Ontem recebi um telefonema a
solicitar algum apoio. A bisavó da minha neta tinha falecido, e tornava-se
necessário ficar com a neta o que para mim era uma satisfação enorme. O meu
filho acrescentou que ela teria a “festa do pijama” na escola, e assim sendo
tinha que comprar um pijama cor-de-rosa como era a sua vontade. Coisas dos
novos tempos! Como era normal vinha triste com o falecimento da bisavó que não
conhecia em virtude de viver no Brasil. Depois de desabafar o seu desgosto
referiu que “era a única bisavó que tinha, mas que agora já estava no céu”.
Animou-se, e aí fomos nós a uns grandes armazéns. Em amena conversa, no
percurso, ao observar a decoração colorida de Natal ao centro da avenida da
República, exclamou: “Sabes vovó, o Natal é Amor, é Família. É comprarmos a
decoração de Natal, fazermos o presépio com musgo, como antigamente, receber
presentes, as fatias douradas… O Amor é o Jesus que nasce e nos ajuda a sermos
melhores pessoas”. Uma verdadeira ternura, esta minha neta. Claro que, quando
chegámos aos armazéns, começou a ver de imediato a decoração natalícia, a
mostrar-me o musgo que agora se comprava já feito... Admirámos os diferentes
presépios expostos, caixinhas com música, bolas coloridas com diferentes
motivos… A certa altura, recordei o motivo que nos tinha trazido aos armazéns.
Fomos então ver os pijamas. A oferta era variada. Não ficámos de acordo
relativamente ao pijama a adquirir. A Maria Luísa queria um fino, de algodão.
Escolhi um mais quente, face á época que atravessamos e à sua finalidade. Sem
consenso, fomos dar uma volta. Passámos pelo andar dos brinquedos. Que alegria.
Sentou-se a fazer jogos. Foi vendo o preço dos brinquedos. Uma verdadeira
tentação. Às vezes questionava as funcionárias se tinham alguma promoção porque
o que ela gostava era dispendioso. Sorriam, admiradas comentando: “Já tem a
noção do valor do dinheiro”. A certa altura propus fazermos uma pausa no
sentido de lanchar, falarmos um pouco sobre o pijama, as prendas de Natal.
Agora não era o tempo certo para pedir brinquedos. Tem de estudar. Pode,
contudo, começar a fazer a carta para o Menino Jesus. Graças a Deus,
entretanto, o meu filho telefonou propondo juntar-se a nós para que a aquisição
do pijama noutro local com menos tentações. A Maria Luísa já tinha dispersado.
Agora só pensava mesmo no Natal, como qualquer criança da sua idade, feliz no
meio de tanta oferta, já que cada uma constituía uma verdadeira tentação. No
final acabou orgulhosa com a oferta de uma caixinha/mealheiro contendo pequenos
chocolates de leite. Tinha referido que queria começar a juntar dinheiro para
doar às instituições sociais com crianças, por ocasião do Natal. Juntou-se
assim o útil ao agradável. Na companhia do pai foi fácil comprar o pijama
adequado. É tão bom ver o sorriso no rosto de uma criança. Agora era chegado o
momento de participar numa missa por alma da mãe de um amigo que tinha lugar na
capela do antigo Convento dos Cardaes, um espaço riquíssimo, de uma enorme
beleza, que se encontra aberto ao público para visita, em alguns dos espaços,
guiadas por voluntárias. O Convento dos Cardaes onde se encontra sediada a
Associação Nossa Senhora Consoladora dos Aflitos, Instituição Particular de
Solidariedade Social que nasceu em 1847, que se dedica ao acolhimento de 38
meninas jovens e menos jovens portadoras de multideficiência grave, incluindo a
cegueira, a cargo de uma equipa de Irmãs Dominicanas, técnicas, auxiliares e
voluntárias/os que dedicam o seu dia-a-dia a estas “meninas”. Gostei imenso
deste espaço, do seu ambiente e simpatia. Considerei um lugar a visitar, já que
constitui o mais belo e o mais bem conservado Convento da cidade de Lisboa. A
missa foi acompanhada por violino, órgão e coro, que graças à sua música nos
ajudaram a rezar duas vezes. O sacerdote referiu que existe um triângulo:
música, artes plásticas e poesia. Cada um de nós é um poema de valor
incomensurável. A nossa vida mede-se não pelas vezes que caímos, mas sim pelas
que nos levantamos com esperança e confiança. Depois da missa, quando me
preparava para sair, deparei-me com um verso que falava sobre o Amor referindo:
“Há amor em toda a parte, perfeito engenho é arte da maior simplicidade. Por
amor tudo se faz. O amor atrai a paz, à nossa realidade. Quem amor soube dizer,
com amor irá viver, o sagrado sentimento, não se compra, não se vende, mas quem
o amor entende, abençoa cada momento”. Sublime confiança no amor transcendente,
na comunhão dos santos, na vida espiritual.
A propósito do Natal, S. João
Paulo II disse: “Aos pés de Jesus, coloquemos alegrias e preocupações, lágrimas
e esperanças. É que o mistério do ser humano só encontra verdadeira luz em
Jesus, o homem novo. Natal é a festa da vida porque Jesus, vindo à luz como
cada um de nós, abençoaste a hora do nascimento, unindo a aflição à esperança,
a dor à alegria”. Termino este artigo com referência a uma das músicas mais
tocadas no Natal, Stille Nacht! Heilige Nacht! (Silent Night ou Noite Feliz)
escrita por Joseph Mohr e com música
de Franz Gruber: “Noite feliz, noite
feliz, o Senhor Deus de amor, pobrezinho nasceu em Belém, eis na lapa, Jesus
nosso bem. Dorme em paz, ó Jesus. Noite feliz, noite feliz, eis que no ar vêm
cantar aos pastores os anjos dos céus, anunciando a chegada de Deus, de Jesus,
Salvador!”
| Maria Helena Paes |

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