Zenão
sentou-se. Agora sim, já podia abrir a carta que o Pe. Zacarias lhe dera para
ler no dia de Natal diante do Presépio. Era uma carta íntima, de diretor
espiritual para seu dirigido. Estava habituado a isso, sobretudo ultimamente em
que buscava os seus conselhos, pois a data do casamento aproximava-se. Fechou a
porta para atenuar o ruído que chegava da casa de jantar.
“Meu filho!” começava a carta. Hummm!
Pensou Zenão, Se o Pe. Zacarias me trata por filho, a coisa vai séria! E foi
séria mesmo, deixando Zenão espantado. Convidava-o a ir olhando para as imagens
do Presépio à medida que avançasse na leitura.
Começava
por dizer-lhe que uma pessoa “não se casa
só para ser feliz, mas para dar aos
filhos a oportunidade de irem para o Céu. Se tiveres muitos, muitos irão para o
Céu; se tiveres poucos...alguns perderão a sua grande oportunidade , com eles,
os teus netos, bisnetos, trinetos...” Zenão parou de ler, olhou para o
Presépio e viu o que jamais vira: viu um casal jovem a olhar embevecido para o
seu filho recém-nascido e esse Filho não era de José, mas era filho da sua
generosidade. Sem José, que tanto sofrera ao aperceber-se da gravidez da sua
desposada, este Menino teria ficado desprotegido da maldade do mundo
personificada em Herodes. Se José não tivesse fugido para o Egipto, e esse rei
malvado o tivesse matado antes de tempo, não teria havido a Salvação prometida para
todos os homens de boa vontade.
Isto
era obra de uma grandiosidade tal que Zenão se sentia esmagado. Alguns minutos
após o choque, experimentou uma necessidade enorme de chamar Camila para junto
de si; precisava da sua presença, da sua ajuda. Iria ela compreendê-lo? Estaria
disposta a viver a seu lado a maravilhosa aventura que estava a descobrir?
Teve
dificuldade em sair do ambiente de paz que encontrara naquela sala, mas violentou-se.
Conseguiu encontrar Camila, e lá foram os dois para continuar a ler a carta.
“Não te esqueças de que as grandes alegrias
são o fruto das grandes dores e que as dores não se devem suportar a sós. Deus
fez a mulher para ajudar o homem...” Entreolhando-se, os noivos sorriram.
Mas a carta continuava: “Aprendam com
José e Maria a ir procurar Jesus sempre que estiverem em aflição. Não se
esqueçam de que Jesus está sempre no outro, mas terão de O procurar.”
O matrimónio nunca fora, é ou seria
para pessoas egoístas ou comodistas, continuava a missiva, é antes um dos
sacramentos destinados a servir a sociedade com a graça de Deus. O outro
sacramento que também serve a sociedade é o do sacerdócio ministerial. Ambos os
sacramentos se destinam a renovar as vidas, humana e sobrenatural, de cada
pessoa. É no ambiente familiar e de amizade que melhor se exerce o sacerdócio
comum a todos os batizados, como o apostolado que fariam com os filhos ao
ensinar-lhes a rezar ou explicar-lhes o catecismo.
Zenão
e Camila ficaram algum tempo em silêncio. Ambos olhavam na mesma direção, de
mãos dadas. Camila levantou-se, mas voltou imediatamente com um embrulho feito
com cuidado. Tratava-se de uma “jóia” oferecida pelos seus avós, explicou, e
destinava-se a ser das primeiras peças a entrar no seu lar. Era um Presépio de
barro, de apenas três figuras, com assinatura de Amélia Carvalheira, a
escultora que soubera captar a beleza, perfeição e simplicidade da família de
Nazaré.
Isabel
Vasco Costa
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