguindo o Senhor,
obediente ao Pai até à morte.
E termina aí? Não! O caminho de
Cristo, o mesmo caminho que Ele nos oferece, passa pela cruz, mas
surpreendentemente, no meio da morte, Jesus Cristo, o Vencedor da morte, abre
para nós a porta da Ressurreição e da Vida. E, por isso, celebrarmos a Páscoa
traduz-se, para nós cristãos, neste aprender a pôr os pés nos passos de Cristo,
os únicos passos que nos conduzem da morte para a vida e deste mundo para o
Pai. Aí experimentaremos a verdade do que Ele afirmou: ninguém vai ao Pai
senão por Mim.
3 – Finalmente, caros irmãos e irmãs,
convido-vos a viver esta Semana Santa imitando José de Arimateia, discípulo de
Jesus, que pediu a Pilatos o Corpo do Senhor para O sepultar no Seu próprio
túmulo. Esta sua atitude corajosa de tocar um cadáver naquele dia, e, portanto,
de ficar impuro quando a festa da Páscoa estava prestes a começar, impediu-o de
celebrar a Páscoa judaica. Mas para ele, discípulo, e para toda a humanidade
batizada em nome de Jesus, a Páscoa Nova foi, a partir de então, Jesus Cristo, nosso
Mestre e Senhor.
Neste ano, queridos irmãos e irmãs,
não podemos celebrar a Páscoa recebendo sacramentalmente o Corpo do Senhor na
Sagrada Comunhão, e, muitos de vós, também não pudestes celebrar a Reconciliação
no Sacramento da Penitência. As circunstâncias criadas pela pandemia do Novo Coronavirus
assim o determinam. Mas não esqueçais, isto vos peço, as primeiras palavras de
Jesus, no Evangelho que hoje escutámos: o Mestre manda dizer: o meu tempo
está próximo. É em tua casa que Eu quero celebrar a Páscoa com os meus
discípulos. Em tua casa, meu irmão, recebe a Cristo Jesus, Nosso
Senhor, pois há Páscoa onde Ele passa; só onde Ele entra, há Páscoa verdadeira!
+ J. Marcos
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