quarta-feira, 12 de abril de 2017

A Procissão da Burrinha ou das Sete Dores de Nossa Senhora


Recebi um convite dos meus sobrinhos que aceitei como maior gosto: ir passar um fim-de-semana na Vila de Mafra, que coincidia com o Domingo de Ramos. Tinha conhecimento prévio de que na Real Basílica de Nossa Senhora e de Santo António, antiga capela real do Palácio Nacional de Mafra, neste dia, haveria Missa a que seguiria a Procissão da Burrinha, que tradicionalmente se realiza no domingo anterior à sexta-feira da Paixão, em que pelo antigo calendário litúrgico se celebrava a Festa das Sete Dores de Nossa Senhora. A designação popular e tradicional da procissão como Procissão da Burrinha, penso que é devida à existência de uma burrinha no lindíssimo andor que retrata a fuga para o Egipto. Contudo o nome correto é: “Procissão das Sete Dores de Nossa Senhora”. O cortejo é composto por sete andores alusivos às sete dores da Mãe de Jesus, ou seja: “Profecia de Simeão”; “Fuga para o Egipto”; “Encontro com o Menino Jesus no Templo”; “Encontro a Caminho do Calvário”; “Morte de Jesus na Cruz”; “Descida de Jesus”; “Jesus no Sepulcro”; segue-se ainda um oitavo andor que transporta a Imagem de Nossa Senhora das Dores, que habitualmente é exposta no altar da Sagrada Família quando é celebrado o Setenário de Nossa Senhora das Dores, em Setembro. É de rara beleza esta procissão que tive a honra e a alegria de acompanhar. Teve lugar pela primeira vez em 1793, no período áureo da história da Vila de Mafra.

As belíssimas imagens da procissão integram um grupo de 50 imagens cuja autoria Ayres de Carvalho atribuiu a Joaquim José de Barros Laborão, um dos últimos mestres da Escola de Escultura de Mafra, sendo um dos maiores conjuntos de santos de roca existentes em Portugal. Constitui uma rara oportunidade ser-nos concedida ocasião de contemplar estas imagens vestidas, em andores ornamentados com flores, que provêm desde o tempo da monarquia, atravessando toda uma série de gerações de portugueses, a quem também lhes foi concedida esta oportunidade cultural, histórica e devocional ímpar. Já agora, para contextualizar um pouco, a organização da procissão é da responsabilidade da Real e Venerável Irmandade do Santíssimo Sacramento de Mafra, instituída no segundo quartel do século XVI, sendo que a primeira referência documental existente, data de 14 de Março de 1597. Em 1725, o primeiro Cardeal Patriarca de Lisboa, D. Tomás de Almeida, confirmou os novos estatutos que os irmãos redigiram. 

Após a extinção das ordens religiosas, a convite da Rainha D. Maria II, a sede da Paróquia passou para a Basílica do Real Convento de Nossa Senhora e de Santo António, onde a Irmandade foi então instalada. No ano de 1866 a Irmandade recebeu do Governo Civil o espólio da extinta Real e Venerável Ordem Terceira da Penitência. Posteriormente viria a receber o espólio da extinta Irmandade do Senhor dos Passos. Em 1953, após o restauro das imagens da Procissão das Sete Dores de Nossa Senhora, foi-lhe também entregue o seu espólio bem como a responsabilidade pela organização anual desta procissão. Hoje em dia, esta Irmandade é possuidora de um relevante património artístico e histórico, destacando-se o conjunto de santos de roca, um dos maiores existentes em Portugal, muitas delas mandadas vestir à custa de D. João V. Conserva igualmente no seu espólio a camisa de sagração do Rei Luís XV de França, único traje de sagração régia francesa anterior à Revolução Francesa, assim como um importante conjunto de prataria sacra. 

Tive a oportunidade de verificar o enorme esforço desenvolvido por esta Irmandade, para que todos os pormenores corressem pelo melhor. O tempo também ajudou com um lindo dia de sol. Caso contrário não seria possível a sua realização como já aconteceu em anos anteriores. Constatei com admiração o enorme esforço desenvolvido pela Irmandade para carregarem os pesados andores com a dignidade requerida, e a coordenação da mesma. A Real Irmandade do Santíssimo Sacramento de Mafra tem igualmente a seu cargo mais três procissões, assim como a gestão de muitas das solenidades religiosas que têm lugar na Basílica de Mafra. Graças a Deus tudo correu pelo melhor. As crianças vestidas de anjos cumpriram a sua missão com muita graça, ternura e empenho. A Banda da Escola de Música Juventude de Mafra ajudou a tornar ainda mais brilhante a procissão que foi presidida pelo Bispo Auxiliar de Lisboa D. Joaquim Mendes. As autoridades locais também participaram na Procissão da Burrinha, como carinhosamente a população da Vila de Mafra a denomina, a qual manifesta também grande devoção a Nossa Senhora das Dores. Na realidade, vieram-me as lágrimas aos olhos perante o conjunto que me era dado observar enquanto mera espetadora. Que enormes riquezas patrimoniais nós temos e que servem, ao mesmo tempo, para avivar a fé em todos nós! 

Enquanto aguardava a saída dos andores dentro da Basílica, recordei S. Josemaria que tantas vezes se referia à figura do burrinho: “Menino, pobre burrinho: se, com Amor, Nosso Senhor limpou as tuas negras costas, habituadas ao esterco e te aparelhou com arreios de cetim e sobre ele põe joias deslumbrantes, pobre burrico! Não te esqueças que ”podes” por culpa tua, deitar a magnífica carga ao chão…, mas tu sozinho “não podes” voltar a carregá-la”.

O Papa Bento XVI afirmou por várias vezes: “a fé não é uma teoria, uma filosofia, uma ideia: é um encontro com Jesus”. Ele está sempre à nossa espera e até “se fez encontrar pelos que não O procuraram”.

Que todo o esforço desenvolvido com a realização da Procissão da Burrinha ou das Sete Dores de Nossa Senhora nos possa ter ajudado a mergulhar no mistério pascal que renova a vida para ressuscitarmos com Cristo.
Maria Helena Paes



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