Leitura sobre Teresa com os olhos do Papa nos dá uma nova dimensão de sua mensagem, analisa o Superior Carmelita no Egipto, Frei Patrício Sciadini, ocd.
Cairo, 17 de Março de 2015 (Zenit.org) Frei Patrício Sciadini
O Papa Francisco continua a surpreender a todos e a todas
com sua profundidade e com suas intuições, que são sem dúvida obra do
Espírito Santo e não só da inteligência ou da “criatividade”, para
suscitar interesse. Acredito muito no que João da Cruz chama de
“iluminações e vozes interiores do Espírito Santo”. Creio no que Teresa
d'Ávila diz muitas vezes que o Senhor lhe falava na oração e lhe dizia
o que ela devia fazer sem desanimar. Já em vários momentos o Papa
Francisco tem falado de Santa Teresa de Ávila, fazendo referência a esta
mulher extraordinária, seja falando da vida religiosa - “uma santa
triste é uma triste Santa”- ou falando de oração.
O Papa aceitou com alegria a ideia do Padre Geral do Carmelo, Padre
Savério Cannistrá, de convidar o Carmelo e o mundo a uma “hora de
oração” no dia 26 de Março, V Centenário do nascimento de Teresa, que
aconteceu no dia 28 de Março de 1515. E o Papa deu também a intenção
desta oração, “a paz”, e preparou um pequeno texto convidativo, muito
interessante. É belo e consolador para mim, carmelita descalço, ver esta
iniciativa do Carmelo apoiada pelo Papa Francisco. E ainda estou
convencido que em várias ocasiões o Papa irá fazer referência a esta
mulher extraordinária, não só no que refere à espiritualidade, mas
também para que as mulheres “tenham mais espaço na mesma Igreja”. Teresa
foi conquistando o seu espaço não com uma revolução estéril e gritos
de praça, mas sim pela sua vida de oração, pela sua capacidade de
diálogo, de escuta dos teólogos, mas também com sua humildade que é
capaz de destruir os muros da auto suficiência e do machismo do mundo
social e da Igreja do séc. XVI. Teresa não desanima e diz o que pensa e
o que ela sabe por experiência: “eu falo só do que sei, só do que tenho
experiência!”
Na audiência geral do dia 11 de Março o Papa surpreendeu,
especialmente a mim, fazendo referência ao V Centenário do nascimento de
Santa Teresa, dirigindo-se aos jovens, aos enfermos e aos recém
casados. Eis as suas palavras: “um pensamento especial ofereço aos
jovens, aos enfermos, aos recém casados. Neste mês lembramos o V
Centenário do nascimento em Ávila de Santa Teresa de Jesus. O seu
vigor espiritual estimule a vocês, queridos jovens, a testemunhar com
alegria a fé na vossa vida; a sua confiança em Cristo Salvador
sustente vocês, queridos enfermos, nos momentos de maior
desencorajamento; e o seu infatigável apostolado convide vocês, recém
casados, a colocar no centro Cristo na vossa casa conjugal!”
Sem dúvida esta visão da mensagem de Santa Teresa de Ávila, vista
com os olhos do Papa Francisco, tem um sabor de novidade e é necessário
saber acolher estas palavras para fazer que Teresa não seja mais a
mística e a santa longe da vida do povo, mas no coração do povo. É uma
santa amiga, que viveu a sua realidade com entusiasmo e com amor.
Teresa morreu com 67 anos de idade, velha para o seu tempo, mas a
sua mensagem tem um valor actual, porque os santos não envelhecem. E
todos, especialmente os jovens, podem contemplar em Teresa o “vigor
espiritual”. Ela sempre, mesmo na última etapa de sua vida, na sua
viagem de Burgos para Ávila, manifestou um grande entusiasmo e vigor
espiritual e onde passava deixava a sua palavra de amor , de estímulo
e de fé. Deu testemunho de fé forte e corajosa.
Teresa de Ávila nunca teve uma saúde de ferro. Sempre experimentou a
fragilidade do seu corpo, mas não desanimou. Doente, enferma,
encontrava a coragem para oferecer as enfermidades a Deus como oração.
Ela tinha grande confiança em Jesus em quem fixava os seus olhos,
especialmente no Cristo chagado pelo sofrimento da paixão. Era muito
devota do Cristo crucifixo e atado a coluna.
As enfermidades, as doenças, não são uma “maldição de Deus”, mas um
dom e uma graça do amor do Senhor que nos convida a participar da força
redentora da paixão de Jesus.
Pode suscitar uma certa maravilha que o Papa convide os recém
casados a olharem a Teresa de Ávila e colocar Cristo no centro da
própria casa conjugal. Me vem em mente o que Teresa diz, falando dos
seus mosteiros: “colocarei numa porta a São José, na outra a Virgem
Maria e no centro Jesus, e tudo irá bem”. Bela esta imagem! Que todos
recém casados, recordando os ensinamentos de Teresa de Ávila, se lembrem
do seu infatigável apostolado e coloquem no centro da vida e da casa
a Jesus, e tudo dará certo. Esta leitura com os olhos do Papa
Francisco sobre o V Centenário de Santa Teresa nos dá uma nova dimensão
de sua mensagem, não só para a vida religiosa e contemplativa, mas
também para os jovens, os doentes e os recém-casados... Que possamos
aproveitar de tudo isto através de uma nova leitura dos escritos da
grande Doutora da Igreja, que continua a nos surpreender com sua vida e
experiência de Deus e que nos convida a beber da Água viva que é
Cristo.
(17 de Março de 2015) © Innovative Media Inc.
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