Paulo Rocha, Agência ECCLESIA
O Papa Francisco revela na exortação apostólica pós-sinodal “Amoris
Laetitia” uma declarada alegria do seu amor pela família e a
determinação em fazer da Igreja, com as suas normas, sacramentos,
comunidades, grupos, líderes e instâncias de diálogo ou de decisão o
ambiente propício para a experiência familiar, configurada num ideal
afirmado neste documento em termos semelhantes aos dos últimos 50 anos,
sem dar como adquirido, no entanto, o percurso que é necessário fazer
para o atingir.
Feita esta consideração, tudo o mais deve seguir uma das primeiras
indicações do Papa Francisco, logo no início do documento, que não
aconselha uma “leitura geral apressada” do longo texto, porque considera
“ser de maior proveito, tanto para as famílias como para os agentes de
pastoral familiar, aprofundar pacientemente uma parte de cada vez ou
procurar nela aquilo de que precisam em cada circunstância concreta”. Na
actual, nos momentos seguintes à divulgação do texto, uma anotação
metodológica e uma referência à questão que concentrou debates nas
assembleias sinodais e nos meses que se seguiram.
Seguindo de perto as várias sugestões que resultaram de duas
assembleias sinodais, assim como indicações de várias conferências
episcopais, o Papa Francisco não se fixa na norma geral e na sua
aplicação indiferenciada nem muda tudo a partir de um novo corpo
normativo, ditado como todos a partir de um centro, sem atender a todas
as periferias. Neste caso, a pastoral familiar na Igreja Católica tem no
documento “A Alegria do Amor” uma referência que, por um lado, foge ao
“desejo desenfreado de mudar tudo sem suficiente reflexão ou
fundamentação” e, por outro, “não pretende resolver tudo através da
aplicação de normas gerais ou deduzindo conclusões excessivas de algumas
reflexões teológicas”. A partir da relevante auscultação que precedeu
cada reunião dos bispos de todo o mundo reunidos em Sínodo, dos debates
que aí decorreram e da síntese feita pelo Papa na exortação pós-sinodal,
resulta uma porta aberta a “uma pastoral positiva” a respeito da
família, que “torna possível um aprofundamento gradual das exigências do
Evangelho”.
Particularmente significativa é esta atitude a respeito de designadas
“situações irregulares”. Seguindo essa metodologia, o Papa não equipara
uniões de facto ou entre pessoas do mesmo sexo ao matrimónio; nem diz
que o primeiro é igual ao segundo casamento e afirma o ideal da “união
entre um homem e uma mulher, que se doam reciprocamente com um amor
exclusivo e livre fidelidade, se pertencem até à morte e abrem à
transmissão da vida, consagrados pelo sacramento que lhes confere a
graça para se constituírem como igreja doméstica e serem fermento de
vida nova para a sociedade”.
Assumindo que algumas formas de união “contradizem radicalmente este
ideal” e outras “o realizam pelo menos de forma parcial e analógica”, o
documento afirma, como as conclusões do Sínodo, que “não é possível
dizer que todos os que estão numa situação chamada ‘irregular’ vivem em
estado de pecado mortal, privados da graça santificante”, declarando
também que “um pastor não pode sentir-se satisfeito apenas aplicando
leis morais àqueles que vivem em situações ‘irregulares’, como se fossem
pedras que se atiram contra a vida das pessoas.
Assim, o Papa propõe três acções - acompanhar, discernir e integrar a
fragilidade - admitindo que a História da Igreja foi-se construindo umas
vezes a partir da lógica da marginalização e outras da integração,
optando claramente pela segunda, mesmo que seja um grande desafio e com
contornos pouco definidos.
A Alegria do Amor do Papa Francisco pela família não se alarga a um
relativismo generalizado nem esquece o realismo familiar da actualidade.
É, aliás, a partir de famílias reais que o Papa sugere o amor como
caminho de alegria para famílias reais.
Paulo Rocha
in
Sem comentários:
Enviar um comentário