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sábado, 8 de dezembro de 2018

Natal Natais


Natais são memórias
Luzes presépios passado
Natais são eternos
Este outros tantos mais

Lembro aquele de tristeza
o outro de alegria
mais um de desamor
tantos de ternura

O último foi de PAZ
semeado de lonjura
pois vitórias celebrou
e saudades d’outros dias

Natal é nascimento
Celebração e família
amigos e ausentes
na distância e da vida

Tudo se renova
Tudo se transforma
E no pulsar dos Natais
Pulsa a minha fantasia

Sinto a nostalgia
de mãos dadas com a magia
que cada Natal sublinha
Sublimes os pequenos nadas
de uma vida já perdida
mas achada em nova doce melodia

Trajes novos a rigor
Mesas fartas tradição
Desabafos partilha
União sempre festiva

Natal Natais
este outros sem demais
Ser Natal
É ser presente
Jamais longe
de outros tantos que tais

Foi esta a mensagem que Madalena carinhosamente arrumou em envelopes coloridos e colocou sobre os pratos de cada um dos presentes na mesa de Natal daquele ano. Gostaria de ter sido capaz de, através do poema, “tocar” a alma de cada um, partilhar com eles o seu sentir do Natal, Natais

Por causa do poema, ou não, o que é certo é que a noite que receava mais triste do que o habitual nesse ano, foi particularmente mágica. Cada um, no seu silêncio, guardou em si a mensagem do poema e apenas o comentou com os olhos e com as atitudes. A mãe, essa, não iria lê-lo, nem sequer perceberia de que se tratava… Pena, muita pena! A vida…

Madalena é, ou diz-se, agnóstica. Não nega, apenas questiona. São velhas memórias da adolescência, quando naquele dia longínquo abordara um padre com uma dúvida própria dos seus doze anos: “Como é possível Nossa Senhora ter concebido um filho, sem…?”. “São dogmas minha filha!” Assim, a seco, sem sensibilidade, sem bom senso. Ela nem sabia exactamente o que significava a palavra dogma, mas foi procurar no dicionário. Ficou plenamente esclarecida, e, obviamente, mais céptica ainda do que antes de ter posto a questão. O padre tinha “matado” a sua já precária fé.

Foi crescendo então dentro dela a convicção de que o que realmente contava era ser-se preocupado com os outros, querer e saber estar presente sempre que eles necessitassem, também cultivar os valores de família, ser solidária com aqueles que estivessem em apuros e, assim, ser ou não católica, transformou-se em ser ela projectada nos outros, mesmo que os outros não se projectassem nela.

Pois é… e aí, a vida fluiu, ano após ano, Natal após Natal. Nunca foi à Missa do Galo, nunca viveu o Natal imbuída de espírito religioso, ainda que O vivesse sempre com um encantamento particular que ela definia dentro de si como valores de família, espírito festivo, encontro, iguarias, sorrisos, risos e… às vezes tantos ais!

E como irá ser o próximo –conjecturava ela – agora que tudo tinha mudado: a mãe, já nos oitentas, encontrava-se em pleno estado de demência. Um dos netos, filho de uma das suas duas filhas, escolhera ir viver com o pai. Tinha apenas doze anos! O marido escapara a um problema de saúde delicado que a tinha deitado muito abaixo. Annus terribilis!  

Entrara num processo depressivo muito difícil. Como que atingira aos sessentas a maturidade emocional que teimara em protelar. Esvaíra-se o encantamento, o entusiasmo, a magia que tinham até então conduzido o seu percurso de vida. Perguntava-se – Como irá ser o próximo Natal? Com que força o iria viver, se parecia que a vida que sempre agarrara com gana e projecção, madrasta, lhe tinha escapado por entre os dedos da mão, se era como se uma tempestade violenta lhe tivesse tirado o chão e varrido tudo á sua volta?

Contudo a chama estava lá, bem fundo nela, e Natal seria sempre Natal. Caiu na realidade, recompôs-se e mentalizou-se que iria vivê-lo da melhor maneira possível. O marido estava recuperado, o neto era o mesmo, ainda que mais distante, e ia estar presente no Dia de Natal; a filha mais velha e os filhos, esses ficariam lá do outro lado do mundo, para onde tinham ido viver há já quase cinco anos. Estaríamos os de cá, os mesmos, unidos pelo sangue e pelo coração, o mesmo coração que não respeita a distância. Havia portanto que viver e sentir mais este Natal em família, na casa deste ou daquele, com alegria, carinho e compreensão, de espírito aberto e… salpicado daquela magia doce que sempre tinha cultivado.

Adivinhemos: a mãe, fechada naquela doença terrível, estaria ainda presente dentro das suas limitações, mas ainda assim presente, e tinha a certeza que todos iriam colaborar na construção de mais um Natal em família, como sempre tinham feito.

Viver-se-ia decerto mais uma noite e um dia plenos de ternuras e de humanismo. E ia ser bom, iria valer a pena…  

Ninguém nunca tivera o hábito de assistir à Missa do Galo; ficar-se- iam por um serão prolongado, conversariam, conviveriam, soltariam sentires, discutiriam sobre tudo e sobre nada e acabariam todos por regressar às suas casas, satisfeitos, reconfortados e… cheios de sono! Sempre fora assim, que se lembrasse, porque não iria ser também este ano?

24 Dezembro

Três horas da tarde: os últimos retoques nos doces. As roupas alinhadas em cima da cama. Havia que verificar as etiquetas nos presentes e pô-los no velho saco vermelho de feltro, adornado de um engraçado boneco de neve (porque é que nunca havia neve no Natal no nosso país?; seria muito mais mágico!).

E assim se ultimavam os preparativos para mais uma celebração em família. Amigos, talvez, porque a sua irmã Maria pensava sempre em alguns amigos que estavam sós, sem o calor da família, e emprestava-lhes o nosso, convidando-os para jantar e passar o serão. Era Natal, e Natal significa solidariedade e partilha, calor humano e alegria, um certo afastamento das coisas menos boas, das mais dolorosas e tristes.

Madalena sentia-se agora de bem com a vida; ultrapassara aquela fase terrível, em que tudo parecia ter-lhe caído em cima, uma tempestade devoradora de encantos e de força de viver. Reagira. Teria sido a vida, ou o acaso, ou a aproximação do Natal, que lhe tinham trazido de volta a vontade de sentir, de rir, de saborear o fluir cadente do viver? Teria sido talvez tão-somente a sua gana de VIVER que a ensinara a aceitar as coisas menos boas da vida?

Por causa do poema, ou não, o que é certo é que a noite foi particularmente mágica. Abriram-se corações, partilharam-se lembranças, riu-se, chorou-se, e, como que se respirou um ambiente de cumplicidade e de esperança.

Que venha o próximo, ou melhor, muitos mais Natais, mesmo sem Missa do Galo. Mesmo sem se aceitar a concepção divina de Maria… 

Entenda-se que não escrevi um conto, escrevi o conto, não porque é único e melhor que outros, longe disso, mas porque fala do Natal autêntico. Aquele que já poucos vivem na actualidade. Aquele que, idealmente, assim deveria continuar a ser no futuro, pelo menos no próximo, porque no distante, vá-se lá imaginar…

Natal, Natais…

Margarida Haderer



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