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terça-feira, 5 de abril de 2022

Amanhã será tarde demais

Alterações Climáticas

 | 4 Abr 2022

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Reduzir as emissões é um ponto chave para conseguir reduzir o aumento da temperatura do planeta. Foto © Direitos Reservados

 

Se não agirmos já, amanhã será tarde demais para limitar o aquecimento global em 1,5ºC (em relação à temperatura média anterior à revolução industrial), lê-se no comunicado de Imprensa do comité III do Painel Intergovernamental sobre as Alterações Climáticas (IPCC na sigla em língua inglesa) divulgado nesta segunda-feira, 4 de abril.

“Sem uma redução imediata e radical das emissões [de gases com efeito de estufa] em todos os sectores tal objetivo será impossível de atingir”, afirma Jim Skea, co-presidente do comité III do IPCC. O painel é o organismo das Nações Unidas que tem por missão avaliar o estado do conhecimento científico, técnico e socioeconómico sobre as alterações climáticas, as suas causas, impacte e estratégias para a sua redução. O seu comité III é formado por cientistas e especialistas e procura desenhar propostas para a redução das alterações climáticas, avaliando métodos para reduzir as emissões de gases com efeito de estufa e para reduzir a presença de tais gases na atmosfera.

Os alertas do relatório divulgado a 4 de abril são dramaticamente claros: estamos em cima do ponto de não retorno para garantirmos que o aumento da temperatura global média do planeta fique dentro de valores que nos permitam pensar que as condições da vida serão no futuro (embora degradadas) semelhantes às que hoje conhecemos. Mas o relatório indica também, nas palavras do presidente do IPCC, Hoesung Lee, que a humanidade “detém os meios, o conhecimento e os instrumentos para limitar o aquecimento global” e “garantir um futuro viável” para a vida na Terra.

Durante toda a década de 2010 e 2019 a média anual das emissões mundiais de gases com efeito de estufa situou-se de forma constante ao nível mais alto de sempre e em crescendo de ano para ano. A única boa notícia neste campo é que o ritmo de crescimento tem desacelerado de modo continuo.

Contudo, para atingir o objetivo mais ambicioso do Acordo de Paris celebrado durante a COP21 no final de 2015 e que entrou em vigor um ano depois, será preciso “fazer as escolhas certas em termos de política, de infraestrutura e de tecnologias e sermos capazes de mudar o nosso estilo de vida e os nossos comportamentos” para conseguir “reduzir de 40 a 70 por cento as emissões de gases com efeito de estufa até 2050″ disse Priyadarshi Shukla, copresidente do comité III do IPCC.

 

Cenários para evitar a catástrofe
floresta co2 clima ambiente Foto Direitos Reservados

Há ainda soluções, mas cada vez menos gente interessada no que diz respeito a este mal. Foto © Direitos Reservados.

 

Nos cenários estudados pelos cientistas do IPCC as emissões globais de gases de efeito de estufa têm de atingir o seu valor máximo antes de 2025 e diminuir em 43 por cento até 2030, enquanto a emissão de metano terá de conhecer, daqui até 2030, uma redução de um terço. Estas medidas conjugadas poderão elevar a temperatura global do planeta em mais de 1,5º C antes do meio deste século, mas poderiam permitir que tal aumento viesse a ficar nos 1,5ºC no final do século XXI.

“As alterações climáticas são o culminar de mais de um século de práticas descontroladas, tanto em termos do uso de energia quanto do uso do solo, assim como nos nossos modos de vida, consumo e produção”, enfatizou Skea, que concluiu: “Este relatório mostra que, agindo hoje, garantiremos uma oportunidade para um mundo mais justo e mais sustentável.”

relatório do comité III fornece uma avaliação geral atualizada dos progressos feitos na mitigação das alterações climáticas, examina as fontes de emissões à escala global e explica as ações empreendidas com o objetivo de reduzir e mitigar as emissões, avaliando o impacto dos compromissos climáticos nacionais para cumprir as metas de longo prazo no que toca às ditas emissões.

O comité III introduz neste relatório vários elementos novos: inclui um novo capítulo sobre o impacte social da reduções de gases com efeitos de estufa e analisa, também pela primeira vez, o “lado da procura”, ou seja, estuda a relação entre o consumo e as emissões de gases de efeito estufa; e contém um novo capítulo sobre inovação, desenvolvimento e transferência de tecnologia que descreve como um sistema de inovação bem concretizado a nível nacional, guiado por políticas bem desenhadas, pode contribuir para a mitigação, adaptação e alcance dos objetivos de desenvolvimento sustentável, evitando consequências indesejadas.

Josianne Gauthier, secretária-geral da CIDSE (rede europeia de ONGD católicas para o desenvolvimento), afirmou, em comunicado de imprensa: “O poder corporativo está a dificultar a justiça climática. Isso significa que, para realmente enfrentar as mudanças climáticas, precisamos olhar para o nosso sistema económico. Como disse o Papa Francisco, não podemos viver numa economia baseada no crescimento insaciável e irresponsável. Estamos motivados a desafiar o sistema com base nas experiências diretas de pessoas na vanguarda das mudanças climáticas, que precisam de mitigação urgente.”




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