O jornalista inglês Benedict Rogers
Duas vezes foi deportado da Birmânia; no Paquistão escapou de uma bomba; Rogers era feliz como anglicano carismático... mas Deus o chamou com suavidade.
Actualizado 30 de Abril de 2013
P. J. Ginés / ReL
Benedict Rogers é um jornalista inglês e activista dos direitos humanos, especializado em documentar a perseguição aos cristãos na Ásia, e autor de livros sobre a ditadura militar socialista na Birmânia (Myanmar).
Em 1994, sendo um jovem universitário, um pregador metodista, Donald English, aproximou-o de Jesus Cristo.
Durante 19 anos foi um anglicano de estilo carismático. Mas há dois anos começou o seu catecumenado para entrar na Igreja Católica e no passado Domingo de Ramos ingressou nela, pela mão do arcebispo Charles Bo, de Rangum, Birmânia, na catedral da capital asiática.
O deputado britânico Lord Alton foi o seu padrinho. Estiveram presentes amigos muito diversos: budistas birmaneses, baptistas dos grupos étnicos Karen e Chin (que sofrem o acosso do regime birmanês), “um par de amigos católicos ocidentais não praticantes e alguns amigos estrangeiros que são ateus, agnósticos ou não religiosos”.
Conhecedor do melhor e do pior
Benedict Rogers, como jornalista especializado em perseguição e direitos humanos, conta à AsiaNews que conheceu o melhor e o pior.
O pior é o ódio, o acosso, a discriminação, às vezes por parte de governos e funcionários (é o caso da Birmânia), outras vezes por parte de multidões ou grupos fundamentalistas (no Paquistão, por exemplo).
O melhor são os santos vivos, homens e mulheres, católicos ou protestantes, que perseveram no perdão e a tenacidade apesar da perseguição, e frequentemente chegar ao martírio, a morrer por Cristo.
“Trabalho para a organização de direitos humanos Christian Solidarity Worlwide, especializada na liberdade religiosa. Trabalhei 15 anos na Birmânia, visitei o país mais de 40 vezes, encontrando-me com dissidentes, activistas, refugiados e deslocados, documentando as suas histórias. Cruzei a fronteira em zona de conflito muitas vezes, e deportaram-me duas vezes. Escrevi três livros sobre a Birmânia, incluindo uma biografia do antigo ditador Than Shwe”, explica Rogers.
Se o cristianismo do século XXI vai surgir da Ásia sobre o testemunho das igrejas mártires, Roger conhece-o bem. “Também trabalhei em Timor Oriental, no Paquistão, China, Indonésia e Coreia do Norte. O sofrimento das suas gentes e a coragem dos que tentam mudar a sua situação sempre me inspiraram”.
O mártir moderno do Paquistão
Rogers sente-se especialmente próximo do seu amigo o ministro de Minorias do Paquistão, o católico Shahbaz Bhatti, assassinado por islamitas em 2010. “Várias vezes viajámos juntos quando era um activista a pé. Juntos escapámos de uma bomba, por apenas cinco minutos. Juntos visitámos uma menina cristã de 7 anos que tinha sido violada”, recorda. Os bispos do Paquistão querem abrir o seu processo de beatificação como mártir.
No Paquistão trabalhou também com o formador de Shazbaz Bhatti, o activista Cecil Chaudhry.
“Em Timor Oriental trabalhei com uma monja assombrosa, a irmã Lourdes, e o seu Instituto Seculard e Irmãos e Irmãs em Cristo, assim como com o padre Francisco Maria Fernandez, o primeiro timorense exilado pela Indonésia em 1975”.
Em Hong Kong impressionou-o a valentia do cardeal Joseph Zen.
E na Birmânia sentiu-se apoiado e animado por James Mawdsley, “que passou muitos meses numa cadeia birmanesa pelos seus protestos a favor da democracia e hoje é seminarista”.
Com Lord Alton, seu padrinho no catolicismo, trabalhou vários anos, e com ele viajou ao país mais ateu do planeta, Coreia do Norte.
Um bispo que o impressionou
Assim, Rogers conhecia e admirava muitos católicos comprometidos e esforçados, mas sentia-se satisfeito como anglicano carismático. Até que conheceu o arcebispo Bo, de Rangum, há 5 anos.
“Impressionou-me imediatamente a sua coragem, a sua determinação silenciosa de enfrentar-se com a injustiça na Birmânia, a sua quente generosidade de espírito, hospitalidade, humildade e humor”, escreve este jornalista que durante décadas viveu entre grandes activistas e mártires.
“Bo não é um agitador, não é alguém que tome as ruas; com sabedoria converteu-se numa voz da consciência, sem meter-se em problemas com as autoridades. Leia você qualquer das suas homilias e a sua mensagem de justiça e liberdade fica clara, sem ser explícito. A sua combinação de coragem e sabedoria é impressionante”, diz Rogers, que sabe o que é estar na primeira linha.
Uma pergunta "por curiosidade"
“Assim que há dois anos lhe perguntei – por curiosidade, não por intenção - que tem que fazer alguém que queira fazer-se católico. A sua resposta foi um ponto de inflexão para mim. Disse-me, simplesmente: ‘Se alguém pensa que pode aceitar os ensinamentos da Igreja Católica, já está pronto para ser católico’. E acrescentou, sem pressão: ‘Se alguma vez estiveres nessa posição, eu te receberia na Igreja aqui, na Birmânia’”.
A Rogers pareceu-lhe uma imagem formosa: ser acolhido no catolicismo na Birmânia, onde tanto tinha trabalhado. Mas fazer-se católico só porque gostava de um bispo e do seu país?
“Pensei que devia investigar o catolicismo mais activamente, descobrir se era para mim”. E assim durante algo mais de um ano dedicou-se a ler.
Centrado na leitura
Leu as encíclicas de Bento XVI, que o encantaram. Leu muitos dos seus livros.
Leu os livros de Scout Hahn, o famoso ex-pastor presbiteriano autor de “Roma Doce Lar”. Leu George Weigel, Hans Urs Von Baltasar, Henri de Lubac, o cardeal Newman, G. K. Chesterton, Malcolm Muggeridge (a sua “Conversão”, e “Algo belo para Deus”).
Leu o Catecismo e o Compêndio de Doutrina Social. Leu os Padres da Igreja e os grandes santos. Estudou a vida de João Paulo II.
Quanto mais lia, mais o atraía a Igreja Católica. Em Janeiro de 2013 realizou uns exercícios inacianos de 5 dias em Oxford. “Durante esse retiro, Deus falou-me de formas formosas e claras, que me ajudaram a confirmar no meu coração e mente o que ia ser a minha decisão”.
Com outros 450 catecúmenos, o seu nome foi pronunciado em voz alta no Rito de Eleição na catedral de Southwark, em Londres, mas a acolhida plena na Igreja a reservou para o Domingo de Ramos, em Rangum.
Voltar a casa
“Como muitos conversos, tenho a sensação de voltar a casa. Enquanto soavam os sinos, senti um prazer extraordinário crescer em mim. Aí estava, num país que não era o meu mas que tinha chegado a amar, numa igreja que não era a minha mas agora era o meu lar espiritual".
"Eu sorria, os meus amigos sorriam, e senti que os amigos que me inspiraram e que já não estão entre nós, como Shahbaz Bhatti e Cecil Chaudhry nos olhavam de lá de cima e sorriam. E senti que também Deus o fazia”, assegura Rogers.
Duas vezes foi deportado da Birmânia; no Paquistão escapou de uma bomba; Rogers era feliz como anglicano carismático... mas Deus o chamou com suavidade.
Actualizado 30 de Abril de 2013
P. J. Ginés / ReL
Benedict Rogers é um jornalista inglês e activista dos direitos humanos, especializado em documentar a perseguição aos cristãos na Ásia, e autor de livros sobre a ditadura militar socialista na Birmânia (Myanmar).
Em 1994, sendo um jovem universitário, um pregador metodista, Donald English, aproximou-o de Jesus Cristo.
Durante 19 anos foi um anglicano de estilo carismático. Mas há dois anos começou o seu catecumenado para entrar na Igreja Católica e no passado Domingo de Ramos ingressou nela, pela mão do arcebispo Charles Bo, de Rangum, Birmânia, na catedral da capital asiática.
O deputado britânico Lord Alton foi o seu padrinho. Estiveram presentes amigos muito diversos: budistas birmaneses, baptistas dos grupos étnicos Karen e Chin (que sofrem o acosso do regime birmanês), “um par de amigos católicos ocidentais não praticantes e alguns amigos estrangeiros que são ateus, agnósticos ou não religiosos”.
Conhecedor do melhor e do pior
Benedict Rogers, como jornalista especializado em perseguição e direitos humanos, conta à AsiaNews que conheceu o melhor e o pior.
O pior é o ódio, o acosso, a discriminação, às vezes por parte de governos e funcionários (é o caso da Birmânia), outras vezes por parte de multidões ou grupos fundamentalistas (no Paquistão, por exemplo).
O melhor são os santos vivos, homens e mulheres, católicos ou protestantes, que perseveram no perdão e a tenacidade apesar da perseguição, e frequentemente chegar ao martírio, a morrer por Cristo.
“Trabalho para a organização de direitos humanos Christian Solidarity Worlwide, especializada na liberdade religiosa. Trabalhei 15 anos na Birmânia, visitei o país mais de 40 vezes, encontrando-me com dissidentes, activistas, refugiados e deslocados, documentando as suas histórias. Cruzei a fronteira em zona de conflito muitas vezes, e deportaram-me duas vezes. Escrevi três livros sobre a Birmânia, incluindo uma biografia do antigo ditador Than Shwe”, explica Rogers.
Se o cristianismo do século XXI vai surgir da Ásia sobre o testemunho das igrejas mártires, Roger conhece-o bem. “Também trabalhei em Timor Oriental, no Paquistão, China, Indonésia e Coreia do Norte. O sofrimento das suas gentes e a coragem dos que tentam mudar a sua situação sempre me inspiraram”.
O mártir moderno do Paquistão
Rogers sente-se especialmente próximo do seu amigo o ministro de Minorias do Paquistão, o católico Shahbaz Bhatti, assassinado por islamitas em 2010. “Várias vezes viajámos juntos quando era um activista a pé. Juntos escapámos de uma bomba, por apenas cinco minutos. Juntos visitámos uma menina cristã de 7 anos que tinha sido violada”, recorda. Os bispos do Paquistão querem abrir o seu processo de beatificação como mártir.
No Paquistão trabalhou também com o formador de Shazbaz Bhatti, o activista Cecil Chaudhry.
“Em Timor Oriental trabalhei com uma monja assombrosa, a irmã Lourdes, e o seu Instituto Seculard e Irmãos e Irmãs em Cristo, assim como com o padre Francisco Maria Fernandez, o primeiro timorense exilado pela Indonésia em 1975”.
Em Hong Kong impressionou-o a valentia do cardeal Joseph Zen.
E na Birmânia sentiu-se apoiado e animado por James Mawdsley, “que passou muitos meses numa cadeia birmanesa pelos seus protestos a favor da democracia e hoje é seminarista”.
Com Lord Alton, seu padrinho no catolicismo, trabalhou vários anos, e com ele viajou ao país mais ateu do planeta, Coreia do Norte.
Um bispo que o impressionou
Assim, Rogers conhecia e admirava muitos católicos comprometidos e esforçados, mas sentia-se satisfeito como anglicano carismático. Até que conheceu o arcebispo Bo, de Rangum, há 5 anos.
“Impressionou-me imediatamente a sua coragem, a sua determinação silenciosa de enfrentar-se com a injustiça na Birmânia, a sua quente generosidade de espírito, hospitalidade, humildade e humor”, escreve este jornalista que durante décadas viveu entre grandes activistas e mártires.
“Bo não é um agitador, não é alguém que tome as ruas; com sabedoria converteu-se numa voz da consciência, sem meter-se em problemas com as autoridades. Leia você qualquer das suas homilias e a sua mensagem de justiça e liberdade fica clara, sem ser explícito. A sua combinação de coragem e sabedoria é impressionante”, diz Rogers, que sabe o que é estar na primeira linha.
Uma pergunta "por curiosidade"
“Assim que há dois anos lhe perguntei – por curiosidade, não por intenção - que tem que fazer alguém que queira fazer-se católico. A sua resposta foi um ponto de inflexão para mim. Disse-me, simplesmente: ‘Se alguém pensa que pode aceitar os ensinamentos da Igreja Católica, já está pronto para ser católico’. E acrescentou, sem pressão: ‘Se alguma vez estiveres nessa posição, eu te receberia na Igreja aqui, na Birmânia’”.
A Rogers pareceu-lhe uma imagem formosa: ser acolhido no catolicismo na Birmânia, onde tanto tinha trabalhado. Mas fazer-se católico só porque gostava de um bispo e do seu país?
“Pensei que devia investigar o catolicismo mais activamente, descobrir se era para mim”. E assim durante algo mais de um ano dedicou-se a ler.
Centrado na leitura
Leu as encíclicas de Bento XVI, que o encantaram. Leu muitos dos seus livros.
Leu os livros de Scout Hahn, o famoso ex-pastor presbiteriano autor de “Roma Doce Lar”. Leu George Weigel, Hans Urs Von Baltasar, Henri de Lubac, o cardeal Newman, G. K. Chesterton, Malcolm Muggeridge (a sua “Conversão”, e “Algo belo para Deus”).
Leu o Catecismo e o Compêndio de Doutrina Social. Leu os Padres da Igreja e os grandes santos. Estudou a vida de João Paulo II.
Quanto mais lia, mais o atraía a Igreja Católica. Em Janeiro de 2013 realizou uns exercícios inacianos de 5 dias em Oxford. “Durante esse retiro, Deus falou-me de formas formosas e claras, que me ajudaram a confirmar no meu coração e mente o que ia ser a minha decisão”.
Com outros 450 catecúmenos, o seu nome foi pronunciado em voz alta no Rito de Eleição na catedral de Southwark, em Londres, mas a acolhida plena na Igreja a reservou para o Domingo de Ramos, em Rangum.
Voltar a casa
“Como muitos conversos, tenho a sensação de voltar a casa. Enquanto soavam os sinos, senti um prazer extraordinário crescer em mim. Aí estava, num país que não era o meu mas que tinha chegado a amar, numa igreja que não era a minha mas agora era o meu lar espiritual".
"Eu sorria, os meus amigos sorriam, e senti que os amigos que me inspiraram e que já não estão entre nós, como Shahbaz Bhatti e Cecil Chaudhry nos olhavam de lá de cima e sorriam. E senti que também Deus o fazia”, assegura Rogers.
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