domingo, 25 de dezembro de 2016

A Fé

O que é a Fé? Segundo o dicionário a Fé é uma crença, uma convicção, algo em que acreditamos. E em que acreditamos? Bem, acreditamos naquilo que vemos, naquilo que nos foi contado por alguém em quem confiamos, no que lemos em livros ou noutras fontes de conhecimento universalmente consideradas como fidedignas. Por outras palavras cremos naquilo que conhecemos. E no que não conhecemos? O Universo? A origem das estrelas e dos planetas? O infinito?

Uma coisa é certa: as estrelas e os planetas existem; nós conseguimos vê-las e habitamos um; nós existimos mas e o resto do Universo infinito? Nós humanos concebemos e desenvolvemos a nossa cultura com base no que vimos e demonstramos à nossa escala terrestre e por esse motivo temos alguma dificuldade em imaginar algo que vá para além dessa dimensão. Aqui começa a explicação das religiões, do que vai para além da pequenez humana e que pode explicar a origem e a criação das coisas. Temos que crer que qualquer coisa existe para além de nós, algo que nós não conhecemos e não vemos mas que tem que existir para que nós próprios existamos.

É a Fé!

E a religião não é mais do que a fé transportada para o plano metafísico e é a necessidade do ser humano de ter fé que o faz acreditar num Deus seja ele qual for. A Fé é também exclusiva da espécie humana e resulta da existência de uma alma que não é mais do que a evidência da autonomia dos processos neurais humanos que lhes permite acreditar, criar e inventar coisas sem ser só pela mera reacção condicionada a fenómenos exteriores como acontece com os outros animais.

E todos temos a nossa própria Fé. Nós Católicos acreditamos em Deus e na mensagem de Cristo. Os muçulmanos acreditam em Alá e no seu Profeta Maomé, e isto só para citar as principais religiões.

A Fé é pois vital para a espécie humana, não vivemos em plenitude sem Fé.

Deus existe porque existe espécie humana e, talvez correndo um pouco o risco de ser catolicamente pouco correcto, só existe dentro de nós. A existência de Deus deriva da nossa própria existência e é uma necessidade absoluta para a nossa existência espiritual.

Mesmo aqueles que se dizem ateus ou agnósticos têm Fé em qualquer coisa e esta influencia o ser humano de tal forma que nós médicos sabemos bem o seu efeito sobre a doença e a cura. E até na forma como aceitar a morte. A estimulação de alguns centros cerebrais no mais íntimo da nossa estrutura leva  a que algumas glândulas produzam umas hormonas chamadas “endorfinas”, com uma composição muito semelhante à morfina e que para além de outros efeitos atenuam a dor e produzem bem estar. Algo que é um objectivo da fé: a acção da alma sobre o corpo.

Aqui há uns tempos uma colega minha cirurgiã e companheira destas andanças desde há muitos anos foi confrontada com o diagnóstico de cancro de um familiar próximo. Ficou desfeita. Aquela “coisa” com que ela luta, e na maioria das vezes vence, desde há muitos anos, tinha entrado de forma traiçoeira na sua casa.

Foi como “um murro no estômago”, disse-me ela. Na tentativa de a confortar disse-lhe: acalma-te, a nossa ciência ainda não fez nada e há muito a fazer, temos que ter Fé. É certo que todos têm os seus momentos de dúvida. Os padres têem-nos de certeza. Até Jesus duvidou.

Mas temos que acreditar no que fazemos, se não acreditamos quem acredita? E felizmente a ciência médica cada vez mais nos dá uma vida longa e com qualidade e nós temos nela uma Fé inabalável.






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