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quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

O Natal dos noivos

Zenão sentou-se. Agora sim, já podia abrir a carta que o Pe. Zacarias lhe dera para ler no dia de Natal diante do Presépio. Era uma carta íntima, de diretor espiritual para seu dirigido. Estava habituado a isso, sobretudo ultimamente em que buscava os seus conselhos, pois a data do casamento aproximava-se. Fechou a porta para atenuar o ruído que chegava da casa de jantar.

Meu filho!” começava a carta. Hummm! Pensou Zenão, Se o Pe. Zacarias me trata por filho, a coisa vai séria! E foi séria mesmo, deixando Zenão espantado. Convidava-o a ir olhando para as imagens do Presépio à medida que avançasse na leitura.

Começava por dizer-lhe que uma pessoa “não se casa só para ser feliz, mas para dar aos filhos a oportunidade de irem para o Céu. Se tiveres muitos, muitos irão para o Céu; se tiveres poucos...alguns perderão a sua grande oportunidade , com eles, os teus netos, bisnetos, trinetos...” Zenão parou de ler, olhou para o Presépio e viu o que jamais vira: viu um casal jovem a olhar embevecido para o seu filho recém-nascido e esse Filho não era de José, mas era filho da sua generosidade. Sem José, que tanto sofrera ao aperceber-se da gravidez da sua desposada, este Menino teria ficado desprotegido da maldade do mundo personificada em Herodes. Se José não tivesse fugido para o Egipto, e esse rei malvado o tivesse matado antes de tempo, não teria havido a Salvação prometida para todos os homens de boa vontade.

Isto era obra de uma grandiosidade tal que Zenão se sentia esmagado. Alguns minutos após o choque, experimentou uma necessidade enorme de chamar Camila para junto de si; precisava da sua presença, da sua ajuda. Iria ela compreendê-lo? Estaria disposta a viver a seu lado a maravilhosa aventura que estava a descobrir?

Teve dificuldade em sair do ambiente de paz que encontrara naquela sala, mas violentou-se. Conseguiu encontrar Camila, e lá foram os dois para continuar a ler a carta.

Não te esqueças de que as grandes alegrias são o fruto das grandes dores e que as dores não se devem suportar a sós. Deus fez a mulher para ajudar o homem...” Entreolhando-se, os noivos sorriram. Mas a carta continuava: “Aprendam com José e Maria a ir procurar Jesus sempre que estiverem em aflição. Não se esqueçam de que Jesus está sempre no outro, mas terão de O procurar.

O matrimónio nunca fora, é ou seria para pessoas egoístas ou comodistas, continuava a missiva, é antes um dos sacramentos destinados a servir a sociedade com a graça de Deus. O outro sacramento que também serve a sociedade é o do sacerdócio ministerial. Ambos os sacramentos se destinam a renovar as vidas, humana e sobrenatural, de cada pessoa. É no ambiente familiar e de amizade que melhor se exerce o sacerdócio comum a todos os batizados, como o apostolado que fariam com os filhos ao ensinar-lhes a rezar ou explicar-lhes o catecismo.

Zenão e Camila ficaram algum tempo em silêncio. Ambos olhavam na mesma direção, de mãos dadas. Camila levantou-se, mas voltou imediatamente com um embrulho feito com cuidado. Tratava-se de uma “jóia” oferecida pelos seus avós, explicou, e destinava-se a ser das primeiras peças a entrar no seu lar. Era um Presépio de barro, de apenas três figuras, com assinatura de Amélia Carvalheira, a escultora que soubera captar a beleza, perfeição e simplicidade da família de Nazaré.

Isabel Vasco Costa



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