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quarta-feira, 8 de maio de 2013

A aventura do «vagabundo e poeta de Deus» que vivia com os leprosos e que acabou sendo mártir

Nasceu anglicano e esteve décadas peregrinando sem nada

John Bradburne está agora em processo de beatificação depois de ser assassinado pelas guerrilhas marxistas de Mugabe no Zimbabué. A sua vida foi uma aventura.

Actualizado 1 de Maio de 2013

Javier Lozano / ReL


Poeta, vagabundo e trovador mas sobretudo amante de Cristo. John Bradburne é o protagonista dessas histórias tão incríveis nas que só o amor de Deus pode estar por detrás. A entrega permitiu a este inglês cumprir um dos seus desejos, morrer mártir. Agora está em processo de beatificação e no Zimbabué é considerado um santo, país no qual deixou a sua pegada, apesar de que foi um peregrino que percorreu o mundo sem outra coisa que a sua ânsia por encontrar-se com Deus.

O “vagabundo de Deus” dedicou uma boa parte da sua vida a viver e a cuidar dos leprosos. Neles via a Cristo. Sem outra coisa que a sua presença, sem dinheiro, nem medicinas nem conhecimentos médicos, ele dava-lhes o que não tinham: amor e dignidade. E foi por isso pelo que foi assassinado pelas guerrilhas marxistas do agora presidente Mugabe.

Anglicano e de família burguesa

Mas a história de Bradburne vai muito mais além. Ele mesmo se definia como “um avião não tripulado”. Ia onde acreditava que tinha que ir… seguindo o exemplo de São Bento José Labre, um santo francês conhecido por ser um vagabundo em constante peregrinação. Ele fez o mesmo durante anos até chegar à antiga Rodésia, em África.

Bradburne nasceu em 1921 no Reino Unido. Era anglicano e membro de uma família de classe alta da burguesia. Logo a sua paixão se dirigiu à literatura, o teatro e a música, ainda que essencialmente à poesia, da que foi um autor prolífico e que utilizou como um instrumento para dar graças a Deus.

A malária cerebral durante a II Guerra Mundial
Para compreender a sua vida posterior é importante conhecer as suas origens. Ao estalar a II Guerra Mundial levantou-se e foi lutar pelo seu país. Foi ao inferno da Malásia, um dos reveses mais importantes que tiveram os britânicos.

130.000 foram capturados. Ele logrou escapar pela selva, onde esteve escondido um mês. O preço a pagar foi uma malária cerebral que quase lhe custa a vida. Conta que teve uma revelação de “Cristo Rei” durante uma noite graças à qual pode sair da selva e sobreviver.

De volta a Inglaterra viveu em silêncio o trauma do vivido durante a Guerra. Depois enamorou-se de uma jovem e tinham programado casar-se. Mas cada vez passava mais tempo numa abadia beneditina. Ele continuava procurando Deus e em 1947 converteu-se ao catolicismo. Na raiz deste amor pela Igreja Católica estava uma visão da Virgem Maria que teve durante a sua hospitalização na Ásia. A sua fé era cada vez maior e os seus caminhos outros pelo que acabou rompendo o compromisso com a sua noiva.

A sua peregrinação constante
Em 1950 entrou num mosteiro mas deu-se conta de que não era o seu lugar. Tentou-o além disso em outros dois sítios mais. Mas não estava chamado a isto. A sua busca levou-o a ser o “vagabundo de Deus” e passou 19 anos indo de uma comunidade a outra sem dinheiro, só levava com ele a oração. Quando chegava a algum sítio trabalhava, escrevia, cantava… Onde ia alegrava as pessoas.
 
De Jerusalém a Roma e o voto secreto com a Virgem
Também foi em peregrinação sem dinheiro a Jerusalém e a Roma, dormindo em galinheiros ou onde boamente podia. Assim, perto de Nápoles fez um voto privado à Virgem para manter-se celibatário.

Com quase 40 anos escreveu uma carta a um amigo seu da II Guerra Mundial e que agora era jesuíta na Rodésia (Zimbabué). Perguntou-lhe se ali haveria alguma cova onde se pudesse orar. Sem pensá-lo, John Bradburne estava em África. A sua peregrinação o levava agora ali.

“Eu fico com os leprosos”
Quando levava vários anos neste lugar, um amigo convidou-o a que conhecesse a leprosaria de Mutemwa, que se encontrava numas condições lamentáveis. Ao ver os leprosos sujos e famintos, descuidados e esquecidos, ele viu neles a Jesus Cristo e disse ao seu amigo: “Eu fico”. E assim foi. Além disso para sempre.

Era consciente das suas limitações pois não tinha conhecimentos mas ali estava ele. Deu aos leprosos a atenção que nunca antes ninguém lhes tinha dado, também carinho, tanto ou mais importante que a medicina. Construiu-lhes melhores cabanas para viver e melhorou-lhes a sua higiene. Afugentava os ratos que roíam as extremidades insensíveis dos enfermos. Bradburne banhava os enfermos, cortava as unhas aos que ainda tinham dedos e dava-lhes de comer.


Professor de gregoriano e poemas para os enfermos
Do mesmo modo, construiu uma pequena igreja para os enfermos no acampamento e deu-lhes aulas de canto gregoriano. Quando agonizavam, ele consolava-os e lia-lhes o Evangelho. O seu amigo sacerdote explicava que “uma vida entre os pobres dos pobres é o que o fez pôr-se com o hábito franciscano”, pois aderiu à terceira ordem franciscana.

A sua peregrinação acabou aqui pois já não teve necessidade de mover-se. Este era o seu lugar. Conhecia a todos e como bom poeta que era escreveu um poema para cada um dos leprosos de Mutemwa. Eram a sua família. Durante anos viveu como um eremita dedicando o seu tempo à oração, sem dinheiro e sem outra propriedade que o hábito da terceira ordem.

Rezando frente e pelos seus verdugos
Durante esse tempo, a guerra na Rodésia piorou e os seus amigos trataram de persuadi-lo para que abandonasse o lugar. Ele negou-se. Na zona só ficaram dois homens brancos: o sacerdote David Gibbs e o próprio Bradburne.

Uma noite os guerrilheiros chegaram à cabana do “vagabundo de Deus”. Eram membros da guerrilha marxista de Mugabe. Levaram-no, submeteram-no a provações e ofereceram-lhe meninas para dormir com elas. Ele mantinha-se imutável. No interrogatório parecia despreocupado, tanto que se pôs de joelhos a rezar, o que enfureceu o chefe da guerrilha. Levaram-no à estrada. Ordenaram-lhe que caminhasse e logo parasse e desse a volta. Fê-lo e de novo ele se ajoelhou a rezar. Orou durante três minutos e ao pôr-se em pé, o comandante disparou-lhe. O corpo o encontrou o padre Gibbs.

Os três desejos cumpridos de Bradburne
John Bradburne tinha dito a um sacerdote que tinha três desejos: servir e viver com os leprosos, ser um mártir e ser enterrado com o hábito franciscano. E pode cumprir os três.

Sem dúvida, no enterro também ocorreram coisas que fizeram reconsiderar muitos. No decorrer do funeral três gotas de sangue fresco caíram do fundo do ataúde para o solo. Perante a surpresa geral abriu-se o féretro e o corpo foi inspeccionado. Nada se encontrou. Antes haviam sido colocadas sobre o ataúde igualmente três flores brancas, que representavam o amor deste britânico pela Santíssima Trindade. Teriam relação as três gotas de sangue, com as três flores e os seus três desejos?

Em processo de beatificação
O certo é que desde a sua morte, John Bradburne foi tratado como um santo no Zimbabué e logo as pessoas começaram a pedir a sua intercessão, atribuindo a população milagres a este homem. Agora está no processo de beatificação e a sua peregrinação pode chegar ainda mais longe.

Igualmente, o seu legado segue vivo e além disso dos milhares de pessoas que acodem em peregrinação à sua simples tumba existe uma associação em sua memória que continua com o cuidado dos leprosos e que está mostrando ao mundo a obra deste buscador de Deus.


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