O milagre que ocasionou uma perseguição brutal
Actualizado 26 de Abril de 2013
Pablo J. Ginés/ReL
A República Checa sai hoje em todas as estatísticas como um dos 5 países mais ateus do mundo. É o resultado da duríssima perseguição comunista, de 1948 a 1988, uma perseguição muito mais tenaz, insidiosa e eficaz que na Polónia ou Hungria, e que começou com o "milagre da cruz de Cihost" e o martírio do pároco desse povoado, Josef Toufar.
Esta quinta-feira, 25 de Abril, o bispo Jan Vokál, de Hradec Kralové, anunciou que inicia o processo de beatificação de Toufar, um mártir muito recordado no país. É protagonista de um telefilme da CeskaTelevize de 2004 e inspirador de uma novela de Josef Skvorecky.
O milagre: a cruz que se movia
Em 1948 os comunistas dão um golpe de Estado e ficam com o poder absoluto na Checoslováquia. Nesse mesmo ano chega ao povoado de Cihost o novo pároco, Josef Toufar, de 46 anos.
Em 11 de Dezembro de 1949, terceiro domingo do advento, enquanto o padre Toufar prega desde o púlpito, a cruz de metal de meio metro de altura que está nas suas costas, sobre o altar, começa a mover-se por si só, primeiro à esquerda, depois à direita, logo para o Oeste, segundo vários testemunhos. Até a revista TIME o contaria assim (pode aceder-se aqui nos arquivos de TIME em 20 de Fevereiro de 1950).
O padre não o vê, porque lhe dá as costas, mas o testemunharam até 19 paroquianos, que o comentam com mais pessoas. Estende-se a história de um milagre em Cihost, um sinal de Deus para o povo submetido ao comunismo.
Uma carta detalha-o
Em 12 de Janeiro de 1950, o mesmo padre Toufar explica numa carta a outro sacerdote, Jon Dvorak Kresini o que se tinha passado, segundo os seus paroquianos: "viram-no 19 testemunhas de 10 a 45 anos de idade, entre eles vários homens, dois muito moderados no religioso, e um de Zdislavice, quase não crente", explica.
"Cada um deles é são e normal. Também havia um estudante. Não havia sugestão nem ilusão óptica, explicavam o que viam", acrescenta. "Eu não o vi nem ouvi até o dia seguinte, quando o sabia toda a paróquia e as aldeias em redor. Se não o viram todos é porque os paroquianos me estavam olhando a mim, que prego bastante rápido". E acrescenta um esquema de como se movia a cruz (pode consultar-se nesta web sobre o milagre: http://www.regionalist.cz/cihost/index1.htm )
Uma oportunidade contra a Igreja
Em Praga as autoridades comunistas não desprezam o caso: é uma ocasião para carregar contra a esquerda, e enviam ao povoado agentes da StB, a polícia secreta. Em 28 de Janeiro de 1950 detém o padre e o seu sacristão.
O próprio presidente Klement Gottwald está a par do assunto e o supervisiona. Milos Hrabina, um dos agentes encarregados do caso, admitiria em 1962 que a sua missão era conseguir materiais incriminatórios, incluindo a confissão do padre de que ele tinha falsificado o milagre, usando cordas e poleias ocultas para mover a cruz.
Mas o padre Toufar negou-se repetidamente a confessar uma falsificação, e foi torturado a golpes durante Fevereiro pelo interrogador Ladislav Mácha, de forma que no dia 23, com as pernas destroçadas, já o sacerdote era incapaz de mover-se, de sentar-se e apenas podia falar. Sangrava pela boca com frequência.
O filme propagandístico
Levaram-no a Cihost de novo com um motivo macabro: filmar uma película na paróquia, um filme propagandístico que recreasse, com a sua imagem, o suposto truque de cordas e poleias, a forma em que a Igreja enganava os supersticiosos camponeses.
Mas o padre estava tão ferido que não pode participar apenas, e em várias imagens se usou um duplo, fácil de reconhecer na película. Neste vídeo no YouTube podem-se ver algumas cenas deste filme que se emitiu por todo o país, para convencer o povo da "fraude" da "superstição católica" e a sua ligação com Roma e com os Estados Unidos (como se indica nas cenas finais).
Pouco depois de voltar ao povoado, em 25 de Fevereiro, menos de um mês depois da sua detenção, o padre Toufar morria pelas feridas recebidas na tortura.
Mas as autoridades não disseram ao mundo que tinham matado o padre de Cihost, esse "manipulador". Enterraram-no às escondidas numa tumba comum no cemitério de Dablice. O morto que saiu das instalações figurava com o falso nome de J. Zouhar.
O ministro mentia à imprensa
Ao mundo disseram que o padre falsificador estava preso. O mesmíssimo ministro de Interior, Vaclav Nosek, deu uma conferência de imprensa "a que os co-responsáveis ocidentais não estavam convidados", detalhava esse mesmo ano 1950 o Catholic Herald (pode consultar-se aqui). Anunciou que o padre tinha confessado que tinha falsificado o milagre, que "ele sabe que vai ser julgado e castigado", e que outros cúmplices da falsificação tinham sido presos: "incluindo serventes a soldo do alto clero católico", anunciou.
O ministro apresentou um modelo de cordas e poleias e a película propagandística... mas não o padre Toufar, já então morto e enterrado. Passariam 4 anos antes de que avisassem os parentes de Toufar que o sacerdote estava morto.
Tenaz perseguição contra os cristãos
O caso da cruz de Cihost foi o tiro de saída para a repressão da Igreja católica na Checoslováquia. Expulsou-se o clero de etnia alemã e os estrangeiros em geral, proibiu-se directamente o catolicismo de rito bizantino e as suas propriedades foram entregues ao clero ortodoxo russo dócil, mais de 6.000 clérigos foram encarcerados nos anos 50 (uma média de 5 anos ou mais). Em 1968 restavam na Checoslováquia a metade dos padres que vinte anos antes, e a metade deles eram muito anciãos, e boa parte eram colaboracionistas do regime.
A Josef Peske, fotógrafo, que tinha feito uma foto da cruz da paróquia por encargo do padre Toufar, as autoridades condenaram-no a 13 anos de prisão por "promoção do milagre". Peske tinha-se negado a admitir que visse poleias ou cordas ou instalações na igreja.
A breve "Primavera de Praga"
Em 1968, durante a "Primavera de Praga", iniciou-se uma investigação. O polícia Frantisek Goldbricht, que tinha estado na paróquia em 21 de Dezembro de 1949, antes de chegarem os agentes da StB desde a capital, declarou que não tinha visto nada de poleias nem engenhos no altar. Nesta investigação os agentes da StB declararam que os engenhos e cordas e poleias tinham estado escondidas detrás dos jarros com flores do altar... um absurdo, porque o milagre sucedeu no Advento, tempo de austeridade, quando a liturgia não permite adornar o altar com flores.
Depois chegaram os tanques soviéticos, acabou-se a "Primavera de Praga" e a investigação. Só se retomaria em 1988, quando o Estado reabilitou plenamente o padre Josef Toufar.
O Instituto para a Documentação e Investigação dos Crimes do Comunismo em 1989 estudou detalhadamente o caso de Cihost, chegando à conclusão de que a teoria de que o milagre o haviam "cozinhado" realmente os serviços secretos para ter uma desculpa para começar a perseguição não se poderia demonstrar nem negar nunca de forma definitiva.
Um mártir da fé
A Igreja não se declarou oficialmente sobre o milagre, o movimento da cruz. Mas sim sobre Toufar, que é Venerável ao iniciar-se a sua causa de beatificação. Considera-se que morreu mártir pela sua fé: se tivesse cedido e colaborado na mentira contra a Igreja, não o teriam torturado nem teria morrido.
O historiador Jaroslav Šebek, da Academia de Ciências, indicou que os católicos checos apreciam Toufar como uma pessoa que não vacilou em sacrificar a sua vida em defesa dos seus ideais e na luta contra o comunismo.
Os habitantes de Cihost, especialmente os que viveram os difíceis anos 50, receberam agora com alegria a noticia sobre a possível beatificação de Toufar, a quem conheciam e apreciavam. Růžena Lebedová, hoje de 85 anos de idade, então de 21, declara: ”Todos aqui esperamos com ansiedade que esse processo termine com êxito. Estamos seguros e coincidimos todos em que o padre Toufar merece ser beatificado. Eu digo que depois já poderei morrer tranquila”.
O torturador que matou o padre Toufar, Ladisláv Macha, foi julgado e condenado em 1998, culpado de má conduta e infligir graves lesões corporais, mas não chegou a entrar na prisão, por motivos de saúde. Tinha 75 anos: hoje tem 90, e continua vivo.
[O telefilme de 2004 de 97 minutos da TV checa, em CeskaTelevize.cz, pode ver-se nesta ligação, em checo com subtítulos também em checo].
Actualizado 26 de Abril de 2013
Pablo J. Ginés/ReL
A República Checa sai hoje em todas as estatísticas como um dos 5 países mais ateus do mundo. É o resultado da duríssima perseguição comunista, de 1948 a 1988, uma perseguição muito mais tenaz, insidiosa e eficaz que na Polónia ou Hungria, e que começou com o "milagre da cruz de Cihost" e o martírio do pároco desse povoado, Josef Toufar.
Esta quinta-feira, 25 de Abril, o bispo Jan Vokál, de Hradec Kralové, anunciou que inicia o processo de beatificação de Toufar, um mártir muito recordado no país. É protagonista de um telefilme da CeskaTelevize de 2004 e inspirador de uma novela de Josef Skvorecky.
| Nesta paróquia sucedeu o milagre |
Em 1948 os comunistas dão um golpe de Estado e ficam com o poder absoluto na Checoslováquia. Nesse mesmo ano chega ao povoado de Cihost o novo pároco, Josef Toufar, de 46 anos.
Em 11 de Dezembro de 1949, terceiro domingo do advento, enquanto o padre Toufar prega desde o púlpito, a cruz de metal de meio metro de altura que está nas suas costas, sobre o altar, começa a mover-se por si só, primeiro à esquerda, depois à direita, logo para o Oeste, segundo vários testemunhos. Até a revista TIME o contaria assim (pode aceder-se aqui nos arquivos de TIME em 20 de Fevereiro de 1950).
O padre não o vê, porque lhe dá as costas, mas o testemunharam até 19 paroquianos, que o comentam com mais pessoas. Estende-se a história de um milagre em Cihost, um sinal de Deus para o povo submetido ao comunismo.
Uma carta detalha-o
Em 12 de Janeiro de 1950, o mesmo padre Toufar explica numa carta a outro sacerdote, Jon Dvorak Kresini o que se tinha passado, segundo os seus paroquianos: "viram-no 19 testemunhas de 10 a 45 anos de idade, entre eles vários homens, dois muito moderados no religioso, e um de Zdislavice, quase não crente", explica.
"Cada um deles é são e normal. Também havia um estudante. Não havia sugestão nem ilusão óptica, explicavam o que viam", acrescenta. "Eu não o vi nem ouvi até o dia seguinte, quando o sabia toda a paróquia e as aldeias em redor. Se não o viram todos é porque os paroquianos me estavam olhando a mim, que prego bastante rápido". E acrescenta um esquema de como se movia a cruz (pode consultar-se nesta web sobre o milagre: http://www.regionalist.cz/cihost/index1.htm )
| O padre Toufar explica com este desenho na sua carta de 12 de Janeiro como se moveu a cruz em 11 de Dezembro |
Em Praga as autoridades comunistas não desprezam o caso: é uma ocasião para carregar contra a esquerda, e enviam ao povoado agentes da StB, a polícia secreta. Em 28 de Janeiro de 1950 detém o padre e o seu sacristão.
O próprio presidente Klement Gottwald está a par do assunto e o supervisiona. Milos Hrabina, um dos agentes encarregados do caso, admitiria em 1962 que a sua missão era conseguir materiais incriminatórios, incluindo a confissão do padre de que ele tinha falsificado o milagre, usando cordas e poleias ocultas para mover a cruz.
Mas o padre Toufar negou-se repetidamente a confessar uma falsificação, e foi torturado a golpes durante Fevereiro pelo interrogador Ladislav Mácha, de forma que no dia 23, com as pernas destroçadas, já o sacerdote era incapaz de mover-se, de sentar-se e apenas podia falar. Sangrava pela boca com frequência.
O filme propagandístico
Levaram-no a Cihost de novo com um motivo macabro: filmar uma película na paróquia, um filme propagandístico que recreasse, com a sua imagem, o suposto truque de cordas e poleias, a forma em que a Igreja enganava os supersticiosos camponeses.
Mas o padre estava tão ferido que não pode participar apenas, e em várias imagens se usou um duplo, fácil de reconhecer na película. Neste vídeo no YouTube podem-se ver algumas cenas deste filme que se emitiu por todo o país, para convencer o povo da "fraude" da "superstição católica" e a sua ligação com Roma e com os Estados Unidos (como se indica nas cenas finais).
Pouco depois de voltar ao povoado, em 25 de Fevereiro, menos de um mês depois da sua detenção, o padre Toufar morria pelas feridas recebidas na tortura.
Mas as autoridades não disseram ao mundo que tinham matado o padre de Cihost, esse "manipulador". Enterraram-no às escondidas numa tumba comum no cemitério de Dablice. O morto que saiu das instalações figurava com o falso nome de J. Zouhar.
O ministro mentia à imprensa
Ao mundo disseram que o padre falsificador estava preso. O mesmíssimo ministro de Interior, Vaclav Nosek, deu uma conferência de imprensa "a que os co-responsáveis ocidentais não estavam convidados", detalhava esse mesmo ano 1950 o Catholic Herald (pode consultar-se aqui). Anunciou que o padre tinha confessado que tinha falsificado o milagre, que "ele sabe que vai ser julgado e castigado", e que outros cúmplices da falsificação tinham sido presos: "incluindo serventes a soldo do alto clero católico", anunciou.
| A enfermaria da Polícia secreta onde se encontra morto o padre Toufar (recriação televisiva de 2004) |
Tenaz perseguição contra os cristãos
O caso da cruz de Cihost foi o tiro de saída para a repressão da Igreja católica na Checoslováquia. Expulsou-se o clero de etnia alemã e os estrangeiros em geral, proibiu-se directamente o catolicismo de rito bizantino e as suas propriedades foram entregues ao clero ortodoxo russo dócil, mais de 6.000 clérigos foram encarcerados nos anos 50 (uma média de 5 anos ou mais). Em 1968 restavam na Checoslováquia a metade dos padres que vinte anos antes, e a metade deles eram muito anciãos, e boa parte eram colaboracionistas do regime.
A Josef Peske, fotógrafo, que tinha feito uma foto da cruz da paróquia por encargo do padre Toufar, as autoridades condenaram-no a 13 anos de prisão por "promoção do milagre". Peske tinha-se negado a admitir que visse poleias ou cordas ou instalações na igreja.
A breve "Primavera de Praga"
Em 1968, durante a "Primavera de Praga", iniciou-se uma investigação. O polícia Frantisek Goldbricht, que tinha estado na paróquia em 21 de Dezembro de 1949, antes de chegarem os agentes da StB desde a capital, declarou que não tinha visto nada de poleias nem engenhos no altar. Nesta investigação os agentes da StB declararam que os engenhos e cordas e poleias tinham estado escondidas detrás dos jarros com flores do altar... um absurdo, porque o milagre sucedeu no Advento, tempo de austeridade, quando a liturgia não permite adornar o altar com flores.
Depois chegaram os tanques soviéticos, acabou-se a "Primavera de Praga" e a investigação. Só se retomaria em 1988, quando o Estado reabilitou plenamente o padre Josef Toufar.
O Instituto para a Documentação e Investigação dos Crimes do Comunismo em 1989 estudou detalhadamente o caso de Cihost, chegando à conclusão de que a teoria de que o milagre o haviam "cozinhado" realmente os serviços secretos para ter uma desculpa para começar a perseguição não se poderia demonstrar nem negar nunca de forma definitiva.
Um mártir da fé
A Igreja não se declarou oficialmente sobre o milagre, o movimento da cruz. Mas sim sobre Toufar, que é Venerável ao iniciar-se a sua causa de beatificação. Considera-se que morreu mártir pela sua fé: se tivesse cedido e colaborado na mentira contra a Igreja, não o teriam torturado nem teria morrido.
O historiador Jaroslav Šebek, da Academia de Ciências, indicou que os católicos checos apreciam Toufar como uma pessoa que não vacilou em sacrificar a sua vida em defesa dos seus ideais e na luta contra o comunismo.
Os habitantes de Cihost, especialmente os que viveram os difíceis anos 50, receberam agora com alegria a noticia sobre a possível beatificação de Toufar, a quem conheciam e apreciavam. Růžena Lebedová, hoje de 85 anos de idade, então de 21, declara: ”Todos aqui esperamos com ansiedade que esse processo termine com êxito. Estamos seguros e coincidimos todos em que o padre Toufar merece ser beatificado. Eu digo que depois já poderei morrer tranquila”.
O torturador que matou o padre Toufar, Ladisláv Macha, foi julgado e condenado em 1998, culpado de má conduta e infligir graves lesões corporais, mas não chegou a entrar na prisão, por motivos de saúde. Tinha 75 anos: hoje tem 90, e continua vivo.
[O telefilme de 2004 de 97 minutos da TV checa, em CeskaTelevize.cz, pode ver-se nesta ligação, em checo com subtítulos também em checo].
in
Sem comentários:
Enviar um comentário