Envolvido na produção da mensagem de Natal do jornal, assisti novamente
muitas cenas do filme Jesus de Nazaré de Franco Zefirelli. Provavelmente a
melhor versão cinematográfica do grande evento da Cristandade, suas cenas
contam com fidelidade e arte a trajetória de Cristo, do anúncio do anjo Gabriel
à Ressurreição. Como nos interessava por ora apenas o nascimento do Menino
Jesus, reunimos imagens até a adoração do Salvador pelos pastores.
O local em que isto se deu encontra-se no interior da Igreja da
Natividade em Belém. É por certo um dos locais que suscitam as mais delicadas
impressões nos turistas que perambulam pela Terra Santa. Ali, num local pobre, uma
gruta fria e humilde, nasceu o filho unigênito de Deus, já prenunciando a
essência puramente espiritual da Boa Nova. Os judeus aguardavam o Messias. Mas
não o imaginavam como um menino pobre, nascido incógnito. Nem o imaginaram,
mais tarde, como um pastor de almas. O pensavam poderoso, revolucionário, o
libertador de Israel do jugo romano. Um líder político. Voltaria a humanidade a
cometer erro similar ao dos judeus?
Pois bem, revendo
cenas que naturalmente evocam páginas bíblicas, fiquei a pensar sobre a
realidade de hoje, dois mil anos depois do acontecimento que mudaria a história
humana. Pensei na graça de termos sido alcançados pela Boa Nova, pela sorte de
termos sido criados em lares cristãos. Pela sorte de termos sido batizados,
crermos na vida eterna e na Revelação. Mas também fiquei pensando sobre as distorções
do mundo moderno.
O símbolo da Estrela de Belém, que encima árvores de Natal, ainda
que estilizado, encontra-se hoje no mundo inteiro, mesmo em ambientes alheios à
fé cristã. Por conta da universalização das celebrações de fim de ano, a unir
povos e tradições díspares, parece algo inocente. Mas não há menção à essência do
Natal, que poderia desinteressá-los. Assim, ganha espaço em todo o mundo a
expressão Boas Festas no lugar de Feliz Natal. Como cresce a encenação de papai
noel no lugar do Presépio e seu significado. O tal bom velhinho, que até parece
o governo ao fazer, digamos assim, caridade com o bolso alheio. Brincadeiras à
parte esta falsificação da realidade tem traços mais profundos. O tal noel é
onipotente e quase onipresente, porque pode entregar todos os brinquedos no
mundo inteiro numa só noite, é onisciente, porque sabe se a criança foi boa ou
má durante o ano, vive para sempre, senta-se num trono, é senhor de um exército
de elfos e julga as crianças, atendendo ou não seus pedidos.
Como conjugar os
valores do passado e preservar a própria Verdade do desgaste dos anos? Como nos
proteger da pretensão da modernidade de tudo revogar e do ataque do consumismo,
que faz nossos olhos brilharem enquanto nosso coração empobrece e nossa alma
esvazia?
Lembrei-me do casamento que
assisti de um colega de trabalho numa sinagoga paulistana. Quipá à cabeça,
admirei o simbolismo de toda a cerimônia, particularmente por transcorrer sob
um toldo (chupá), símbolo
da casa a ser construída e dividida pelo casal, como era a tenda de Abraão e
Sara, aberta para recepcionar com hospitalidade amigos e parentes. Duas taças
de vinho são servidas no casamento, como símbolo de alegria. O casamento é a
santificação do homem e da mulher, um para o outro. A aliança deve ser feita de
ouro mas sem desenhos ou ornamentos porque o casamento deve ser de uma beleza
simples. Quase ao final um copo é colocado no chão para que o noivo o quebre
com o seu pé, expressando sua tristeza pela destruição do Templo de Jerusalém e
renovando no casal sua identidade judaica. Ora, sabemos que a despeito de tais
rituais milenares os judeus são protagonistas de um estado moderno no Oriente
Médio e muitos dos seus conquistam anualmente prêmios Nobel nas áreas das
ciências. Nossos irmãos mais velhos na Fé, como João Paulo II referiu-se aos
judeus, seu exemplo pode ser um norte para que não deixemos de lado nossas
raízes cristãs.
Porque nada é mais distante do Natal que o culto materialista dos presentes
desenfreados, que o amor pelos bens materiais. Nada mais pobre que celebrações
vazias nas noites de vinte e quatro, que se tornaram reuniões ligeiramente
diferentes das comilanças nas demais ocasiões em que se reúnem os parentes e
amigos. Nada mais distante daquele lugar de adoração ao Salvador do mundo, da
manjedoura que abrigou o recém-nascido, daquele espírito de humildade e oração
em que o Verbo se fez homem, despojado de tudo. Para dar sentido às nossas
existências e orientar nossa caminhada, que longa ou breve em verdade é sempre
curta diante da Eternidade.
A todos um Feliz Natal!
![]() |
| J. B. Teixeira |


Sem comentários:
Enviar um comentário