terça-feira, 17 de julho de 2018

A Justiça nova


Palavra e Pão 61
XVI domingo do Tempo Comum


1 - Ai dos pastores que perdem e dispersam as ovelhas do meu rebanho (Jer 23,1)! Com estas palavras de fogo começa a leitura do profeta Jeremias do próximo domingo. E depois de afirmar que vai castigar esses maus pastores do Seu povo, o Senhor promete que Ele próprio reunirá o Seu rebanho e lhe dará pastores que apascentarão as Suas ovelhas, sem que nenhuma delas se perca. No Evangelho vemos, na pessoa de Jesus Cristo Pastor compadecido daquela multidão que O seguia, como Deus cumpriu esta promessa enviando ao mundo o Seu Filho Único. Eu e o Pai somos um (Jo 10,30), dirá o Senhor Jesus. N’Ele, Filho que apenas diz as palavras que ouve ao Pai e que não tem obras diferentes das obras d’Aquele que O enviou, é o próprio Pai que nos apascenta. Cristo, imagem visível do Bom Pastor, comunica-nos, pelo Seu Espírito, a Sua mesma maneira de se relacionar com Deus, com os outros e com a natureza, de modo que se torna verdadeira na vida dos seus discípulos esta frase do profeta Jeremias: o Senhor é a nossa justiça (Jer 23,6).

2 – Em que consiste essa justiça nova que Jesus, o Servo de Deus, trouxe às nações? Antes de mais, consiste na reconciliação de cada um de nós com Deus e numa vida nova de amor a Ele, tornada possível pela nossa união com Jesus Cristo. O facto de acreditarmos n’Ele justifica-nos, torna-nos justos perante o Pai e leva-nos a confiar n’Ele e a não duvidarmos do Seu amor (Cf. Rm 5,1). Aprendemos a conhecer a Sua vontade e a obedecer-Lhe, caminhando na Sua presença. Consiste depois naquele relacionamento pacífico com os irmãos, descrito no trecho da Epístola aos Efésios que escutaremos na segunda leitura do próximo domingo: Cristo é a nossa paz, pois fez de judeus e gregos um só povo, anulando, pela imolação do Seu corpo, as prescrições e decretos da lei de Moisés. Em Si próprio, Cristo fez um só homem novo, estabelecendo a paz (Ef 2,14-15). No mistério da Cruz, Jesus reconciliou-nos uns com os outros. E porque entendemos a nossa vida neste mundo como caminhada para a casa do Pai que sempre nos perdoou, também o nosso relacionamento com os irmãos se pauta pelo perdão das ofensas, não até sete vezes, mas até setenta vezes sete, quer dizer sempre (Cf. Mt 18,22). Aliás, sabemos que, no Juízo, Deus usará connosco a mesma medida que usarmos para com os nossos irmãos (Cf. Mt 6, 14-15.7,2). E como Cristo nosso Senhor nos ensina a ver nos outros a Sua presença, pomo-nos ao seu serviço lavando-lhes os pés com amor e praticando as Obras de Misericórdia, ocupando o último lugar.

3 - A justiça da vida cristã, quer dizer, o relacionamento justo dos cristãos com Deus, com os outros e com a natureza e as coisas, está delineada nas Bem-aventuranças e no Sermão da Montanha, no Evangelho e em toda a Bíblia, sobretudo no Novo Testamento, e mesmo em toda a Criação. Este relacionamento novo, paradoxal para quem vive segundo os critérios deste mundo, é imitação do agir de Deus que faz nascer o sol sobre maus e bons e chover sobre justos e injustos (Mt 5,45) e concretiza-se no amor aos inimigos. Manifesta-se aqui na terra por meio daqueles que, acreditando em Cristo, foram libertos de uma vida vivida a partir de si mesmos e para si mesmos para darem o testemunho da caridade que transforma o mundo. Libertados do pecado e abertos à vida divina, os filhos de Deus podem libertar a criação, que o pecado do homem sujeitou a um existir vão, da servidão da corrupção para a liberdade da glória dos filhos de Deus (Rm 8,21).

Esta é a justiça própria dos filhos de Deus! Quem a recebe, vive a Caridade com que Cristo nos amou e que nos mandou praticar. Ele, sendo Deus, esvaziou-Se a Si Mesmo e fez-Se homem. Por amor de nós, tomou livremente a condição de escravo obediente até à morte. Aqui, já não é a balança, mas a Sua Cruz que significa a verdadeira justiça. Os pratos equilibrados da balança apontam para um ideal de justiça, um ideal lindo, mas insuficiente, porque a justiça humana não reconcilia pessoas desavindas. Mas o mistério da Cruz, manifestando e oferecendo-nos o amor transbordante de Cristo e a Sua sabedoria, tem realmente o poder de reconciliar como irmãos e amigos aqueles que dantes se odiavam. Se alguém está em Cristo, é uma nova criatura. Passou o que era velho, e eis que tudo se fez novo (2Cor5,17). O centro dessa nova criação é este homem novo criado em Cristo para levar uma vida de justiça e de santidade. E assim por meio de Jesus Cristo, crucificado por nosso amor e ressuscitado para nossa justificação, podemos todos aproximar-nos do Pai, num só Espírito (Ef 2,18).

4 – Para nos aproximarmos do Pai serve, de facto, esta justiça nova. A fé em Nosso Senhor Jesus Cristo ilumina-nos e situa-nos. Diz-nos de onde vimos, e diz-nos também quem somos e para onde vamos. Criados por Deus e para Ele, d’Ele vimos e para Ele caminhamos. Ele nos conceda que, em Igreja, vivamos pelo Seu Espírito e recebamos a Sua graça que nos santifica. Escutemos e sejamos dóceis aos ensinamentos dos pastores da Igreja. É por meio deles que Jesus nos ajuda a caminhar bem e justamente nesta vida, relacionando-nos com Ele, e por Ele com o Pai, no Seu mesmo Espírito, com as pessoas e com toda a criação.

O Senhor é a nossa justiça, o Senhor é a justiça de quem vive reconciliado com Ele e com o próximo! Deixemo-nos apascentar pelo Senhor! Reconheçamo-lo como nosso Pastor não apenas uma vez por outra, mas sempre, em cada dia, e experimentaremos que nada nos falta. Ele nos apascentará nos verdes prados dos montes de Israel que são as páginas da Sagrada Escritura, e nos preparará a mesa diante dos nossos inimigos, para nos alimentar com o pão vivo descido do céu. Ele nos amparará com o bordão da Sua Cruz nos vales tenebrosos por onde teremos de passar, e nos guiará, pela Sua bondade e graça, às delícias eternas da casa do Pai (Cf. Sl 22).

+ J. Marcos



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