Com uma facturação de 1,25 mil milhões de euros, o país é o líder europeu em
exportação de armas. Entre os compradores, países em guerra e regimes
repressivos
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| Pixabay |
O papa Francisco tem tocado repetidamente nesta questão. Até na
homilia da Missa desta Quinta-Feira Santa, ele abordou o assunto no
centro de acolhimento de requerentes de asilo de Castelnuovo di Porto.
Falando sobre os ataques em Bruxelas, ele denunciou que por trás daquele
gesto, estão os fabricantes e traficantes de armas.
Em uma audiência geral de Junho de 2014, Francisco os definiu como
“mercadores da morte” e, em outra ocasião, como empresários cínicos que
contribuem para o PIB. Em uma homilia de Novembro passado na Casa Santa
Marta, ele afirmou que a guerra serve para encher alguns bolsos:
“Façamos armas, assim a economia se equilibra um pouco, e sigamos em
frente com os nossos interesses”.
O mais recente relatório do Observatório Permanente de Armas Leves
(Opal), de Brescia, na Itália, evidencia que as declarações do papa
estão longe de ser exageradas. O Opal registou um volume de negócios de
1,25 mil milhões de euros em 2015, com base nos dados dos institutos de
pesquisa Istat e Eurostat sobre exportações de armas de tipo militar
(destinadas às Forças Armadas) e de tipo “comum” (para defesa pessoal, desportos e destinadas às forças de segurança públicas e privadas).
A Itália é líder europeia no sector, apesar da ligeira queda em
relação ao ano precedente, quando a facturação das exportações de armas
tinha registado 1,3 mil milhões de euros, montante que só perde apenas para
o recorde batido em 2012.
E onde são vendidos esses instrumentos de morte? No Egipto, Arábia
Saudita, Turcomenistão, Emirados Árabes Unidos, Argélia. Mas também no
Reino Unido, Rússia, França, Estados Unidos. Particularmente florescente
é o mercado do Norte da África, em especial o Egipto.
A Opal denuncia que em 2014 partiram da Itália mais de 30 mil armas
com destino ao Cairo. Posteriormente, o governo do primeiro ministro
Matteo Renzi autorizou ainda o envio de 3.661 fuzis. Tais exportações
foram autorizadas apesar da vigência da decisão do Conselho da União
Europeia de suspender as licenças de exportação para o Cairo “de
qualquer tipo de material que possa ser usado para a repressão interna”.
A decisão europeia foi tomada logo que o general Abdel Fattah Al-Sisi
tomou o poder no Egipto, em Agosto de 2013.
Permanecem, portanto, várias questões no ar enquanto as empresas
continuam a embolsar pesado. As exportações italianas são lideradas pela
província de Brescia, que responde por um quarto das vendas nacionais,
mas o país foi surpreendido, em 2015, pela notícia de havia partido de
Cagliari um carregamento de bombas no valor de 19,5 milhões de euros
para as forças armadas da Arábia Saudita. De acordo com o Opal, as
bombas foram usadas pelos sauditas na guerra do Iémene, causando cerca
de 7.000 mortes.
O volume de negócios gerado pela venda de armas por parte da Itália é
o dobro do de outro grande exportador europeu, a Alemanha. Acontece que
tanto a Itália quanto a Alemanha são signatárias do Tratado sobre o
Comércio de Armas e, além disso, a Itália ainda conta com a lei 185/90,
que proíbe a venda de armas a países em conflito armado. Essas leis
parecem ficar só no papel.
Contactado por Zenit, Piergiulio Biatta, presidente do Opal, lembra
que “em Setembro passado encontramos o subsecretário do Ministério de
Relações Exteriores, Benedetto Della Vedova, para pedir que o governo
esclarecesse a violação da Lei 185”.
Até a data, porém, ainda reina o silêncio. “Mas diante desses dados, a
resposta é ainda mais urgente. Aumenta a necessidade de mais controle
parlamentar sobre as exportações de armamento militar e armas comuns”. É
necessária, portanto, uma intervenção de consciência por parte das
instituições para conter aqueles a quem o papa Francisco não hesita em
chamar de “mercadores da morte”.
in

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