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quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

A síndrome do abandono

Dias atrás recebi pela rede social uma boa historinha. Um neto pergunta ao avô como conseguiu viver sem tecnologia, sem aviões, sem internet, sem computadores, sem televisores de plasma,  sem ar condicionado, sem carro, sem celular, tablet, notebook,... O avô, sem delongas, respondeu que foi do mesmo jeito que a geração do neto vive hoje: sem oração, sem compaixão, sem honra, sem respeito, sem vergonha, sem esforço, sem responsabilidades, sem modéstia,...

Cáustica e bem humorada, a resposta tem o poder de provocar reflexões sobre a alienação que se vê mundo afora. Estudar as origens, remotas ou próximas, da fábrica de alienados - loucos ao pé da letra, que vivem para consumir enquanto são consumidos,-  é uma imposição de nosso tempo para entendermos os ventos que nos trouxeram até aqui e antevermos para onde ainda nos levarão. Há não muito um amigo lembrava que a humanidade justificadamente teme as armas nucleares, cujos estragos possíveis apenas tiveram seu diabólico introito em Hiroshima e Nagasaki. Mas nunca se fala das bombas de natureza espiritual, metaforicamente muito mais potentes que aquelas que mostraram ao mundo o salão de festas do inferno.

Trabalhei numa instituição da área nuclear e certa feita visitei o prédio do reator de Angra I, seguindo todas as rígidas recomendações para evitar contaminações com material radioativo, que podem ser dolorosas ou mesmo fatais. Tenho, portanto, noções rudimentares sobre os riscos e danos da atividade. Mal me atrevo a imaginar com intensidade o que se deu no Japão naqueles meses finais da segunda guerra. A foto de um prédio devastado em Hiroshima, onde hoje é o Memorial da Paz, é suficientemente emblemática para que a humanidade reflita sobre a dramaticidade dos desvarios e dos brinquedos apocalípticos dos laboratórios do mal. O argumento de que os petardos liberados pelos bombardeiros Enola Gay e Bockscar pouparam muitas vidas é discutível. Desde então, o monopólio de desenvolvimento de artefatos nucleares por um clube fechado - que ameaça com toda a hipocrisia do mundo as nações que ousam atirar-se à mesma tarefa,- como uma força de dissuasão é também fortemente discutível.

Sabemos que a morte nos aguarda em alguma curva do caminho. Sem melancolia, ou ideal suicida, morrer num leito, tombar na rua por um enfarto ou partir sob uma chuva de fogo, convenhamos que o meio muda, mas o fim material é similar. Já o mesmo não se pode dizer sobre a alma. Se tememos os perigos de nossa curta existência, o que dizer da eternidade que nos aguarda? Não devia o homem preocupar-se menos com o agora e muito mais com o devir?

Por vezes a sensação que se tem é de que o mal domina nosso tempo, ainda que saibamos que a vitória final não lhe pertencerá. Por que pensar na eternidade? Afinal, se não há nada após a morte, os  maus levam vantagem. Isto faz sentido e por isto o homem se contem. Quase no final de  “O homem revoltado”, Camus afirma que a pura filosofia da história tem como consequência o materialismo histórico, o determinismo, a violência e a negação de toda a liberdade que não seja voltada para a eficácia. Vai além: afirma que a não-violência só pode ser justificada por uma filosofia da eternidade. E complementa: a historicidade absoluta consagra a injustiça e remete a Deus a responsabilidade pela justiça. Quando não o coloca, acrescentaria, no banco dos réus ...

Em outras palavras, diante da iniquidade do mundo, dos sofrimentos atrozes que chegam ao nosso conhecimento, do drama da morte, sobretudo quando trágica ou precoce, diante do aparente sucesso do mal, os homens, muito menos pacientes que Jó, perguntam indignados onde se encontra Deus. É uma forma primitiva de negar as próprias digitais na cena do crime, um jeito irresponsável de empurrar o problema para o Criador e de eximir-se do pecado original.

Por falar em pecado original, eivado de vaidade, em uma de suas pregações Santo António, o lisboeta que nasceu Fernando Bulhões, enuncia que “na vaidade e pompa do mundo se oculta o salteador, que é o demónio e o pecado”. Assevera que “não há sinal mais claro da perdição eterna do que se saírem no mundo as coisas ao sabor e jeito do desejo” e então atira uma certeira seta: “Também a bexiga, assoprada e cheia de ar, parece maior do que é; mas vem a punção da agulha, isto é, da morte, e põe-lhe a nu a pequenez e a brevidade do homem”. Para os revoltados, que seguem rilhando os dentes, no bruxismo da alma, a gritar ‘Onde está Deus?’, reproduzo a resposta de José Ayllón, em “Mitologias modernas”: continua lá, pregado na Cruz.

J. B. Teixeira



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