quarta-feira, 12 de julho de 2017

La Lyz 1917-1918


Mito e realidade ou a verdade?

Alguns considerandos introdutórios que nos podem ajudar a compreender como o mal não tem a última palavra e a verdade vem sempre ao cimo:

I - «- Que é que queres deste homem? (…).
- A verdade – disse o general.
- Conheces bem a verdade.
- Não conheço – explicou em voz alta, (…) - É mesmo a verdade que não conheço.
- Mas conheces a realidade – (…).
- A realidade não é a verdade – retorquiu o general. – A realidade é apenas um pormenor. (…) Agora vou apurá-la – disse calmamente. (…)
 A guerra devasta o mundo. (…)

Os seres vivos organizam-se para prestar ajuda mútua…às vezes, têm dificuldades em ultrapassar os obstáculos que enfrentam nas suas intervenções de auxílio, mas sempre há criaturas fortes, prontas a ajudar, em todas as comunidades vivas. Encontrei centenas de exemplos disso no mundo animal. Entre pessoas, vi menos exemplos. Para ser mais exacto, não vi nenhum. As simpatias que vi nascer entre pessoas diante dos meus olhos, acabaram sempre por se afogar nos pântanos do egoísmo e da vaidade. (…)

Uma pessoa não peca com aquilo que faz, mas com a intenção, com a qual comete isto ou aquilo. A intenção é tudo. (…)

Porque os corações humanos também têm as suas noites, cheios de emoções tão selvagens, como os impulsos da caça que assaltam o coração do veado e do lobo. O sonho, o desejo, a vaidade, o egoísmo, a ira lasciva do macho, a inveja, a vingança, essas paixões ocultam-se de tal modo na alma humana, como uma puma, o abutre e o chacal no deserto da noite no Oriente. Existem momentos em que já não é noite e ainda não é dia no coração humano… » (1)

II - «É bem evidente como a mensagem de Fátima se refere à nova era dos tempos modernos com particular incidência na época dos dois grandes conflitos que marcaram a história do século XX, com todo o contexto em que se inserem e com tudo aquilo de que são expressão.

A Primeira e a Segunda Guerra Mundiais constituem como que um prisma do mal neste século, onde de vários ângulos se refletem e se podem observar as principais facetas do mal e os seus efeitos perversos: (…)

- o recurso à mentira sistemática para fabricar uma verdade e (re)escrever a história; (…)

- a aniquilação e a morte do ser humano e o desprezo total da dignidade da pessoa, na expressividade numérica de dezenas de milhões de vitimas…; (…)

- o fenómeno coletivo de ódio e de violência que se apoderou de pessoas e povos.

Numa leitura teológica dos sinais dos tempos, a guerra mundial e a guerra total representam (isto é, tornam presente) um concentrado do mal, um símbolo real da mundialização do pecado experimentado pela primeira vez na sua monstruosidade, no seu horror e terror a nível planetário. (…)

Só quem tem a o sentido forte da dignidade do homem perante Deus, do seu destino eterno, pode compreender quão grande é a tragédia do pecado e como a perda do sentido do pecado é, no mais profundo, a perda do sentido de tudo aquilo que é verdadeiramente humano. `Com a eliminação de Deus das consciências, é o próprio homem que entra em perigo. No final do século está em jogo não só a existência de Deus mas também a dignidade do homem´. (…)

O apelo da mensagem à reparação é um convite aos homens a não se resignarem à banalização do mal, a sentirem-se solidários não só no mal mas também através da graça reparadora Assim, na balança do mundo não devemos deixar o grande peso ao negativo, mas dar um peso pelo menos equivalente ao positivo, ao bem». (2)

III - «Depois de ter matado nove milhões de combatentes, para não falar das mortes de civis, a primeira Guerra Mundial liquidou os três Impérios e as aristocracias que eram traves mestras da Europa. Às populações sujeitas a essa tábua rasa, sublevadas pela cólera ou pela esperança, novos profetas vieram prometer a construção de uma sociedade mais justa que verdadeiramente lhes pertenceria. (…) Ao longo das décadas seguintes, quatro ideologias rivais, o democratismo liberal, o comunismo, o fascismo e o nacional-socialismo, iam mobilizar as massas. Todas elas eram portadoras da mesma certeza de refundir a sociedade a partir de conceitos novos que se pretendiam provados pela razão e pela história. A sua luta sem quartel ocupou uma grande parte daquele século. (3)

100 Anos depois de LA LYZ, a reposição da Verdade 

«A Grande Guerra e a beligerância forçada e impopular que a marcou continuam hoje envoltas em nevoeiro. Passaram cem anos, mas por vezes parece que foi um tempo que passou sem anos, tais são as semelhanças com o passado.

Porque existe este nevoeiro, esta censura negra que tudo tolda, este medo de olhar para o passado com os olhos da lógica? O nevoeiro só existe porque muitos o querem manter. (…)

A Grã-Bretanha tudo fez para evitar a participação portuguesa, pelo simples motivo que nada de útil lhe poderia trazer.

Londres várias vezes disse a Lisboa, de forma muito clara, que não queria a beligerância nacional, que se Portugal entrasse na guerra o faria por sua conta e risco. Depois da decisão consumada, Londres acrescentou mais: não queria tropas portuguesas em França ou em qualquer outro teatro europeu; Portugal devia limitar-se a defender o seu território, nada mais lhe sendo exigido. Para os guerristas não era suficiente. Pensavam que só a participação na luta em França lhes permitiria obter os trunfos políticos que desejavam». (4)

E assim foi, partiram para a guerra…

«Toda a preparação do envio do CEP (Corpo Expedicionário Português) decorre com um moral péssimo e uma desorganização tremenda, que Norton de Matos procura contrariar com extrema centralização. (…)

Acresce a isto que os militares britânicos em França ficaram aterrorizados com a chegada dessa força que sabiam não ser um Exército, mas sim uma `multidão indisciplinada´, minada de clubes políticos, com divisões e clivagens a todos os níveis, sem empenhamento e sem qualquer entusiasmo por aquela beligerância, tal como acontecia com o conjunto do povo português. (…) 

Os britânicos não tardaram a confirmar os dotes de Gomes da Costa como líder militar, o único general do CEP que tem alguma estima e prestígio entre os soldados. (…)

David Magno era igualmente um destes `líderes militares´ naturais, muito cedo identificado pelos britânicos enquanto tal. Era um dos oficiais que mantinha um prestígio natural junto dos seus homens, que se preocupava com eles, que procurava aprender com os britânicos, que lutava para que a sua unidade tivesse as melhores condições, que liderava da frente e pelo exemplo, sem se preocupar com as intrigas e os comentários provocados por esta atitude anormal. (…)

É difícil explicar o que aconteceu a David Magno. (…) Quando a `má política‘ está no comando das operações, quando o clima vigente é marcado pela confusão, desmoralização, divisão…tudo pode acontecer. Até pode acontecer que um dos heróis do 9 de Abril, acabe por ser um dos poucos oficialmente acusado de …cobardia». (4)

A Dr.ª. Filipa Magno usando da palavra para agradecer, em nome da família; a publicação da obra.
Uma longa odisseia começou então e manteve-se por décadas. As páginas da História foram escritas ao sabor dos interesses, um tanto vergonhoso para a dignidade do homem e para a honra militar. O mito e a invenção sobrepuseram-se à realidade, num rasgo de má-fé, para intencionalmente corromper o bom nome e as meritórias acções. Sinais dos tempos…

“As mentiras sempre foram consideradas instrumentos necessários e legítimos, não somente do ofício do político ou do demagogo, mas também do estadista.” ― Hannah Arendt

Se aos militares a ordem é de obedecer e aos políticos o dever é de não errar, aos historiadores impõe-se a nobre missão de buscar e repor a Verdade, essa que a realidade nem sempre desvenda porque sobre ela paira o manto pesado da difamação, essa que é camuflada pela ausência de bons princípios, com estratégias eticamente pouco recomendáveis, senão, mesmo condenáveis. 


A esta epopeia se lançou Miguel Nunes Ramalho que com tenacidade, empenho, singeleza e mestria conduziu a bom porto aquelas páginas da História que tanto tinham ensombrado a boa reputação dos que foram alvo da mentira e da calúnia. 


Um bom combate contra a banalização do mal, uma bem conseguida reposição da verdade e reparação da dignidade humana. Em ano de centenário das Aparições em Fátima a paz e a luz desceram aos corações dos homens para recordar que a vida é transitória, estamos de passagem e a última batalha tem de ser conquistada rumo à Eternidade, local onde se encontram os que nos precederam e dos quais jamais nos esqueceremos, porque muito os amámos e os admirámos. A verdade nos Libertará. (João 8:32)

O jovem Francisco Cabrita, aluno da Academia de Amadores de Música e excelente executante da peça "Tristesse" de Chopin.
LA LYZ 1917-1918 – CAPITÃES BENTO ROMA E DAVID MAGNO – MITO E REALIDADE, um livro que tem a chancela da FRONTEIRA DO CAOS EDITORES, recentemente lançado no Palácio da Independência, em Lisboa.

(1) In - As velas ardem até ao fim, de Sándor Márai
(2) In - Mensagem de Esperança para o mundo, coordenação de Vítor Coutinho
(3) In O Século de 1914, de Dominique Venner
(4) In La Lyz 1917-1918, de Miguel Nunes Ramalho

Maria Susana Mexia



1 comentário:

  1. Obrigado querida amiga Susana Mexia. Uma excelente interpretação do conteúdo e do objectivo do livro. Um grande abraço.
    Miguel Ramalho

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