Tic-tac, tic-tac, tic-tac. E de repente o relógio avariou, encontra-se parado de momento. Ainda assim dá horas certas duas vezes por dia. Por analogia tal acontece com o corpo humano, ou seja, a doença com a qual às vezes nos confrontamos, nossa ou de um familiar. Ocorreu-me fazer a ligação deste meu pensamento com a XXV Jornada Mundial do Doente a ter lugar no dia 11 de Fevereiro de 2017, este ano subordinada ao tema: “Admiração pelo que Deus faz: “O Todo-poderoso fez de mim maravilhas” (Lc 1, 49).
Na sua mensagem o Santo Padre refere: …”Desejo manifestar a minha proximidade a todos vós que viveis a experiência do sofrimento e às vossas famílias, bem como o meu apreço a todos quantos nas mais variadas tarefas de todas as estruturas de saúde espalhadas pelo mundo, com competência, responsabilidade e dedicação se ocupam em melhorar, prestar cuidados e o bem-estar diário.
Desejo encorajar-vos a todos – doentes, atribulados, médicos, enfermeiros, familiares, voluntários - a olhar Maria, Saúde dos Enfermos, com a grande ternura de Deus por todo o ser humano e o modelo de abandono à vontade divina e a encontrar sempre na fé a força para amar a Deus e aos irmãos, mesmo na experiência da doença… Isto lembra-nos que cada doente é e permanece sempre um ser humano, que deve ser tratado como tal. Os doentes, tal como as pessoas com deficiências mesmo muito graves, têm a sua dignidade inalienável e a sua missão própria na vida, não se tornando jamais meros objetos ainda que às vezes pareçam de todo passivos, mas na realidade nunca o são… A expressão de omnipotência misericordiosa de Deus que se manifesta na nossa vida – sobretudo quando é frágil, está ferida, humilhada, marginalizada, atribulada, infundindo nela a força da esperança que nos faz levantar e sustenta”.
A doença grave ou terminal acarreta consigo, quase sempre, um grande sofrimento. Também tem o condão de, tantas vezes, agregar os familiares à sua volta, no sentido de lhe prestarem o seu apoio solidário, carinho, compreensão, amor, oração, pretendendo, de algum modo, tentar contribuir para minimizar o sofrimento do doente. Este sofrimento é indiscritível que só a fé pode ajudar a suportar. Por um lado o doente sente-se diminuído, dependente, fragilizado às vezes mesmo discriminado, com receio do futuro a vários níveis, os seguros de saúde, a família, a assistência hospitalar e medicamentosa, entre muitos outros, dependendo da situação de cada doente e da sua patologia. Por outro lado a família sente-se muito preocupada perante o sofrimento constrangedor do seu ente querido, desejando muitas vezes estar no seu lugar. Mas como tal não é possível, esforça-se por lhe prestar todos os cuidados possíveis.
Recordo que a Carta dos Direitos e Deveres dos Doentes refere: “O direito à proteção na saúde está consagrado na Constituição Portuguesa e assenta num conjunto de valores fundamentais como a dignidade humana, a equidade, a ética e a solidariedade. Conhecer os seus direitos e deveres aumenta a sua capacidade de atuação na melhoria dos cuidados e serviços de saúde”. (min-saúde.pt).
No meu pensamento surgiu um momento vivenciado que na altura me deu algum conforto e que não esqueço jamais. Uma familiar, encontrava-se em fase terminal, podendo partir a qualquer momento. Já lhe tinha sido ministrada a Unção dos Doentes o que me dava uma enorme tranquilidade. Contudo sentia-me inconsolável com a separação. De repente senti o calor de uma mão pousada no meu ombro que solidariamente me disse: ”As famílias sofrem muito nestes momentos”. Era uma senhora enfermeira. Foi tão bom experienciar este momento. Deu-me algum alento para reagir, aquecendo o meu coração que por momentos parecia encontrar-se petrificado.
Noutra situação semelhante, ou seja, com um familiar em estado de coma há vários dias na sequência de um acidente grave de viação, quando tudo parecia encontrar-se a caminhar para o momento final, depois de lhe ser administrada a Unção dos Doentes, reagiu, saiu do coma e recuperou aos poucos. Na realidade, os desígnios de Deus são insondáveis. Sempre ouvi dizer que a Unção dos Doentes ajuda muito. Quando o doente tem de partir constitui o maior conforto que se pode ministrar ajudando o doente a partir em paz rumo à vida eterna. Se não for essa a vontade de Deus.
Termino, citando S. Josemaria que costumava dizer: “Quero-te feliz na Terra. Não o serás se perderes esse medo à dor. Porque enquanto caminhamos, na dor está precisamente a felicidade”. Este Santo que sofreu muito, tentou sempre transmitir às pessoas que o rodeavam um carinho especial pelos doentes porque via em cada um deles a imagem de Cristo que sofre. Desejava que os doentes fossem amados do mesmo modo como uma mãe ama com ternura o seu filho, e que os doentes nunca ficassem sós. Os doentes são um tesouro. “Não te esqueças que a Dor é a pedra toque do Amor”. (Caminho, 5).
Sabemos que os relógios podem avariar. Os seres humanos também adoecem em alguns momentos da sua vida. E nós, enquanto tivermos saúde, iremos envidar todos os esforços para facilitar a sua recuperação, melhorar o atendimento, e tornar a sua doença menos dolorosa. Se necessário envidaremos todos os esforços para que o doente receba a Unção dos Doentes.
Santa Maria, Saúde dos Enfermos, rogai por todos nós na saúde e na doença.
| Maria Helena Paes |

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