Numa destas idas com os miúdos à Biblioteca Municipal, parei para espreitar os jornais. Encontrei uma notícia relacionada com a semana da vida. Dizia-se que a “Sé Nova de Coimbra se tinha enchido para a bênção das grávidas”. Sinto uma certa inveja em relação às futuras mamãs, cujas barriguinhas me enternecem muitíssimo. Não posso escondê-lo. Gostei muito de cada gravidez, de estar grávida seis vezes e estaria mais meia dúzia se pudesse.
Na mesma notícia, referia-se uma senhora octogenária que decidiu oferecer um casaquinho feito à mão a cada futura mamã. Não posso ficar indiferente, tal como a senhora não pôde e, apesar da sua avançada idade, arregaçou as mangas e preparou doze casaquinhos.
Numa conferência de apresentação do Manual de Bioética para Jovens, ouvi um amigo especialista em Informática dizer que a vida não é comparável a nenhum outro valor, nem mensurável de nenhuma maneira.
Desculpe-me a franqueza, mas enquanto não colocarmos o supremo valor da vida no pico de todas as dinâmicas da sociedade, estaremos certamente a perder o tempo com décor, estaremos a gastar energia com adereços. E com isto não estou a dizer que só as novas vidas são especiais. Não. Todas as vidas. A minha. A do meu marido. As dos meus filhos. As dos meus familiares. As dos meus vizinhos. A sua. Todas. As dos que passam o Mediterrâneo numa barqueta. As dos que desviam dinheiro numa multinacional ou num banco. As dos que vivem no calor ou no frio.
Esta verdade custa. A sociedade sabe que este caminho é exigente, não se compadece com mediocridade, com lucros a todo o preço. Mas todos sabemos, a sociedade sabe-o bem, que este é o caminho correto, o caminho do bem. Todos sabemos que, como dizia aquele queridíssimo amigo, a vida de uma pessoa não depende, não pode depender, da sua capacidade de devolver algo à sociedade.
O Papa Francisco não perde uma ocasião para nos falar de todas as vidas… mesmo a dos mais esquecidos- “Pensemos hoje nos pobres de Rohingya de Myanmar: no momento de deixar a terra para fugir das perseguições não sabiam o que lhes ia acontecer e estão há meses em barcos, ali chegam a uma cidade, onde lhes dão água, comida e dizem: ”Vão-se embora!” .É isto que queremos?
A vida é um valor supremo, absoluto. Uma questão de consciência pública.
Como dizia outro amigo, não podemos condenar certas vidas a meias vidas. Quantas vezes, damos às outras pessoas, nomeadamente às pessoas portadoras de deficiência, não o direito à sua vida, mas o direito a uma vida que convenientemente configuramos para elas, por comodismo, por egoísmo? São de todas estas vidas de que falo.
O direito à vida depende da vontade de cada um até um determinado momento, o momento da fecundação, a partir daí, a vida vale por si própria e a sociedade, em geral, e cada um, em particular, não o devem esquecer nunca, ainda que custe, ainda que custe muitíssimo.
Temos um longo caminho para percorrer. Mas é o melhor que temos a fazer.
Rita Gonçalves
Licenciada em Línguas e Literaturas Modernas Português/Francês
Mãe mesmo a tempo inteiro
Licenciada em Línguas e Literaturas Modernas Português/Francês
Mãe mesmo a tempo inteiro
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