O Cardeal Mauro Piacenza pede à Nossa
Senhora: “a custódia do Santo Padre", "uma grande e renovada primavera
de vocações" e "a confirmação de Fátima, com o triunfo do Seu Imaculado
Coração".
Roma,
08 de Dezembro de 2015
(ZENIT.org)
Antonio Gaspari
Por que os católicos celebram a Festa da Imaculada? O que isso
significa e o que tem a ver com misericórdia? Por que o Papa escolheu a
festividade da Imaculada para começar o Jubileu? A Misericórdia se reduz
ao mero perdão ou é muito mais?
Estas e outras questões ZENIT fez ao cardeal Mauro Piacenza, Penitenciário-Mor da Penitenciaria Apostólica.
E aqui estão as respostas.
***
ZENIT: Eminência, o Ano Jubilar Extraordinário, proclamado
pelo Papa Francisco começa nesse dia 8 de dezembro, solenidade da
Imaculada Conceição da Beata Maria. Poderia explicar o motivo dessa
coincidência?
Card. Piacenza: Em cada celebração mariana, a Igreja sempre volta a
contemplar as raízes da sua própria vida e da própria irredutível
vocação a ser Esposa do seu Senhor, Mãe dos redimidos e Corpo Místico,
Presença viva de Cristo no mundo. A grande verdade da Imaculada foi
proclamada dogmaticamente no dia 8 de dezembro de 1854, pelo Beato Papa
Pio IX. Bem sabemos, porém, como as proclamações dogmáticas sejam
sempre, na verdade, uma “explicitação” de uma verdade própria da Divina
Revelação, certamente também objeto de particulares aprofundamentos
teológicos, como no caso da Imaculada, mas crida, na Igreja – como diz
Vicente de Lerim – sempre, em todos os lugares e por todos. A verdade da
Imaculada indica Maria de Nazaré, como a “pré-redimida”: Ela,
naturalmente concebida no seio de Santa Ana, foi preservada da mancha do
pecado original, desde o primeiro instante da sua existência, por força
dos futuros méritos de Cristo na Cruz. Proclamando este Dogma, no final
do século XIX, a Igreja respondia ao duplo erro do iluminismo, que
idolatrava a razão, e do positivismo, que pretendia salvar o homem,
unicamente modificando as instituições nas quais ele vive.
ZENIT: E o que a Imaculada ainda tem a dizer ao homem
ocidental “saciado e desesperado”, preso entre a pretensão de
emancipação, de ver transformado em direito cada uma das suas vontades, e
com a ausência de um significado último para a própria vida?
Card. Piacenza: Talvez o homem esteja somente desesperado, dado que a
crise económica derrubou também as seguranças que tinha há alguns anos!
Você usou uma palavra interessante: “emancipação”. A única emancipação
possível, para o homem, não pode ser a da verdade, mas do pecado.
A emancipação da verdade, da verdade de Cristo, Deus feito homem, e
da própria natureza humana criada e da lei moral escrita no coração, a
emancipação daquela inteligente e humilde obediência, que a verdade
sempre requer, só pode levar o homem a uma solidão última, na qual se
torna incapaz de ver a Deus, de comunicar com os irmãos e de escutar o
que o “grande sinal” da realidade, incessantemente, sugere. O pecado é
sempre uma “negociação prática” da verdade. Emancipar-se disso permite
que o homem se abra ao grande horizonte de Deus, de entrar em um
verdadeiro diálogo com cada outro homem e naquela extraordinária
“amizade” com o criador, que vemos em tantos Santos, como o grande São
Francisco de Assis e que o Papa Francisco quis colocar na encíclica
“Laudato Sì”. Não há, portanto, outra emancipação do pecado, outra
“salvação”, que não seja em Cristo. A Imaculada é a cheia de graça
porque “pré-redimida”, ou seja, redimida por Cristo, não somente, mas
antes de qualquer outra criatura, na própria raíz do ser. Maria
Santíssima é integralmente humana. Nela floresce a plenitude da
humanidade. Ao contrário de nós, homens, não é "travada" pelo pecado
original no que constitui o único, verdadeiro propósito adequado da
natureza humana: a relação, inteligente e livre, com a verdade de Deus e
com o Seu amor.
ZENIT: Eminência, a devoção mariana, nas últimas décadas, por
vezes tem sido colocada à margem da investigação teológica é da ação
pastoral, citando expressamente, como razão, a necessidade de uma maior
concentração “cristológica”, talvez também com a finalidade de um mais
eficaz diálogo ecuménico. Mas, é realmente possível ignorar a Imaculada
no pensamento e na vida da Igreja?
Card. Piacenza: Cada palavra e cada escolha de Cristo, que é Deus
feito homem, são para nós, simplesmente, imprescindíveis. Se Ele
divinamente escolheu não querer deixar de lado Maria de Nazaré, para
fazer-se homem e salvar-nos, não podemos, nem mesmo nós, querer
marginalizá-la. Em Maria, além do mais, toda a Revelação cristã
encontra, podemos dizer, o próprio “cardine”, o próprio “método” e a
própria contínua “custódia”. A Revelação tem Nela o próprio “cardine”,
teologicamente e historicamente falando: teologicamente, porque Deus,
concebido antes no seu Coração e depois no seu seio Imaculado, toma
carne Nela e Dela, unindo-se definitivamente à nossa natureza;
historicamente, porque entrando no mundo por meio de Maria – “Esposa de
um homem da casa de Davi, de nome José”, nos diz São Lucas - , Cristo se
insere plenamente no grande rio da história humana e da estirpe de
Davi, em particular. Em Maria, a Revelação tem, depois, o próprio
“método”: como à liberdade puríssima de Maria, no momento da Anunciação,
o Mistério conferiu o poder sem precedentes de abrir ou não as portas
do céu, assim Cristo, que é o Mistério feito carne, dá a cada homem
igualmente o inaudito poder de acolher, ou não, a Sua Pessoa e a Sua
graça. Em Maria, por fim, a Revelação tem a própria contínua “custódia”,
porque o Cristianismo, sendo uma “vida”, a Vida divina de Cristo em
nós, não precisará só de uma humana coerência e nem sequer de grandes
especulações, mas sempre e especialmente de uma Mãe! E depois, como
ensina o grande São Maximiliano Maria Kolbe, não devemos ter nenhum medo
de amar "muito" a Nossa Senhora, porque Cristo a amará sempre mais do
que nós.
ZENIT: Eminência, você acredita que a Imaculada possa ter um
especial significado também para este Ano Jubilar dedicado à
Misericórdia?
Card. Piacenza: Certamente. A Imaculada nos mostra, de fato, de forma
simples e clara, como entender o Mistério da Misericórdia. Hoje é
difundida, de fato, uma certa tendência a “medir” a Misericórdia “sobre o
pecado”, quase que o pecado tenha o poder, ou pior, o direito de
suscitar a divina Misericórdia; quase que a Misericórdia possa
reduzir-se a mero “perdão” da culpa. Certamente a divina Misericórdia
significa também perdão do pecador, mas, ao mesmo tempo, é imensamente
mais. É o “irromper” de Deus na história do homem; é o Seu revelar-se a
nós, abrindo-nos ao Mistério da própria intimidade divina; é o Seu
compartilhar a nossa própria condição humana, até o fundo, até a
experiência da morte, para tornar-nos inteiramente partícipes da Sua
própria Vida divina; é o participar do Batismo, que muda radicalmente o
nosso ser, atraindo-o no próprio ser de Cristo, no seu Ser Filho do
Eterno Pai, e colocando-nos na grande comunhão dos Batizados, que
abraça céu e terra, que é a Comunhão da Igreja; é o doar-nos a Sua
Presença Real na Santíssima Eucaristia, que nos une sempre mais
perfeitamente a Ele e nos atrai na sua Salvífica oferta ao Pai. A
Misericórdia, compreendida como perdão da culpa individual, chega
somente “depois”, neste sentido. Antes há o Dom imenso da Vida de Cristo
e depois a admirável “remoção” do que em nós o ofuscou ou comprometeu. A
Imaculada é o real começo de tudo isso e o seu ventre, para sempre.
ZENIT: Uma última pergunta, Eminência, esperando que possa
dar-nos essa confidência: o que pede à Imaculada para a Igreja neste Ano
Jubilar?
Card. Piacenza: Respondo com prazer, elevando então, através deste
meio, a minha minha oração à Imaculada, para que obtenha três grandes
graças: em primeiro lugar a custódia do Santo Padre na sua inaudita
tarefa de Pastor Supremo da Igreja, perpétuo e visível princípio e
fundamento da unidade, chamado a confirmar os irmãos na fé, resistindo à
tempestade dos erros que atingem o mundo; em segundo lugar, peço à
Imaculada uma grande e renovada primavera vocacional, que possa dar à
Igreja santos sacerdotes e consagrados, para a glória de Deus e a
salvação da humanidade; por fim, peço simplesmente, que queira ouvir a
grande promessa de Fátima, cujo centenário será em 2017: o grande
triunfo do Seu Coração Imaculado. Desejo a todos uma santa Solenidade da
Imaculada.
(08 de Dezembro de 2015) © Innovative Media Inc.
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