Natais são
memórias
Luzes presépios
passado
Natais são
eternos
Este outros
tantos mais
Lembro aquele de
tristeza
o outro de
alegria
mais um de
desamor
tantos de ternura
O último foi de
PAZ
semeado de
lonjura
pois vitórias
celebrou
e saudades
d’outros dias
Natal é
nascimento
Celebração e
família
amigos e ausentes
na distância e da
vida
Tudo se renova
Tudo se
transforma
E no pulsar dos Natais
Pulsa a minha
fantasia
Sinto a nostalgia
de mãos dadas com
a magia
que cada Natal
sublinha
Sublimes os
pequenos nadas
de uma vida já
perdida
mas achada em
nova doce melodia
Trajes novos a
rigor
Mesas fartas
tradição
Desabafos
partilha
União sempre
festiva
Natal Natais
este outros sem
demais
Ser Natal
É ser presente
Jamais longe
de outros tantos
que tais
Natal, Natais…
Foi esta a mensagem que
Madalena carinhosamente arrumou em envelopes coloridos e colocou sobre os
pratos de cada um dos presentes na mesa de Natal daquele ano. Gostaria de ter
sido capaz de, através do poema, “tocar” a alma de cada um, partilhar com eles
o seu sentir do Natal, Natais…
Por causa do poema, ou
não, o que é certo é que a noite que receava mais triste do que o habitual
nesse ano, foi particularmente mágica. Cada um, no seu silêncio, guardou em si
a mensagem do poema e apenas o comentou com os olhos e com as atitudes. A mãe,
essa, não iria lê-lo, nem sequer perceberia de que se tratava… Pena, muita
pena! A vida…
Madalena é, ou diz-se, agnóstica. Não nega,
apenas questiona. São velhas memórias da adolescência, quando naquele dia
longínquo abordara um padre com uma dúvida própria dos seus doze anos: “Como é
possível Nossa Senhora ter concebido um filho, sem…?”. “São dogmas minha filha!”
Assim, a seco, sem sensibilidade, sem bom senso. Ela nem sabia exactamente o
que significava a palavra dogma, mas
foi procurar no dicionário. Ficou plenamente esclarecida, e, obviamente, mais
céptica ainda do que antes de ter posto a questão. O padre tinha “matado” a sua
já precária fé.
Foi crescendo então dentro dela a
convicção de que o que realmente contava era ser-se preocupado com os outros,
querer e saber estar presente sempre que eles necessitassem, também cultivar os
valores de família, ser solidária com aqueles que estivessem em apuros e,
assim, ser ou não católica, transformou-se em ser ela projectada nos outros,
mesmo que os outros não se projectassem nela.
Pois é… e aí, a vida fluiu, ano após
ano, Natal após Natal. Nunca foi à Missa do Galo, nunca viveu o Natal imbuída
de espírito religioso, ainda que O vivesse sempre com um encantamento
particular que ela definia dentro de si como valores de família, espírito
festivo, encontro, iguarias, sorrisos, risos e… às vezes tantos ais!
E como irá ser o próximo –conjecturava
ela – agora que tudo tinha mudado: a mãe, já nos oitentas, encontrava-se em
pleno estado de demência. Um dos netos, filho de uma das suas duas filhas,
escolhera ir viver com o pai. Tinha apenas doze anos! O marido escapara a um
problema de saúde delicado que a tinha deitado muito abaixo. Annus terribilis!
Entrara
num processo depressivo muito difícil. Como que atingira aos sessentas a
maturidade emocional que teimara em protelar. Esvaíra-se o encantamento, o
entusiasmo, a magia que tinham até então conduzido o seu percurso de vida. Perguntava-se
– Como irá ser o próximo Natal? Com que força o iria viver, se parecia que a
vida que sempre agarrara com gana e projecção, madrasta, lhe tinha escapado por
entre os dedos da mão, se era como se uma tempestade violenta lhe tivesse tirado
o chão e varrido tudo á sua volta?
Contudo a chama estava
lá, bem fundo nela, e Natal seria sempre Natal. Caiu na realidade, recompôs-se
e mentalizou-se que iria vivê-lo da melhor maneira possível. O marido estava
recuperado, o neto era o mesmo, ainda que mais distante, e ia estar presente no
Dia de Natal; a filha mais velha e os filhos, esses ficariam lá do outro lado
do mundo, para onde tinham ido viver há já quase cinco anos. Estaríamos os de
cá, os mesmos, unidos pelo sangue e pelo coração, o mesmo coração que não
respeita a distância. Havia portanto que viver e sentir mais este Natal em
família, na casa deste ou daquele, com alegria, carinho e compreensão, de
espírito aberto e… salpicado daquela magia doce que sempre tinha cultivado.
Adivinhemos: a mãe, fechada naquela
doença terrível, estaria ainda presente dentro das suas limitações, mas ainda
assim presente, e tinha a certeza que todos iriam colaborar na construção de mais
um Natal em família, como sempre tinham feito.
Viver-se-ia decerto mais
uma noite e um dia plenos de ternuras e de humanismo. E ia ser bom, iria valer a pena…
Ninguém nunca tivera o hábito de assistir
à Missa do Galo; ficar-se- iam por um serão prolongado, conversariam, conviveriam,
soltariam sentires, discutiriam sobre tudo e sobre nada e acabariam todos por
regressar às suas casas, satisfeitos, reconfortados e… cheios de sono! Sempre
fora assim, que se lembrasse, porque não iria ser também este ano?
24 Dezembro
Três horas da tarde: os últimos retoques nos doces.
As roupas alinhadas em cima da cama. Havia que verificar as etiquetas nos
presentes e pô-los no velho saco vermelho de feltro, adornado de um engraçado
boneco de neve (porque é que nunca havia neve no Natal no nosso país?; seria
muito mais mágico!).
E assim se ultimavam os preparativos
para mais uma celebração em família. Amigos, talvez, porque a sua irmã Maria pensava
sempre em alguns amigos que estavam sós, sem o calor da família, e
emprestava-lhes o nosso, convidando-os para jantar e passar o serão. Era Natal, e Natal significa solidariedade e
partilha, calor humano e alegria, um certo afastamento das coisas menos boas,
das mais dolorosas e tristes.
Madalena sentia-se agora de bem com a
vida; ultrapassara aquela fase terrível, em que tudo parecia ter-lhe caído em
cima, uma tempestade devoradora de encantos e de força de viver. Reagira. Teria
sido a vida, ou o acaso, ou a aproximação do Natal, que lhe tinham trazido de
volta a vontade de sentir, de rir, de saborear o fluir cadente do viver? Teria
sido talvez tão-somente a sua gana de VIVER que a ensinara a aceitar as coisas
menos boas da vida?
Por causa do poema, ou
não, o que é certo é que a noite foi particularmente mágica. Abriram-se
corações, partilharam-se lembranças, riu-se, chorou-se, e, como que se respirou
um ambiente de cumplicidade e de esperança.
Que venha o próximo, ou
melhor, muitos mais Natais, mesmo sem Missa do Galo. Mesmo sem se aceitar a
concepção divina de Maria…
Entenda-se que não
escrevi um conto, escrevi o conto, não porque é único e melhor que
outros, longe disso, mas porque fala do Natal autêntico.
Aquele que já poucos vivem na actualidade. Aquele que, idealmente, assim
deveria continuar a ser no futuro, pelo menos no próximo, porque no distante,
vá-se lá imaginar…
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| Margarida Haderer |

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