Papa Francisco descrito por seu ex-aluno do Instituto da Imaculada Conceição, em Santa Fe
Roma, 13 de Março de 2015 (Zenit.org) Nicola Rosetti
Por ocasião do segundo aniversário da eleição do Papa
Francisco, entrevistamos Jorge Milia, jornalista, escritor e ex-aluno do
professor Bergoglio. Milia estudou no Instituto da Imaculada Conceição,
em Santa Fé, onde Bergolgio, futuro Pontífice, ensinava literatura.
Sobre essa experiência, o escritor, bem conhecido na Argentina, também
escreveu um livro, publicado pela Mondadori, intitulado "Maestro
Francisco".
Zenit: Como era o professor Bergoglio em sala de aula?
"El padre Bergoglio", Jorge Mario Bergoglio, ou "Carucha", era um
professor especial em uma escola especial. A Imaculada é a instituição
mais antiga da Argentina, uma história dentro da história. Esta
instituição não queria ser um berço de líderes. A Companhia de Jesus
tinha outra ideia: educar os jovens para se tornarem homens que pensam
com sentido cristão na vida, formando testemunhas de fé. Tudo isso
coincidia com a ideia de Professor Bergoglio. Mas ele foi ainda mais
longe. Ele tinha um jeito novo de ver as coisas, uma grande abertura que
nos dava liberdade para investigar o que nos interessava. Não apenas
nos fazia ler a literatura, mas também nos permitia ‘criar’ a nossa
redação. Ele também nos deu a oportunidade de conversar com autores que
se destacavam no momento.
Zenit: Onde você estava quando Bergoglio foi eleito Papa? Você imaginava?
Não, eu não esperava a sua eleição. Falei com ele pouco antes do
Conclave e ele tinha me dito que quando voltasse de Roma, me
telefonaria. Em 13 de Março eu estava em casa, com um electricista que
estava fazendo umas instalações. Minha esposa me disse da janela: "Uma
fumaça branca". Eu, que tinha esquecido momentaneamente do Conclave,
disse para desligar o forno, pensando que ela tinha deixado as sementes
de abóbora assando, mas ela respondeu: "Não, aqui não, em Roma". Eu
corri para a frente da televisão para ver quem era o novo Papa, e quando
ouvi o Cardeal Tauran pronunciando as palavras "Georgium Marium...", eu
comecei a chorar. Daquele momento em diante, meu telefone começou a
tocar e não parou por mais de dois dias!
Zenit: Qual é a contribuição mais importante que um Papa argentino pode dar à Igreja do século XXI?
Eu acho que, apesar de muitas pessoas já estarem chocadas com o que
Francisco está fazendo, as mudanças só poderão ser avaliadas no final do
seu pontificado. A mudança não está em seu ser latino-americano,
argentino ou jesuíta, mas na escolha dos cardeais eleitores. Isso foi
pouco considerado pelas pessoas até agora, mas se não houvesse uma
mudança de perspectiva do Colégio dos Cardeais, hoje não teríamos Papa
Francisco. O importante é que a maioria dos cardeais considerou que tal
mudança era necessária. Depois, a partir dessa "Buonasera”, o novo bispo
de Roma deu início a outras mudanças, mas a primeira grande mudança
veio na noite da eleição. Mas é verdade que para o mundo inteiro ser
latino-americano, argentino e jesuíta são factores importantes. Em todos
os três casos se trata de uma primeira vez. E poderíamos fazer muitas
indagações sobre qual destes três aspectos é mais significativo na
figura do Papa Francisco. Mas o verdadeiro segredo de Bergoglio está na
sua personalidade, na sua capacidade de trabalho, e na fé.
Zenit: O que significou para a Argentina a eleição de Francisco?
A questão é difícil, porque pode ter muitas respostas. Primeiro é
preciso especificar de qual Argentina falamos. Se falamos de Bergoglio,
precisamos saber que existem aqueles que o amam e aqueles que o odeiam.
Alguns deles agora estão disfarçados de amigos, mas é apenas uma coisa
de fachada. Certamente a eleição mudou muito o aspecto político. O mais
importante foi evitar o projecto de lei para alterar a Constituição. Isto
significou a impossibilidade de reeleição para a presidenta Cristina
Fernández. Por isso, entendo a raiva de seu governo nos primeiros dois
dias. Depois, recuperaram o bom senso (ou eles também se vestiram de
hipocrisia) esquecendo as quatorze solicitações do cardeal, solicitando
uma audiência, sempre negada por Fernandez. Quanto ao aspecto eclesial,
os argentinos têm a mesma adesão a Francisco que todo o mundo. Mas na
igreja da Argentina ainda não se vê uma mudança notável. E isso é
lógico, as estruturas que tinham de fazer uma mudança são muito grandes.
Para as pessoas comuns é sempre mais fácil.
Zenit: Você falou recentemente com o Papa?
Não, excepto por algumas respostas de e-mail, eu não falei com ele. A
última vez foi em Setembro do ano passado, mas era mais um bate-papo
entre amigos, porque eu não sou um ‘chefe de estado’ para discutir
questões importantes. Eu sou um homem comum que teve a sorte de ser
amigo do Papa. Quando nos falamos, ele sempre pergunta das minhas
filhas, e se lembra de tudo o que eu disse a ele anteriormente e nunca
deixa de me dar conselhos. Quando eu disse a ele sobre como elas ajudam
umas às outras, ele me disse que minha esposa e eu fizemos um bom
trabalho, porque nossas filhas têm senso de solidariedade. Ser solidário
entre irmãos ou irmãs não significa dar dinheiro, mas um bom conselho,
estar junto para combater a solidão.
(13 de Março de 2015) © Innovative Media Inc.
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