No aniversário do segundo ano como Papa, concede uma entrevista à TV Mexicana Televisa
Roma, 13 de Março de 2015 (Zenit.org) Rocio Lancho García
O Papa Francisco foi entrevistado pela jornalista Valentina
Alazraki, correspondente do Jornal Televisa no Vaticano, poucos dias
antes de cumprir dois anos como pontífice. Durante a entrevista, o Santo
Padre falou sobre as reacções que provocou o email enviado a um amigo
argentino no qual falava de “evitar a mexicanização da Argentina”. O
Papa também se referiu aos factos da violência ter afectado o país nos
últimos anos, mas afirma que não é o primeiro momento difícil pelo qual o
país atravessa ao longo da história e poderá superá-lo. O pontífice
lembra como foi o dia da sua eleição como Sucessor de Pedro, a paz que
sentiu naquele dia e que desde então sente. Também comenta a reforma da
Cúria, o Sínodo da família e os casos de pederastia.
Sobre o que significa visitar o México e a sua fronteira com os
EUA, o Santo Padre explica que “hoje em dia a emigração é fruto do
mal-estar no sentido etimológico da palavra, fruto da fome, do buscar
novas fronteiras”. Mas, evidentemente – destaca – a migração hoje em dia
está muito relacionada com a fome, a falta de trabalho. “A esta tirania
de um sistema económico que tem o deus dinheiro no centro e não a
pessoa, não? E então se descarta as pessoas”, afirma o Pontífice. A este
respeito, está feliz de que a Europa está revisando a sua política
migratória. “A Itália foi muito generosa e quero dizer isso”, disse
Francisco fazendo referência à situação de Lampedusa. Mas, voltando à
situação concreta na fronteira do México e dos Estados Unidos, o Papa
indica que “além do mais é uma região de muita luta de problemas de
tráfico de drogas”. E fala de Morelia, toda essa região, “é uma região
de muito sofrimento onde também as organizações de traficantes de droga
não são inofensivas, não?, ou seja, sabem fazer os seus trabalhos de
morte, certo?, são mensageiros de morte, seja por drogas, ou seja para
limpar, entre aspas, aqueles que se opõem à droga, os 43 estudantes, de
alguma maneira, estão pedindo que, não digo vingança, justiça, e que
sejam lembrados”. Aliás, Francisco reconhece que quis fazer cardeal o
arcebispo de Morelia, “porque está na panela”. Ou seja – explica – um
homem que está em uma região muito quente, e é testemunho de homem
cristão, de um grande sacerdote.
Falando sobre o difícil momento que atravessa agora o México o Papa
indica que não é o primeiro que passa. “Eu acho que o diabo castiga o
México com muita raiva. Por isso. Acho que o diabo não perdoa o México,
que Ela tenha mostrado aí o seu Filho. Interpretação minha”, afirma o
Papa. Sobre as responsabilidades, Francisco observa que nem toda a culpa
pode ser colocada no Governo. “Eu sei que é muito difícil denunciar um
traficante de drogas. Porque se perde a vida, é uma espécie de martírio,
não? É duro, mas acho que todos em situações assim, tanto no México ou
não no México, temos que apoiar. Ou seja, culpar só um setor, só uma
pessoa, só um grupo, é infantil”.
O Papa também responde a uma pergunta sobre a "mexicanização" da
Argentina da qual falou em um email privado em um amigo seu e certa
expressão feriu alguns sectores. "Obviamente é um termo, deixe-me falar,
técnico. Não tem nada a ver com a dignidade do México. Como quando
falamos sobre a balcanização, nem os sérvios, nem os macedónios, nem os
croatas ficam com raiva. Quando se fala de balcanizar algo e se usa
tecnicamente e a media usa, não é?", explica. E esclarece que leu
estatísticas que falavam que o 90 por cento do povo mexicano não se
sentiu ofendido por isso. "O que me alegra. Para mim teria sido uma
grande dor que fosse interpretado de outra maneira”.
Referindo-se ao fato de que um e-mail privado termine sendo
publicado, a jornalista lhe perguntou se não pensou em dizer para as
pessoas que liga ou escreve "isso é privado", Francisco explica que
normalmente faz isso, “mas às vezes as pessoas não se controlam”. Em
seguida o Papa afirma que “às vezes me senti usado pela política do
país. Políticos argentinos me pediam audiência”. Dessa forma indica que
“claro, os argentinos quando viram um Papa argentino se esqueceram de
todos os que estavam a favor ou contra o Papa argentino”.
A entrevista coincide com o segundo aniversário do pontificado de Francisco, daí a questão sobre o dia da eleição.
"A coisa foi simples. Eu vim com uma malinha pequena porque calculei,
e disse o Papa nunca vai assumir na Semana Santa. Portanto, eu posso ir
tranquilamente e no Domingo de Ramos voltar a Buenos Aires. Deixei
preparada a homilia do Domingo de Ramos na minha mesa e vim com o
necessário para esses dias, embora pensava que podia ser um conclave
muito curto, não?" Sobre o Conclave, o Papa diz que o fenómeno das
votações é um fenómeno interessante. "Já existem fortes candidatos. Mas
muitas pessoas não sabem onde votar. Em seguida, escolhem seis, sete,
que são os votos depósito. Então eu deposito o voto em você e quando
vejo já quem vai dou o meu. Ou seja, são, é como uma provisoriedade.
Isso é geral nas votações de grupos grandes, não é verdade? Ou seja sim,
eu tinha alguns votos, mas deposito”, explica Francisco na entrevista.
Na primeira votação da tarde – continua o Papa – quando vi que isso
já podia ser irreversível, tinha do meu lado o meu amigo, o Card.
Hummes, que para mim é um grande, me dizia: “Não se preocupe, assim
trabalha o Espírito Santo”.
Além do mais, o Papa conta também que durante a votação, rezava o
Terço, “costumava rezar os três Terços diários, tinha muita paz. Eu
diria que até inconsciência. O mesmo quando aconteceu a coisa, e para
mim esse foi o sinal de que Deus queria isso. A paz. Até hoje não a
perdi”.
E naquele dia chegou o primeiro “problema com o protocolo”, quando
pediu ao vigário de Roma e ao cardeal Hummes que o acompanhasse nesse
momento, algo que não estava previsto. Sobre o momento concreto na
janela central da Basílica, Francisco lembra que sentiu profundamente
que um ministro necessita da bênção de Deus, mas também a do seu povo.
Por outro lado responde também a perguntas sobre o que mais gosta e o
que menos gosta do ser Papa. Gosta de tudo, mas “o único que gostaria é
de poder sair um dia, sem que ninguém me conhecesse e ir a uma pizzaria
comer um pizza”.
Também explica que não é que antes não gostava de vir ao Vaticano, o
que o Papa não gosta é de estar viajando. "Eu sou muito ligado ao
habitat, é uma neurose", brinca. Sobre morar em Santa Marte explica que
“é simplesmente porque tem pessoas. Eu lá sozinho, não teria suportado.
Não porque seja luxuoso, como alguns dizem, não. Não é luxuoso. O
apartamento não é luxuoso. É grande. Mas não teria tolerado essa solidão
toda”.
Francisco diz na entrevista que o seu pontificado "será breve", "mas
tenho a sensação de que o Senhor me coloca para uma coisa breve, e
basta... Mas é uma sensação”. Sobre a possibilidade de renunciar indica
que acredita que “o que fez o Papa Bento foi abrir uma porta”.
Acrescenta que não é da ideia de colocar uma idade como para os bispos
eméritos, mas sim do que fez Bento. Lembra que o viu recentemente no
Consistório, “estava feliz, alegre. Respeitado em todo o mundo. Eu o
visito. Às vezes falo com ele por telefone. Como disse, é como ter um
avô sábio em casa”.
Sobre o seu primeiro encontro com Bento XVI em 23 de Março de 2013,
"ali senti como que o meu pai me levava e me mostrava e me fazia sentar.
Ele foi o anfitrião no sentido humano da palavra".
Outra questão abordada na entrevista é a reforma da Cúria. E
Francisco fala sobre a conversão do coração. "Tem que deixar o que possa
ter de corte ainda e ser um grupo de trabalho, ao serviço da Igreja. A
serviço dos bispos. Evidentemente que isso indica uma conversão pessoa”,
explica.
E fala também em concreto dos símbolos: o carro, a roupa... “Procuro
ser eu, como gosto, e às vezes exagero em alguma coisa que pode ofender
alguém. Não sei. Tenho que me cuidar nisso”. Da mesma forma esclareceu
sobre o seu discurso à Cúria no Natal e as doenças que falou. O contexto
do que falou é, “estamos no fim do ano, façamos um exame de
consciência”. Mas – reconhece – não é que a Cúria esteja caindo aos
pedaços de todas estas complicações ou doenças. Sobre as resistências na
Cúria, o Papa diz que nunca puniu ninguém por ter-lhe dito as coisas na
cara. “Esses são os colaboradores que eu quero".
No que diz respeito a sua opção preferencial pelos pobres, o Santo
Padre indica que o que sempre lhe incomoda é “a segurança na riqueza.
Não coloque a sua segurança ali. No Evangelho Jesus é radical nisso”.
Também afirma que fica indignado com o “salário injusto. Porque a pessoa
se enriquece à custa da dignidade não dada à outra”.
Outra questão importante que falam na entrevista é o Sínodo da
família. O Papa acredita que “existem expectativas desmedidas” e
esclarece que Sínodo da Família “não fui eu que quis. O quis o Senhor. E
foi uma coisa Dele”. O Papa observa que “existe uma crise familiar
dentro da família” e desse ponto de vista acredita que o que o Senhor
quer é que se enfrente a “preparação do matrimónio, acompanhamento dos
que convivem, acompanhamento dos que se casam, e levam bem a sua
família, acompanhamento dos que fracassaram, na família e fizeram uma
nova união, preparação ao Sacramento do matrimónio, nem todos estão
preparados”. E sobre a forma em que se desenvolveu o sínodo, o Papa
especifica que se opõe a que sejam publicadas as coisas que fala cada um
com nome e sobrenome, “que se saiba o que se disse, não tenho problema.
Mas não quem falou. De forma que se sinta livre de falar o que quiser”.
A questão da pedofilia e Marcial Maciel também foi um dos pontos da
entrevista. "Quando fiquei sabendo do grande escândalo realmente fiquei
muito dolorido, me escandalizei. Como essa pessoa pode chegar a isso?",
perguntou o Papa. E explica que "aqui, quando houve consciência da
coisa, começou-se a actuar forte”. E deixa claro que o então cardeal
Ratzinger e São João Paulo II estavam conscientes e disseram: adiante.
Um na investigação, o outro dando luz verde.
Sobre o problema do abuso de criança reconhece que é um problema
sério, “a maioria dos abusos ocorre no ambiente familiar e na
vizinhança." Mas, "um só padre que abusa de uma criança, é suficiente
para mover toda a estrutura da Igreja e resolver o problema". Temos de
seguir em frente, não dar um passo para trás, diz Francisco.
A jornalista também perguntou ao Santo Padre se alguma vez pensou se
“deveria ter mordido a língua” pela sua linguagem espontânea e não
convencional. "Eu sempre falei assim. Sempre. Se por aí é um defeito,
não sei. Mas, eu acho que as pessoas me entendem”, observou o Papa.
(13 de Março de 2015) © Innovative Media Inc.
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