segunda-feira, 31 de julho de 2017

Os meios digitais: riscos e oportunidades

Sabemos que os meios digitais não são bons nem são maus em si, se trazem vantagens ou desvantagens, mas a questão não estará tanto nos meios, mas sim na forma como são usados. Não será tão importante saber o que eles fazem de nós, mas sim saber como nos servimos deles. Quantas horas os usamos, o que fazemos, com que finalidade, como se usam, que conteúdos consumimos, em que contexto e com quem? E qual o impacto dos media nas vidas das crianças e as consequências para o seu desenvolvimento psíquico, emotivo, neurológico, afectivo e cognitivo? Uma coisa é certa: as crianças passam hoje muito tempo a olhar para os ecrãs, não apenas da televisão, mas também do telemóvel, do computador, do tablet.

Será que conseguimos perceber o tipo de pessoas com quem elas podem contactar, os mundos que podem visitar, os sítios que podem explorar, a navegação que podem fazer, tantas vezes sem filtro e sem rumo, tantas vezes sem terem presente o que está por detrás dos ecrãs, sem conhecerem os riscos e os perigos que podem estar à espreita e, seguramente, serão muitos e nada pacíficos?

Os meios digitais hoje fazem parte da nossa sociedade, do nosso quotidiano e dificilmente conseguimos imaginar a nossa vida sem eles, pelo que mais do que negá-los ou proibi-los, o mais importante é aprender a usá-los e a gerir a sua utilidade.

Terá de ser na família que este trabalho pode ser feito. Em muitos casos, é necessário começar pelas práticas dos próprios pais, por vezes mais dependentes das tecnologias do que os filhos. Os pais funcionam como modelo e como exemplo para as crianças. Quando são pequenas, elas tendem a repetir e a reproduzir o que veem os seus pais fazerem e, no que diz respeito às práticas mediáticas, é também isso que os estudos têm mostrado. Como podem, por exemplo, os pais querer que os filhos não usem o telemóvel às refeições, quando são eles os primeiros a usá-los, num momento que deveria ser de encontro da família, de conversa, de contar o que se passou na escola, com os amigos, no trabalho, com os colegas?

A propósito da falta de diálogo no seio da família, não podemos continuar a culpar os media pelo que acontece, é altura de olharmos para o interior da nossa própria família, para as pessoas que ali habitam e decidir então o que queremos – se são os media que controlam as nossas vidas, as nossas relações com os outros, se dominam o tempo de desfrutarmos da presença uns dos outros, de brincar com as crianças, ou se somos nós que controlamos os media e exercemos o poder de decidir quando devemos estar conectados e quando temos de estar offline?

A tecnologia encanta de tal maneira, que as pessoas, em vez de estarem concentrados na festa, no passeio, ou na brincadeira, estão mais preocupados em registar o momento com os seus dispositivos. Parece interessar mais a representação da fuga do tempo, do que fruir o momento em si. É a euforia do registo do volátil que não chegou a ser vivido, mas acaba por ir parar a alguma rede social, exibindo assim o espaço privado e íntimo da família num espaço que é público…

“Alone Together”  “Sozinhos Juntos”- é uma imagem que se vai tornando vulgar em qualquer local em que estejamos. Juntos mas cada um afastado dos outros, obcecado pelo seu ecrã para o qual não consegue deixar de olhar e mexer.

Se as famílias têm hoje novas formas de estar, de se relacionar e podem partilhar, entre si e com os outros, muito mais facilmente, mensagens, notícias, vídeos, fotografias e jogos, também é um facto que com a presença destes meios, está-se em e com a família, mas também em muito outros lados ao mesmo tempo, há dispersão, há alheamento e a atenção está muitas vezes mais centrada nos ecrãs do que nas pessoas.

Parece evidente que os meios digitais têm hoje uma presença forte nos quotidianos das crianças, desde muito pequenas, assumindo um importante papel no seu processo de socialização. Têm também um forte impacto no seu desenvolvimento, na construção da sua identidade e do seu sistema de valores, na perceção dos outros e do mundo, embora esse impacto dependa de um conjunto de fatores, como sejam, a idade e as características psicossociais das crianças e o seu contexto sociocultural, como referido anteriormente. Mas este impacto pode ser trabalhado, podendo os pais, educadores e professores, e outros agentes educativos, contribuir para que seja positivo, fomentando uma relação saudável com os media.

A este trabalho chamamos “Educação ou Literacia para os Media”, com o qual se pretende capacitar os públicos dos media, neste caso as crianças, para saber lidar de forma crítica com eles. Aprender a ler, a analisar as várias mensagens e conteúdos que consomem, bem como aprender a criar e a produzir conteúdos, aprender a estar, a comunicar e a participar online, são hoje competências essenciais que as crianças devem desenvolver enquanto cidadãos do século XXI.

Excelentes para aproximar e unir quem está longe e separado e não para dividir, separar e desunir quem está junto é a conclusão que podemos tirar das novas tecnologias.

Use-as moderadamente e tenha umas felizes férias na companhia real e presente dos seus eleitos.

Maria Susana Mexia



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