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domingo, 20 de janeiro de 2019

O Cume

Depois que Roald Amundsen bateu os ingleses, comandados por Robert Scott, na corrida ao Polo Sul, em 1911, os súditos da coroa britânica penaram longos anos até atingir uma conquista notável no terreno das grandes aventuras. Até hoje atuante, a Royal Geographical Society, muito agressiva, estimulava empreitadas desafiadoras, capazes de erguer a autoestima do país e abrir novos campos de exploração. Assim, quando Edmund Hillary, um neozelandês - participante da expedição Hunt, que reunia cerca de 400 integrantes,- chegou ao cume do monte Everest, em 1953, acompanhado pelo sherpa Tenzing Norgay, o Reino Unido voltava aos píncaros da glória.

Hillary participara da expedição de um grupo neozelandês, dois anos antes, e persistiu. Os Polos estavam dominados, a nascente do Nilo conhecida, os estreitos desvendados. Restara a conquista notável do ponto mais elevado da Terra, identificado por Sir George Everest, em 1856. Hillary foi nomeado Cavaleiro da Ordem do Império e escalaria, em anos subsequentes, vários outros picos da cadeia do Himalaia.  Reza a lenda que Hillary e Norgai chegaram juntos ao topo, mas Hillary ficou muito mais famoso, como se o sherpa não passasse de um coadjuvante. Por ironia, a única foto no topo foi batida por Hillary. E mostra o sherpa portando um instrumento.

Depois de Hillary e Norgay, muitos tentaram, alguns chegaram e outros tantos perderam a vida. Conheci, como colega de trabalho num instituto de pesquisa na capital paulista, Paulo Rogério Coelho, que também tentou atingir os 8850 metros do Everest. Convivi com ele quando ainda sonhava em seguir, um dia, para o Himalaia. Acabara de escalar o Aconcágua e mostrou a alguns colegas as fotos, belas e instigantes, que batera no ponto mais alto das Américas. Aquilo já fazia parte dos planos futuros, como uma forte preparação para a aventura asiática.

Um detalhe distingue Paulo da grande maioria dos montanhistas. Sempre se fez acompanhar de sua esposa, sob estrita resolução: ou atingem ambos o cume, ou isoladamente nenhum dos dois o faz. Sabe-se que a tentativa de escalar o Everest é bastante dispendiosa. Além das taxas elevadas, cobradas pelos governos da região, há o custo de toda a inevitável logística. Até onde sei, Paulo e sua esposa já tentaram chegar pelo menos três vezes no topo. Há um detalhe adicional, na linha da superação: querem vencer sem o uso de oxigênio e sem auxílio de sherpas, com os quais já teriam sapateado o cume. Sua persistência é admirável e faz deles um exemplo ainda maior quando se lê que abdicaram de uma das tentativas por razão humanitária.

A escalada do Everest é normalmente abordada sob o aspecto do desafio, da conquista, do sucesso, da glória. Quase morrer congelado, ter alucinações que desorientam o montanhista ou outras mazelas fatais conta pouco e em geral não têm espaço na mídia. Como na vida, em que nos ocupamos muito mais a olhar para os bem sucedidos na arena do que para os caídos que povoam os vales. Basta, entretanto, pesquisar na rede mundial para encontrar inúmeros vídeos que retratam o outro lado deste universo de aventura. Há muitos cadáveres insepultos pelas encostas do Everest, ou cobertos por gelo. Gente que morreu porque caiu, porque não resistiu. Muitos foram avistados com vida, mas ninguém os socorreu. Prestar atendimento naquelas alturas pode significar a própria morte ou o abdicar da tentativa de atingir o cume.

As condições climáticas no Everest são as mais agrestes que se possa imaginar. Vento, temperatura e visibilidade são fatores que se alteram drasticamente em pouquíssimo tempo, exigindo, muito além da adaptação progressiva à altitude, o perfeito planejamento para tentar a escalada no que chamam de “janela do tempo”. Informações meteorológicas são fundamentais, tanto quanto a condição física do candidato. Retornemos a Paulo Rogério Coelho.

Numa das tentativas, chegou ao acampamento a informação de que dois montanhistas estavam perdidos. Paulo e a esposa sacrificaram a chance naquele ano para tentar salvá-los. Um deles, desorientado, caiu num precipício. O outro, um português com extremidades a gangrenar, foi salvo. O que dizer deste desprendimento? Edmund Hillary já dera parte da resposta: “Não foi a montanha que conquistamos, mas a nós mesmos”. Paulo Rogério a completou: “O Everest é um grande desafio, mas o câncer é mais difícil que ele. Convivo  com a doença desde 1999 ... A notícia foi como uma paulada, uma pancada na cabeça. Mas a fé em Deus ajudou muito. Sou católico. Rezei e fiz tudo a que tinha direito”. Paulo vive em alturas muito acima do Everest.

J. B. Teixeira



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