domingo, 25 de dezembro de 2016

A Doutrina Social da Igreja

Os partidos políticos que hoje são considerados de direita baseiam muito do que é a sua estrutura filosófica na Doutrina Social da Igreja. Francisco Sá Carneiro pensou a política e o que seria toda a fundamentação social da Ala Liberal da Assembleia Nacional tendo como referência o conceito que a Igreja tem do funcionamento e objectivos da sociedade dos Homens. Desta experiência nasceria logo após o 25 de Abril o Partido Popular Democrático que se haveria de tornar no actual Partido Social Democrata.

Também o CDS/PP procura na Doutrina Social da Igreja a sua inspiração para os princípios que irá aplicar na acção política. Veja-se o ênfase que Paulo Portas põe na defesa da agricultura (o regresso aos campos), na defesa dos reformados (o elo mais fraco da cadeia social), na preservação do ambiente. São sectores muito caros à chamada direita (área onde estes Partidos pelos vistos se posicionam) onde esta Doutrina da Igreja mais penetra.

Mas detenhamo-nos um pouco na análise sobre o que é a Doutrina Social da Igreja. Não é mais, em meu entender, do que passar para os tempos modernos e os desafios que sempre se vão colocando, aquilo que Jesus Cristo pregou e está escrito, e constitui deste modo um facto histórico.

Jesus Cristo foi o grande filósofo da nossa era: compreendeu a fundo o ser humano, as suas forças e fraquezas e teorizou como ninguém o tinha feito até aquela altura, e mais ninguém o fez até hoje, sobre as relações entre as pessoas. Mas fez mais: deu o exemplo daquilo que pregava e deixou-se crucificar para mostrar a toda a humanidade os valores em que acreditava. Acho que isto é a política no seu lado mais puro. Ensinou a não matar, a não roubar, a oferecer a outra face quando uma é esbofeteada, a procurar a bondade e a paz. Mas também disse que mais depressa um camelo passaria por um buraco de uma agulha do que um rico entraria no reino dos céus porque, penso eu, se apercebeu que a ânsia do dinheiro e do poder desvirtua a boa essência da natureza humana.

Regressemos então por um pouco à nossa política actual para constatar que os Partidos que na actualidade se baseiam na Doutrina Social da Igreja se encontram à direita e são de certa forma associados às pessoas ricas e poderosas. Acho que isto é uma táctica utilizada pelos partidos da chamada esquerda e que tem raízes no posicionamento da Igreja a partir da Idade Média (a sociedade dividida em Clero, Nobreza e Povo) e que se estendeu de certa forma até aos dias de hoje: a opulência das vestes dos sacerdotes e a decoração rica das Igrejas pouco tem a ver, convenhamos, com Jesus Cristo. Não esqueçamos que Jesus nasceu numa gruta tendo por companhia um burro e uma vaca, o seu berço não foi senão um fardo de palha e a sua vida foi uma vida de pobreza e de promoção daquilo que são os bons valores da natureza humana onde a riqueza não está incluída. Na minha opinião foi a excessiva aproximação da Igreja e do clero ao poder político e aos poderosos que desvirtuou a mensagem da Doutrina Social e a encostou à direita de forma, e ainda no meu ponto de vista, indevida. Se houve um Homem de esquerda no Mundo esse foi sem sombra de dúvidas Jesus Cristo.

Voltando à nossa política actual tenho a mais firme convicção que são os padrões da Doutrina Social da Igreja (que se concentra nos direitos e dignidade da pessoa como o bem essencial, na Família, na promoção da Paz e do Trabalho, no bem comum ou solidariedade, na preservação dos bens da Natureza e do Ambiente, na Justiça e na Caridade) aqueles que melhor interpretam a verdadeira essência da espécie humana e dos mistérios que o futuro encerra.

Acredito em Jesus Cristo e na sua mensagem humanista mas tal como Einstein também “acredito no Deus de Espinosa que se revela na harmonia ordenada daquilo que existe, não num Deus que se preocupa com as acções dos seres humanos”

Carlos Fiolhais, “Deus e os Gigantes da Ciência”,
Jornal O Sol de 21/4/2011





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