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quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

A morte e o fubá

Numa destas noites em que uma apressada massa polar relegava ao esquecimento um dia chuvoso, fiquei a observar, já início da madrugada, um céu estrelado atrás de nuvens a correr. Tudo se dava como numa filmagem acelerada, de tal sorte que tudo aquilo que normalmente demanda horas e horas era, naquele momento, coisa de minutos. O fenómeno teve o condão de realçar que as estrelas estão sempre lá, a despeito de tudo que nos impede de vê-las, como as atmosferas carrancudas. Enquanto caminhava na direção de casa pensei que aquela visão era uma metáfora, a ser lida por quem postergara o sono: o céu nosso de cada dia tem, nos objetivos mais nobres na vida, seu brilho estelar, que permanece mesmo sob grandes e graves dificuldades. Acreditar que estão ali, à nossa espera, é um misto de fé e de determinação.

Dias depois daquela noite fui a um velório. Amigos da nossa família haviam perdido sua estimada matriarca e providenciavam, entre lágrimas discretas, o ritual da última obra de misericórdia que os homens devem prestar aos seus. A céu aberto, ou numa capela mortuária, as cerimónias fúnebres me parecem sempre saídas do túnel do tempo. Como se fôssemos escandinavos e sepultássemos vikings e seus pertences, ou envolvêssemos pessoas em panos, como no Egito. Sejam lá quais forem as nuances ou latitudes, a imortalidade da alma é o credo que movimenta cada corpo de crença, seja ele digno dos australopithecus ou mais recente.

Aquela pobre mulher, pálida como num museu de cera, à espera do acolhimento na eternidade, encenava pela vez última, desta feita no papel de esfinge. Ceifada pela morte, que só a fé decifra como passagem, testemunhava um fim. Os que a choravam, contudo, esperam que a história avance, ainda que longe de nossos olhos e bem longe de nosso entendimento. Para os que não creem, é compreensível que a morte pareça apenas o ponto final de um todo absurdo.

Numa das paredes de meu escritório tenho fotos de antepassados. De meus pais, avós e bisavós paternos. Todos mortos, a reiterar silenciosa e quotidianamente o caráter provisório de tudo. Verdade óbvia, que insistimos em desconhecer quando cavalgamos o cavalo da vaidade, no galope das gloríolas, sob o império da fatuidade e dos aplausos. Esquecidos da salomónica sabedoria: “Vaidade de vaidades – reza o Eclesiastes,- vaidade de vaidades! Tudo é vaidade”.

Enquanto aguardávamos a chegada da autoridade religiosa que faria a encomendação daquela alma, um grupo entoava canções de fé, mitigando um pouco a dor dos familiares e demais presentes. Uma destas canções, que aprecio há muito, diz “Senhor, Tu me olhaste nos olhos / A sorrir, pronunciaste meu nome / Lá na praia, eu larguei o meu barco / Junto a Ti, buscarei outro mar”. Sempre ouvira a letra como uma conversão em vida, mas naqueles instantes a senti em sua vertente maior e cantei junto com o afinado coro. Já veterano em perdas humanas, conhecendo a experiência de sepultar os pais e um irmão, admirei a sobriedade naquele momento extremo enquanto refletia sobre os versos musicais.

Ao deixar o velório e retornar ao mundo, escutei no rádio Tico-Tico no Fubá. Jamais prestara atenção na letra de Zequinha de Abreu, talvez por correr pela vida mais do que deveria, sem o vagar da sabedoria. “O tico-tico tá comendo meu fubá / O tico-tico tem, tem que se alimentar / Que vá comer umas minhocas no pomar”. Naquele velório havia muitos políticos, de correntes as mais diversas, adversários que, digamos assim, haviam deixado de lado suas dissidências. Para retomá-las horas mais tarde, buscando alcançar posições públicas que tanto podem dignificar, na busca do bem comum, quanto corromper na inutilidade dos valores desvirtuados. Bem que Zequinha de Abreu poderia ter composto “Politico-tico no fubá”, para satirizar que uma vez mais, às vésperas das urnas, “O politico-tico tá / Tá outra vez aqui / O politico-tico tá comendo meu fubá / O politico-tico tem, tem que se alimentar / Que vá comer é mais minhoca e não fubá”.

Mesmo comer minhocas, porém, requer o garimpo do solo e, na linguagem humana, exige empunhar um bom cabo de enxada. “Que proveito tem o homem, de todo o seu trabalho, que faz debaixo do sol? Uma geração vai, e outra geração vem; mas a terra para sempre permanece. Nasce o sol, e o sol se põe, e apressa-se e volta ao seu lugar de onde nasceu”. Por mais tristes que sejam, os velórios são uma boa oportunidade para pensar um pouco sobre nosso destino,  suas consequências escatológicas e as tolices que por vezes consomem nossos preciosos dias.

J. B. Teixeira



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