Numa
destas noites em que uma apressada massa polar relegava ao esquecimento um dia
chuvoso, fiquei a observar, já início da madrugada, um céu estrelado atrás de
nuvens a correr. Tudo se dava como numa filmagem acelerada, de tal sorte que
tudo aquilo que normalmente demanda horas e horas era, naquele momento, coisa
de minutos. O fenómeno teve o condão de realçar que as estrelas estão sempre
lá, a despeito de tudo que nos impede de vê-las, como as atmosferas
carrancudas. Enquanto caminhava na direção de casa pensei que aquela visão era
uma metáfora, a ser lida por quem postergara o sono: o céu nosso de cada dia
tem, nos objetivos mais nobres na vida, seu brilho estelar, que permanece mesmo
sob grandes e graves dificuldades. Acreditar que estão ali, à nossa espera, é
um misto de fé e de determinação.
Dias
depois daquela noite fui a um velório. Amigos da nossa família haviam perdido sua
estimada matriarca e providenciavam, entre lágrimas discretas, o ritual da
última obra de misericórdia que os homens devem prestar aos seus. A céu aberto,
ou numa capela mortuária, as cerimónias fúnebres me parecem sempre saídas do
túnel do tempo. Como se fôssemos escandinavos e sepultássemos vikings e seus
pertences, ou envolvêssemos pessoas em panos, como no Egito. Sejam lá quais
forem as nuances ou latitudes, a imortalidade da alma é o credo que movimenta
cada corpo de crença, seja ele digno dos australopithecus ou mais recente.
Aquela
pobre mulher, pálida como num museu de cera, à espera do acolhimento na
eternidade, encenava pela vez última, desta feita no papel de esfinge. Ceifada
pela morte, que só a fé decifra como passagem, testemunhava um fim. Os que a
choravam, contudo, esperam que a história avance, ainda que longe de nossos
olhos e bem longe de nosso entendimento. Para os que não creem, é compreensível
que a morte pareça apenas o ponto final de um todo absurdo.
Numa
das paredes de meu escritório tenho fotos de antepassados. De meus pais, avós e
bisavós paternos. Todos mortos, a reiterar silenciosa e quotidianamente o
caráter provisório de tudo. Verdade óbvia, que insistimos em desconhecer quando
cavalgamos o cavalo da vaidade, no galope das gloríolas, sob o império da
fatuidade e dos aplausos. Esquecidos da salomónica sabedoria: “Vaidade de
vaidades – reza o Eclesiastes,- vaidade de vaidades! Tudo é vaidade”.
Enquanto
aguardávamos a chegada da autoridade religiosa que faria a encomendação daquela
alma, um grupo entoava canções de fé, mitigando um pouco a dor dos familiares e
demais presentes. Uma destas canções, que aprecio há muito, diz “Senhor, Tu me olhaste nos olhos / A sorrir,
pronunciaste meu nome / Lá na praia, eu larguei o meu barco / Junto a Ti,
buscarei outro mar”. Sempre ouvira a letra como uma conversão em vida, mas
naqueles instantes a senti em sua vertente maior e cantei junto com o afinado
coro. Já veterano em perdas humanas, conhecendo a experiência de sepultar os
pais e um irmão, admirei a sobriedade naquele momento extremo enquanto refletia
sobre os versos musicais.
Ao
deixar o velório e retornar ao mundo, escutei no rádio Tico-Tico no Fubá.
Jamais prestara atenção na letra de Zequinha de Abreu, talvez por correr pela
vida mais do que deveria, sem o vagar da sabedoria. “O tico-tico tá comendo meu fubá / O tico-tico tem, tem que se alimentar
/ Que vá comer umas minhocas no pomar”. Naquele velório havia muitos
políticos, de correntes as mais diversas, adversários que, digamos assim,
haviam deixado de lado suas dissidências. Para retomá-las horas mais tarde,
buscando alcançar posições públicas que tanto podem dignificar, na busca do bem
comum, quanto corromper na inutilidade dos valores desvirtuados. Bem que
Zequinha de Abreu poderia ter composto “Politico-tico
no fubá”, para satirizar que uma vez mais, às vésperas das urnas, “O politico-tico tá / Tá outra vez aqui / O
politico-tico tá comendo meu fubá / O politico-tico tem, tem que se alimentar /
Que vá comer é mais minhoca e não fubá”.
Mesmo
comer minhocas, porém, requer o garimpo do solo e, na linguagem humana, exige
empunhar um bom cabo de enxada. “Que proveito tem o homem, de todo o seu trabalho, que
faz debaixo do sol? Uma geração vai, e outra geração vem; mas a terra para
sempre permanece. Nasce o sol, e o sol se põe, e apressa-se e volta ao seu
lugar de onde nasceu”. Por mais
tristes que sejam, os velórios são uma boa oportunidade para pensar um pouco
sobre nosso destino, suas consequências
escatológicas e as tolices que por vezes consomem nossos preciosos dias.
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| J. B. Teixeira |


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