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quinta-feira, 14 de abril de 2022

Homilia de Quinta-feira Santa



Sé de Beja, 14.04.2022


Senhores Padres, caros seminaristas, amados fiéis leigos:

1 – Por misericórdia do Senhor, chegámos à Páscoa de 2022.

2022, é o 1º ano do Biénio Vocacional que estamos celebrando na Província Eclesiástica de Évora, à qual pertence a nossa diocese de Beja. Na celebração da tarde deste dia, a Igreja manda-nos louvar o Senhor e dar-lhe graças, antes de mais, pela Instituição da Eucaristia, depois pelo Sacerdócio da Nova Aliança e, finalmente, pelo Mandamento Novo da Caridade. Convido-vos, irmãs e irmãos caríssimos, a meditar, ainda que brevemente, no Sacerdócio de Cristo, o único sacerdócio da Nova Aliança no qual participam, não apenas os bispos, padres e diáconos, mas todos os batizados.


2 – O que é o sacerdócio cristão?

Em todas as religiões existem sacerdotes, pessoas especializadas para ajudarem os fiéis a relacionar-se corretamente com Deus. Porque desde sempre foi claro para os seres humanos que a felicidade de cada um depende de um bom relacionamento com Deus. A fórmula latina que se pode traduzir deste modo: dou-te para que me dês, resume bastante bem o funcionamento das religiões. E surgem assim os sacrifícios de animais e as ofertas de partes do corpo humano em cera, e velas, e ofertas de dinheiro… para pedir e sobretudo para agradecer a graça de curas.

Jesus revelou-nos que Deus Pai é amor. Ele ama-nos sempre e não pode deixar de nos amar. Ama-nos tanto que enviou ao mundo o Seu Filho para carregar com os nossos pecados no Seu Corpo. Ele, Jesus, não ofereceu a Deus Seu Pai sacrifícios nem ofertas, mas ofereceu-Se a Si mesmo, fazendo em tudo a Sua vontade. E o culto espiritual que Ele praticou e ensinou aos seus discípulos resume-se em nos unirmos a Ele para com Ele nos oferecermos a nós mesmos, fazendo a vontade do Pai. O culto de Cristo, a Eucaristia, é uma oração de louvor, são palavras com as quais bendizemos o Senhor e nos oferecemos a Ele como vítimas vivas, santas e agradáveis. Com essas palavras que devem cumprir-se em tudo o que fazemos, é-lhe oferecida toda a nossa vida, e tornamo-nos homens e mulheres de Deus no meio do mundo.

Este culto só pode realizar-se em Igreja. Os corpos que podemos oferecer e que o Senhor aceita não são apenas os nossos corpos físicos, mas os corpos espirituais, que têm abertos os ouvidos e que são membros vivos da Igreja, Corpo de Cristo.


3 - Na tradição do povo de Israel havia os sacerdotes do Templo e os sacerdotes familiares, os pais de família que presidiam à liturgia familiar. A religião do povo de Israel, e também a dos cristãos realizava-se no Templo de Jerusalém e sobretudo nas famílias. Como se afirma no livro dos Atos dos Apóstolos, os primeiros cristãos de Jerusalém frequentavam o Templo e as casas dos irmãos. Como era normal para eles, as suas celebrações mais características, como a Eucaristia, eram realizadas, não no templo, mas no ambiente doméstico, nas casas. Foi numa casa que Jesus que, como se diz claramente na Carta aos Hebreus, não pertencia à classe sacerdotal da tribo de Levi, porque era da tribo de Judá, instituiu a Eucaristia. E era nas suas casas que os cristãos dos primeiros tempos louvavam o Senhor e celebravam o Seu culto novo.

Jesus não era sacerdote e nunca atribuiu a Si mesmo tal prerrogativa, mas transparece nos evangelhos que Ele entendeu e viveu a Sua morte como oferecimento sacerdotal de Si mesmo ao Pai, como Sacrifício Redentor para libertar toda a humanidade da escravidão do pecado e orientar para o Pai a vida dos que n’Ele acreditassem. Na Carta aos Hebreus, Jesus é clarissimamente apresentado como o único Sacerdote da Nova Aliança, que vive eternamente para interceder por todos nós, junto do Pai. No Concílio Segundo do Vaticano, os padres conciliares puseram em relevo e sublinharam que todos os batizados participam da missão sacerdotal de Cristo, tornam-se participantes e devem exercer o chamado sacerdócio comum dos fiéis. Como? A oração das Laudes e das Vésperas pode e deve ser feita nas famílias, a transmissão da fé aos filhos tem, deve ter, nas famílias, o seu lugar primordial. O cristianismo que apenas funciona nas igrejas é uma realidade amputada e muito marcada pela esterilidade, tal como um casamento que apenas funciona socialmente, nos espaços públicos, mas sem a intimidade da casa e a proximidade que o espaço doméstico proporciona.

Caríssimos irmãos: exercer o sacerdócio de Cristo, não apenas na igreja mas em casa, no trabalho, e em todos os sectores da vida, é parte integrante de uma vida cristã adulta e fecunda. Nestes tempos que são os nossos, é evidente que não é fácil. Mas a desagregação da vida cristã que estamos sofrendo, em vez de nos desanimar, deve ser entendida como um indicativo claro do caminho que devemos seguir.


4 – Hoje, caros irmãos e irmãs devemos centrar-nos no sacerdócio ministerial que o Senhor Jesus Cristo instituiu na Última Ceia quando disse aos apóstolos que tinha escolhido e preparado: “fazei isto em memória de Mim”. Na segunda leitura de hoje, São Paulo diz aos Coríntios que recebeu do Senhor aquilo que ele mesmo lhes transmitira. E cita as palavras da consagração do Pão e do Cálice, com a frase acima citada.

Vimos de uma época em que, para salvaguardar a Unidade da Igreja e a pureza da sua doutrina se sublinhou tanto a importância do ministério ordenado que o clericalismo se apoderou quase completamente da Igreja, a ponto de se escrever que a Igreja é a Sagrada Hierarquia. E os leigos, ou seja, os filhos da Igreja, reduzidos como estavam nas suas competências, limitavam-se, muitas vezes, a dizer: o Senhor Prior é que sabe!

Creio, caríssimos irmãos, que o facto de o Vaticano Segundo ter sublinhado o sacerdócio comum dos fiéis é uma ajuda para libertar o sacerdócio dos clérigos de muitos mal-entendidos. Mas ajuda-nos a valorizá-lo e a exercê-lo com maior correção, ou seja, não como um poder, mas como um serviço, segundo as palavras do próprio Senhor: “Eu estou no meio de vós como quem serve”. É claro que, para muitos diáconos, presbíteros e alguns bispos também, este entendimento do sacerdócio no qual procuramos destacar mais o serviço que o poder, não tem o atrativo mundano daquela promoção social que dantes o sacerdócio católico conferia…E muitos encontram agora essa promoção nos estudos, hoje muito mais acessíveis, e no exercício de uma profissão melhor remunerada. Faltam-nos candidatos que o sejam por serem vocacionados, chamados, que respondam ao chamamento de Deus e não se apresentem para ser padres apenas porque gostam de o ser. Em várias igrejas protestantes, por causa da falta de candidatos masculinos, foi conferido a mulheres o sacerdócio ministerial. O Papa São João Paulo II deixou muito claro que tal não pode acontecer na Igreja Católica. Porquê?

No tempo de Jesus, todas as religiões então existentes tinham sacerdotisas, com uma única exceção: a religião judaica. Os apóstolos que o Senhor Jesus chamou eram todos homens, eram masculinos porque, como presidentes das assembleias litúrgicas, deverão tornar presente o Senhor Jesus Cristo, o Esposo da Igreja. O Esposo é masculino, e as mulheres são femininas. E é bom que a complementaridade do masculino e do feminino aconteça sem confusões, a começar pela Igreja.


5 - Também o celibato que a Igreja latina manda cultivar aos homens que escolhe para serem presbíteros tem uma função pedagógica. Jesus, o Filho de Deus, fez-se homem para nos dar a vida eterna, na qual todos seremos apenas filhos e irmãos, como os celibatários. De facto, a plenitude da vida cristã está aí, em sermos filhos adotivos de Deus, e irmãos.

Mas, então, qual é o lugar do grande sacramento do Matrimónio que nos constitui maridos e esposas e nos leva a ser pais e mães? Sim, sem dúvida, mas maridos e esposas, e pais e mães de pessoas que reconhecemos como irmãos e irmãs, porque filhos do mesmo Pai do Céu. Este reconhecimento da dignidade do marido e da esposa, e também dos filhos, é característico do Matrimónio cristão. Mas a crise das vocações sacerdotais começa precisamente no facto de muitos casais se juntarem apenas porque gostam um do outro e a sua relação dura apenas enquanto durar esse encantamento. Mas amar é dar a vida. E para que tal aconteça, Deus, que é a fonte da vida, chama-nos, capacita-nos.


6 - Precisamos de rezar, de rezar muito e de pedir ao Senhor da Messe que lhe envie trabalhadores. Que chame homens e mulheres para o Matrimónio vivido com adultez, que chame rapazes e raparigas para se consagrarem a Ele na vida religiosa, que chame rapazes para participarem do ministério apostólico como presbíteros, e homens casados para exercerem o diaconado permanente. Nesse sentido, na primeira semana de Maio, vamos fazer na nossa diocese um Lausperene. Em todas as Igrejas da nossa diocese, durante essa semana, o Senhor estará solenemente exposto durante algumas horas. Aproveitai para estardes com Ele, para Lhe abrirdes o Vosso coração e lhe pedirdes as vocações necessárias para que se renove e ganhe vigor a vida cristã nas nossas famílias, paróquias e diocese.

Hoje é quinta-feira Santa. Vivamos a Páscoa, caríssimos irmãos. Unidos a Cristo Nosso Senhor, Sumo e Eterno Sacerdote, ofereçamo-nos com Ele ao Pai para que, no Seu Espírito, possamos amar-nos uns aos outros como Ele nos ama.

+ J. Marcos


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