Concerto de encerramento em Beja
Festival Terras sem Sombra fecha 11ª edição com obra-prima de
Verdi: Requiem
Iniciada em Março, a edição de 2015 do
Terras sem Sombra tem decorrido, a um ritmo quinzenal, visitando os monumentos
religiosos da Diocese de Beja. O programa em curso destaca-se pela coerência e
pela qualidade dos repertórios centrados na música sacra da Europa do Sul, da
Idade Média à vanguarda dos nossos dias, com ênfase para compositores
fundamentais de Espanha, França, Itália e Malta, dando uma atenção muito
particular a Portugal.
Esta viagem no espaço e no tempo
atinge o zénite, em Beja, com o concerto sob o título “A Força da Serenidade:
Música para o Fim dos Tempos”, que terá lugar dia 20, às 21h30, na igreja de
Santa Maria da Feira. Em palco, a Orquestra do Norte e do Coro do Teatro
Nacional de São Carlos, dirigidos pelo maestro José Ferreira Lobo. Solistas, a
soprano Cristiana Oliveira, a meio-soprano Cátia Moreso, o tenor Vicente
Ombuena e o barítono Rui Silva.
Entre as 28
óperas de Giuseppe Verdi, figura uma rara e magnífica incursão por outro género,
ao qual também imprimiu o seu génio dramático: a música religiosa, em que
sobressai o Requiem, escrito em 1869-74, uma das mais comoventes e impressionantes
obras sacras do século XIX. Como explicou Alexandre Delgado, surgiu numa época
em que a música sacra perdera – com honrosas e esporádicas excepções – a vitalidade
dos séculos anteriores. A maioria dos compositores italianos só escrevia missas
em contextos específicos, académicos ou utilitários, usando contraponto arcaico
nos coros, e bel canto nos solos. Verdi, sempre genial, revolucionou a tradição
e concebeu o seu Requiem para grande orquestra, quarteto de cantores
solistas e coro duplo.
Após a Missa
Solemnis, de Beethoven (1824), só uma obra poderia ter servido de exemplo à
concepção dramática de Verdi: a Grande Messe des Morts, de Berlioz
(1837). Mas é indiscutível que o quadro por ele traçado revela uma força expressiva
e de uma dimensão espiritual a que ainda hoje o público de todos os quadrantes
culturais não pode deixar de reagir com uma emoção profunda. Talvez por isso,
esta obra protagonizou, de forma emblemática, um dos maiores dramas contemporâneos
em 1943-44, quando os prisioneiros judeus do campo de concentração nazi de
Theresienztadt a interpretaram no cativeiro, sob a direcção do maestro checo
Raphael Schächter. A música de Verdi, com a sua mensagem de esperança na
salvação eterna dos oprimidos e de certeza do castigo para os opressores, deu
corpo e voz ideais a uma espantosa afirmação de dignidade humana e de grandeza
espiritual por entre as trevas da barbárie. Algo bem compreensível nos nossos
dias.
Uma característica
do Festival Terras sem Sombra reside no cruzamento das páginas musicais do
passado e da criação contemporânea. Em Beja, o Requiem será antecedido por
Nocturno, a única obra orquestral de um brilhante autor português, António Fragoso,
terminada em 1918. Ao lado de nomes como Francisco de Lacerda, Luís Costa e
Luís de Freitas Branco, Fragoso pertence ao reduzido número de compositores
nacionais que exploraram a linguagem impressionista nas primeiras décadas do
século XX. O facto de ter morrido aos 21 anos, vítima da gripe pneumónica,
torna tanto mais surpreendente a qualidade e o arejamento estético da sua
produção.
Intérpretes
excepcionais para um repertório de excepção
Desde 1992 que a
Orquestra do Norte concretiza um vasto projecto de descentralização cultural,
tendo-se afirmado, de modo pioneiro, no panorama da música erudita, nacional e
internacionalmente. Servindo o grande repertório orquestral, desde o Barroco
até ao presente, os objectivos básicos pelos quais sempre se pautou a sua
actividade passam pela criação de novos públicos, pelo apoio à música e aos músicos
portugueses e pela constante renovação do repertório.
Fundado em 1943,
o Coro do Teatro Nacional de São Carlos é um dos mais reputados corpos artísticos
do país. Tem actuado sob a direcção de Antonino Votto, Tullio Serafin, Vittorio
Gui, Carlo Maria Giulini, Oliviero de Fabritiis, Otto Klemperer,
Molinari-Pradelli, Franco Ghione, Alberto Erede, Alberto Zedda, Georg Solti,
Nello Santi, Nicola Rescigno, Bruno Bartoletti, Heinrich Hollreiser, Richard
Bonynge, García Navarro, Wolfgang Rennert, Rafael Frühbeck de Burgos, Franco
Ferraris, James Conlon, Harry Christophers, Michel Plasson e Marc Minkowski,
além dos mais importantes maestros portugueses, com relevo para Pedro de
Freitas Branco.
O maestro José
Ferreira Lobo destaca-se como um excepcional intérprete verdiano. Começou a sua
actividade profissional, em 1979, como director da Camerata do Porto, que fundou
com Madalena Sá e Costa. Apresentou-se em algumas das principais salas de concerto
do mundo, entre elas Munique, Zurique, Cairo, Hong Kong, Pequim, Montevideu,
Brasília, Caracas, Filarmonia de Vilnius, Praga e São Petersburgo. Interpretou
ainda música sacra na igreja da Madeleine, em Paris, na catedral de Catânia
(Festival Bellini) e na colegiada de Orsanmichele, em Florença.
Cristiana Oliveira
(soprano), Cátia Moreso (meio-soprano) e Rui Silva (barítono) são figuras
destacadas da cena operática portuguesa, com carreiras premiadas internacionalmente
e que se projectam em influentes palcos europeus. O tenor espanhol Vicente
Ombuena estreou-se no Teatro alla Scala, de Milão, com Don Pasquale, sob
a direcção de Riccardo Muti. Intérprete de vasta discografia, já actuou com
Claudio Abbado, Daniel Baremboim, Riccardo Chailly, Sir Colin Davis, Giuseppe
Sinopoli, Jesús López-Cobos e Rafael Frühbeck de Burgos.
Ao longo do Caminho
de Santiago – Percorrendo a “Grande Via” de Beja ao Mar
Domingo, às 9h30,
músicos, espectadores e membros da comunidade local serão os voluntários de
mais uma iniciativa vocacionada para a salvaguarda da biodiversidade, em
parceria do Festival Terras sem Sombra com o Instituto de Conservação da
Natureza e das Florestas. O foco de atenção dirige-se, desta vez, para os
recursos naturais e para o património cultural do vale do Guadiana, um dos
santuários da biodiversidade peninsular.
Mértola foi, até
ao final da Idade Média, o porto de Beja. O caminho que liga estas duas localidades,
cuja origem se perde no tempo, atravessou os períodos de ocupação romana e
muçulmana da Península Ibérica. Passava por Corte Gafo, Amendoeira-Mosteiro e
Salvada, de onde seguia para Beja ou, em alternativa, para aos vaus do Guadiana
em direcção a Serpa. É precisamente ao redor do “porto da Salvada”, passagem na
ribeira de Terges-Cobres, fronteira entre concelhos e em pleno coração do
Parque Natural do Vale do Guadiana, que se desenvolve esta actividade. Ao longo
de um percurso será explorada a biodiversidade nocturna de Terges-Cobres, com
realce para os seus anfíbios, mamíferos e aves. Estará igualmente presente a
evocação da passagem dos peregrinos, antigos e modernos, em direcção a
Compostela.
Imagens relacionadas: ver https://www.flickr.com/photos/festivalterrassemsombra/sets/72157654600592915
Orquestra do Norte
Coro do Teatro
Nacional de São Carlos
Maestro José
Ferreira Lobo
Cristiana
Oliveira (soprano)
Cátia
Moreso (meio-soprano)
Vicente
Ombuena (tenor)
Rui
Silva (barítono)
Assessoria de
Comunicação
(+351) 917502842
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