Nova exortação pastoral rejeita soluções únicas, sem abordar
directamente a possibilidade de acesso à Comunhão ou alterar doutrina
Cidade do Vaticano, 08 abr 2016 (Ecclesia) – O Papa propõe na sua nova
exortação apostólica sobre a família um caminho de “discernimento” para
os católicos divorciados que voltaram a casar civilmente, sublinhando
que não existe uma solução única para estas situações.
“Não se devia esperar do Sínodo ou desta exortação uma nova normativa
geral de tipo canónico, aplicável a todos os casos”, sublinha Francisco,
no documento divulgado hoje, com o título ‘Amoris laetitia’ (A Alegria
do Amor).
Tal como aconteceu com o relatório final da assembleia de Outubro de
2015, a exortação apostólica pós-sinodal não aborda directamente a
possibilidade de acesso à Comunhão pelos divorciados recasados, que é
negada pela Igreja Católica, mas numa das notas do texto, o Papa observa
que "o discernimento pode reconhecer que, numa situação particular, não
há culpa grave".
“Ninguém pode ser condenado para sempre, porque esta não é a lógica do Evangelho”, escreve Francisco.
O Papa apresenta critérios de reflexão, recordando que há
“condicionamentos” e “circunstâncias atenuantes” que podem anular ou
diminuir a responsabilidade de uma acção.
“Por isso, já não é possível dizer que todos os que estão numa situação
chamada ‘irregular’ vivem em estado de pecado mortal”, precisa.
Estas pessoas, reforça, precisam da "ajuda da Igreja", procurando os
"caminhos possíveis de resposta a Deus", e "em certos casos, poderia
haver também a ajuda dos sacramentos".
O texto apela a um “responsável discernimento pessoal e pastoral dos
casos particulares”, reconhecendo que há situações em que “a separação é
inevitável” e, por vezes, “até moralmente necessária”.
“Acompanhar”, “discernir” e “integrar” são as indicações centrais do
Papa nesta matéria, integradas numa “lógica da misericórdia pastoral”.
“Temos de evitar juízos que não tenham em conta a complexidade das
diversas situações e é necessário estar atentos ao modo em que as
pessoas vivem e sofrem por causa da sua condição”, assinala Francisco.
A exortação apostólica com as conclusões do Sínodo da Família, que
decorreu em duas sessões (2014 e 2015), fala na necessidade de um
“adequado discernimento pessoal e pastoral”, recordando que “o grau de
responsabilidade não é igual em todos os casos”.
“Um pastor não pode sentir-se satisfeito apenas aplicando leis morais
àqueles que vivem em situações ‘irregulares’, como se fossem pedras que
se atiram contra a vida das pessoas”, adverte o Papa.
Francisco considera mesmo que seria “mesquinho” limitar-se a considerar
“se o agir de uma pessoa corresponde ou não a uma lei ou norma geral”.
O Papa rejeita a ideia de que este “discernimento prático” coloque em
causa a doutrina da Igreja e recorda que a reflexão sobre uma situação
particular “não pode ser elevada à categoria de norma”.
O texto refere que é missão dos padres “acompanhar as pessoas no
caminho do discernimento segundo o ensinamento da Igreja e as
orientações do bispo”, apelando a um “exame de consciência” das pessoas
em causa sobre a forma como trataram os seus filhos ou como viveram a
“crise conjugal”.
Francisco sublinha ainda a importância da recente reforma dos
procedimentos para o reconhecimento dos casos de nulidade matrimonial.
O pontífice observa que os divorciados que vivem numa nova união se
podem encontrar em situações “muito diferentes”, que não devem ser
“catalogadas ou encerradas em afirmações demasiado rígidas”.
“Não devem sentir-se excomungados, mas podem viver e amadurecer como membros vivos da Igreja”, realça.
Para o Papa, mais importante do que uma “pastoral dos falhanços” é o
esforço de “consolidar os matrimónios e assim evitar as rupturas”.
A exortação pós-sinodal coloca os filhos como “primeira preocupação” para quem se separou, com atenção ao seu sofrimento.
“O divórcio é um mal, e é muito preocupante o aumento do número de divórcios”, lamenta o Papa.
Os temas da família estiveram no centro de duas assembleias do Sínodo
dos Bispos, em Outubro de 2014 e 2015, por decisão do Papa Francisco,
antecedidas por inquéritos enviados às dioceses católicas de todo o
mundo.
OC
in
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