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quinta-feira, 9 de maio de 2013

Qual é o segredo do Papa para cativar tanta gente... Também os mass-media laicistas?


Uma análise extensa

A sua popularidade está vinculada, em boa medida, a arte com que ele fala. Se lhe perdoa tudo, também as coisas que ditas por outros teriam sido objecto de críticas.

Actualizado 2 de Maio de 2013

Sandro Magister / L´esspreso

Causou sensação nos meios de comunicação a menção crítica que o Papa Francisco fez ao IOR, o Instituto para as Obras de Religião, o discutido "banco" vaticano, na homilia da sua missa matutina na Domus Sanctae Marthae, na quarta-feira 24 de Abril:

"Quando a Igreja quer vangloriar-se da sua quantidade e cria organizações e escritórios e se torna um pouco burocrática, a Igreja perde a sua principal substância e corre o perigo de transformar-se numa ONG. E a Igreja não é uma ONG. É uma história de amor... Mas estão os do IOR… Perdoa-me, ¡eh!… Tudo é necessário, os escritórios são necessários… De acordo! Mas são necessários até um certo ponto, como ajuda a esta história de amor. Mas quando a organização está em primeiro lugar, o amor desaparece e a Igreja, pobrezinha, se converte numa ONG. E este não é o caminho".

O Papa Francisco improvisa totalmente estas homilias matutinas. E a frase anteriormente citada é a transcrição literal transmitida horas depois pela Rádio Vaticana.

Mas no mesmo dia, ao referir-se de outra maneira à mesma homilia, "L´Osservatore Romano" deixou o inciso: "... Mas estão os do IOR… Perdoa-me, ¡eh!".

Esta diferença entre a rádio e o periódico da Santa Sé é um indício da incertidão que ainda reina no Vaticano sobre como tratar de maneira mediática as homilias dos dias laboráveis do Papa, as que pronuncia na missa das 7 horas na capela da residência onde vive.

A estas missas acede um público seleccionado, diferente cada manhã. E em 24 de Abril estava presente um bom número de trabalhadores do IOR.

Estas homilias do papa se gravam inteiras. Mas não seguem o procedimento dos seus discursos oficiais pelas partes que o Papa improvisa sobre a marcha.

Quer dizer, não são transcritas desde a gravação de áudio, depois polidas tanto desde o ponto de vista linguístico como conceptual, e de seguida submetidas ao Papa e, por último, tornadas públicas uma vez que o texto tenha sido aprovado.

O texto íntegro das homilias dos dias laborais do Papa Bergoglio é secreto. Só se dão a conhecer dois resumes parciais através da Rádio Vaticana e "L´Osservatore Romano", que são redigidos independentemente e, portanto, com uma maior ou menor amplitude nas citas textuais.

Não se sabe se esta prática, cujo objectivo é tanto tutelar a liberdade de palavra do Papa como defendê-la dos riscos da improvisação, se manterá ou se modificará.

Mas é um facto que quando se sabe destas homilias semipúblicas é já uma parte importante da oratória típica do Papa Francisco.

É uma oratória concisa, simples, coloquial, baseada em palavras ou imagens de uma grande imediatez comunicativa.

Por exemplo:

- a imagem de "Deus-spray", usada pelo Papa Francisco em 18 de Abril para por em guarda sobre a ideia de um Deus impessoal "que está em todas as partes mas não se sabe o que é";

- ou a imagem de "Igreja baby-sitter ou ama", usada em 17 de Abril para estigmatizar uma Igreja que só "cuida do menino para que este durma", em lugar de actuar como uma mãe com os seus filhos;

- ou a fórmula de "cristãos satélites", usada em 20 de Abril para definir a esses cristãos cuja conduta está ditada pelo "sentido comum" e a "prudência mundana", em vez de por Jesus.

Stefania Falasca, velha amiga de Bergoglio – que lhe telefonou na mesma tarde da sua eleição como Papa –, perguntou-lhe depois de uma missa matutina na Domus Sanctae Marthae: "Padre, como se lhe ocorrem estas expressões?".

Associações linguísticas inéditas no magistério petrino
"A sua resposta foi um simples sorriso". Segundo Falasca, a utilização das ditas fórmulas por parte do Papa "em termos literários chama-se ´pastiche´, que é, justamente, a mescla de palavras de diferente nível ou registo com efeitos expressionistas. O estilo ´pastiche´ é, actualmente, um rasgo típico da comunicação da rede e da linguagem pós-moderna. Trata-se, portanto, de associações linguísticas inéditas na história do magistério petrino".

Num editorial do 23 de Abril no periódico da conferência episcopal italiana "Avvenire", Falasca aproximou a oratória do Papa Francisco ao "sermo humilis" teorizado por Santo Agostinho.

Um estilo presente em discursos oficiais
O Papa Bergoglio introduz este estilo também nas homilias e nos discursos oficiais. Por exemplo, na homilia da missa crismal da Quinta-feira Santa, na basílica de São Pedro, assombrou a sua exortação aos pastores da Igreja, bispos e sacerdotes, a ter "odor a ovelha".

Conversação com a multidão

Outro rasgo típico da sua pregação é o seu conversar com a multidão, empurrando-a a responder em coro. Fê-lo pela primeira vez, e reiteradamente, no "Regina Coeli" do domingo 21 de Abril quando disse, por exemplo: "Muito obrigada pela saudação, mas saudai também a Jesus. Gritai com força ‘Jesus!’". E, efectivamente, o grito "Jesus" subiu desde a Praça São Pedro.

Pregação fácil e gestos
A popularidade do Papa Francisco deve-se, em boa medida, ao seu estilo de pregação e à fácil, difundida fortuna que tem os conceitos sobre os quais ele mais insiste – a misericórdia, o perdão, os pobres, as "periferias" – que se vêem reflectidos nos seus gestos e na sua pessoa.

Alusões ao diabo
É uma popularidade que esconde outras coisas mais incómodas que ele não deixa de dizer – por exemplo, as suas frequentes alusões ao diabo – e que ditas por outros desencadeariam críticas, mas a ele se lhe perdoam.

Indulgência dos meios críticos
Efectivamente, até agora os meios de comunicação cobriram com indulgência e silêncio não só as referências do actual Papa ao demónio, mas sim também toda uma série de outros pronunciamentos que fez sobre pontos capitais e controvertidos da doutrina.

Em 12 de Abril, por exemplo, falando à pontifícia comissão bíblica, o Papa Francisco insistiu que "a interpretação das Sagradas Escrituras não pode ser só um esforço científico individual, mas sim que deve ser sempre confrontada, integrada e autenticada pela tradição viva da Igreja". E, portanto, "isto comporta a insuficiência de toda a interpretação subjectiva ou simplesmente limitada a uma análise incapaz de acolher em si o sentido global que ao longo dos séculos constituiu a Tradição de todo o Povo de Deus".

Praticamente ninguém se deu conta, no silêncio geral dos meios de comunicação, deste açoitar do Papa contra as formas de exegeses prevalentes também num campo católico.

Em 19 de Abril, na homilia matutina, arremeteu contra os "grandes ideólogos" que querem interpretar Jesus desde uma óptica meramente humana. Definiu-os "intelectuais sem talento, defensores da ética sem bondade. E de beleza não falemos, porque não entendem nada".

Também neste caso, silêncio.

Caminhos enganosos

Em 22 de Abril, em outra homilia matutina, disse com força que Jesus é a "única porta" para entrar no Reino de Deus e "todos os outros caminhos são enganosos, não são verdadeiros, são falsos".

Com isso confirmou, portanto, essa verdade irrenunciável da fé católica que reconhece em Jesus Cristo o único Salvador de todos. Mas em Agosto do ano 2000, quando João Paulo II e o cardeal Joseph Ratzinger publicaram, precisamente sobre este tema, a declaração "Dominus Iesus", foram contestados com dureza dentro e fora da Igreja. Por outro lado agora, ainda que o Papa Francisco tenha dito o mesmo, todos permaneceram calados.

Em 23 de Abril, Festividade de São Jorge, na homilia da missa com os cardeais na Capela Paulina disse que "a identidade cristã é uma propriedade da Igreja,… porque não é possível encontrar Jesus fora da Igreja".

E também esta vez, silêncio. Ainda que a tese segundo a qual "extra Ecclesiam nulla salus", por ele reafirmada, quase sempre é causa de polémica…

Doçura na hora de transmitir a verdade
Esta benevolência dos meios de comunicação a respeito do Papa Francisco é um dos rasgos que caracterizam este início de pontificado.

A doçura com a qual ele sabe dizer as verdades, ainda que sejam incómodas, facilita esta benevolência. Mas é fácil prever que, antes ou depois, esta benevolência se esfriará e dará lugar às críticas.

Um primeiro aviso teve lugar em 15 de Abril, depois de que o Papa Bergoglio ter confirmado a linha severa da congregação para a doutrina da fé sobre o tracto que há que dar ao caso das religiosas dos Estados Unidos reunidas na Conferência de Liderança de Mulheres Religiosas.

Os protestos por parte destas religiosas e das correntes "liberais" do catolicismo, não só americano, soaram como o início da ruptura de um encantamento.


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