Entrevista com a irmãzinha Marie, co-fundadora da comunidade
Roma, 18 de Março de 2015 (Zenit.org)
Há quase quarenta anos, as Irmãzinhas do Cordeiro se
consagram à evangelização. Criada na França em 1983 pelo bispo de
Perpignan, dom Jean Chabbert, a comunidade dominicana da Ordem dos
Pregadores conta hoje com mais de cento e cinquenta religiosas, trinta
religiosos e vinte fundações espalhadas pela Europa e pela América
Latina, além dos Estados Unidos. ZENIT conversou com a irmãzinha Marie,
co-fundadora.
***
ZENIT: Poderia nos falar da sua comunidade, do seu carisma e missão no mundo?
Irmãzinha Marie: Vou usar uma imagem para responder. As irmãzinhas do
Cordeiro se situam no mundo de hoje em meio à noite que a humanidade
está atravessando. A espessura das trevas impressiona todos nós. Uma
irmãzinha do Cordeiro é uma irmã que atravessa esta noite com uma
lâmpada acesa, que é a luz do Evangelho, que é Jesus mesmo e é o
Cordeiro de que nos fala o Apocalipse, que é a luz da nova Jerusalém, da
humanidade renovada pelo Senhor Jesus. Eu resumiria a luz que habita a
nossa comunidade com o nosso lema: “Ferida, não deixarei jamais de
amar”. Entre nós, quem é que nunca foi ferido? Por uma palavra, por uma
expressão, vinda até de algum amigo muito querido? Quando somos feridos,
em vez de mostrar um rosto de vítima que transforma o outro em verdugo,
acolhemos esta ferida e continuamos amando quem nos feriu. A nossa vida
diária se deixa iluminar por esta luz do Cordeiro ferido, que diz: “Não
deixarei nunca de amar”. Acreditamos com todas as nossas forças, e
agora por experiência, que esta é verdadeiramente a luz que transforma o
mundo, a luz do Cordeiro. É uma vida contemplativa, de amor fraterno,
mas de um amor mais forte do que a morte, mais forte do que todo ódio.
Isto é uma urgência do mundo de hoje. Anos depois da fundação das
irmãzinhas, a Igreja acolheu e reconheceu os irmãozinhos do Cordeiro,
que vivem o mesmo propósito.
ZENIT: Onde e como começou tudo?
Irmãzinha Marie: A história começou na universidade, em Paris. Já
sendo religiosa, eu fui pela primeira vez com alguns jovens estudantes
ao encontro dos pobres, nos bairros perdidos da capital. Atravessávamos
os anos da revolução cultural e para mim foi um impacto o encontro com
quem estava nas trevas. Fazíamos o caminho com alguns irmãos
dominicanos. Entre eles, o frei Christoph Schönborn, atual
cardeal-arcebispo de Viena e protector da comunidade. Depois iniciamos
esta vida de fraternidade à sombra da basílica de Vézelay; isso durou
uns nove belíssimos anos de oração e de acolhida dos pobres. Na véspera
da festividade da Cruz gloriosa, em oração diante do Santíssimo, eu
lançava a Deus o grito que inundava o meu coração, perguntando: “Por que
o mal parece triunfar a este ponto?”. Ele respondeu com esta frase de
São Paulo aos Efésios: “Em sua carne, Jesus deu morte ao ódio… Em sua
pessoa, Jesus deu morte ao ódio”. Era o Cordeiro de Deus que tira o
pecado do mundo, todo o mal do mundo. Neste momento, nosso Senhor pôs em
nosso caminho um irmão franciscano, o irmão Jean-Claude, pai espiritual
e co-fundador da comunidade. Outras irmãzinhas se uniram a nós e veio a
hora das primeiras fundações. A de Buenos Aires, há 23 anos, merece uma
menção especial, já que o actual papa Francisco foi quem nos recebeu lá.
Que graça tão grande!
ZENIT: Trabalharam pessoalmente com ele?
Irmãzinha Marie: Digamos que foi ele quem exerceu o papel de pai da
pequena fraternidade que começava sem experiência em Buenos Aires. Ele
recebia os irmãozinhos e irmãzinhas e ia até a fraternidade uma vez ou
duas por ano. Ele nos deu a sua confiança e, graças ao apoio dele,
pudemos pouco a pouco nos desenvolver.
ZENIT: Em que consiste a sua ajuda aos pobres nos países em que a sua comunidade está implantada?
Irmãzinha Marie: Não temos obras. Vamos ao encontro deles com a
amizade e a missão é marcada pelo facto de que, com frequência, saímos
para mendigar o nosso pão do dia. Não pedimos dinheiro, só o pão. Como
nosso Senhor, mendigo do nosso amor, somos chamados a seguir este
caminho do Evangelho, ir ao encontro dos pobres e mendigar também entre
eles. Ficamos maravilhadas ao ver como os pobres se alegram quando lhes
pedimos algo. Reencontram a sua dignidade pelo simples fato de que
alguém aguarda a sua resposta. Pedimos o pão, saímos sem nada e
mendigamos a nossa comida.
ZENIT: Como financiam a sua actividade missionária?
Irmãzinha Marie: Nós nos abandonamos completamente à Providência. Em
Roma, por exemplo, o Vaticano pôs à nossa disposição a casa em que nos
alojamos há vinte anos, o que foi extraordinário para o desenvolvimento
dos irmãozinhos e irmãzinhas no coração da Igreja. Mas chegou a hora de
deixar esta casa, que não nos permite viver plenamente o nosso carisma,
para construir aqui em Roma um pequeno mosteiro com uma capela aberta à
rua, para oferecer a todos a luz da liturgia de que o mundo tanto
precisa. Em quase todas as nossas fraternidades, a nossa mesa está
aberta aos pobres. Temos nove mosteiros no mundo e necessitamos de
donativos, claro. Quando começamos, não temos nada, mas, com dois ou
três anos, a construção termina e nos permite fazer a acolhida.
ZENIT: Quem são os principais doadores?
Irmãzinha Marie: Os cristãos, muitíssimos cristãos! Em nosso mosteiro
de Kansas City, por exemplo, há 6.200 doadores. É um grande número de
pequenos donativos e isto é o principal, mas também há outros, graças a
Deus, mais vultosos. Também existe o sistema das fundações nos Estados
Unidos. As famílias também nos ajudam muito.
ZENIT: 2015 é o Ano da Vida Consagrada. Alguma iniciativa para esta ocasião?
Irmãzinha Marie: Gostaríamos muito que, neste Ano da Vida Consagrada,
a Igreja nos doasse um terreno no coração de Roma para construir o
nosso pequeno mosteiro. Como encarnação da vida consagrada, seria a
nossa pequena contribuição. E também queremos responder ao apelo do
Santo Padre nos deixando renovar na prática fervorosa do Evangelho, no
amor a Deus e, sempre, no anúncio feliz do Evangelho.
ZENIT: Com esta ideia de expansão pelo mundo, o que gostariam de pedir aos fiéis e aos leitores da ZENIT?
Irmãzinha Marie: Faremos como o papa e pediremos que rezem por nós!
Rezem por nós, ajudem-nos para que esses pequenos mosteiros, que são
pequenas luzes, estrelas na noite deste mundo, cheguem a nascer, para
que as pessoas possam vir beber na fonte, pois elas precisam muito.
(18 de Março de 2015) © Innovative Media Inc.
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