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domingo, 30 de junho de 2019

Ó Fátima Adeus, Virgem Mãe Adeus


Acordei ainda emocionada ao recordar a sublime cerimónia celebrada em Fátima no passado dia 13 de Maio. Tinha ainda muito presente a Procissão do Adeus. Com milhares de pessoas a acenar, despedindo-se de Nossa Senhora de Fátima, ao som do cântico “Adeus de Fátima” e do tocar dos sinos. Deveras comovente. Impressionaram-me os peregrinos pelo respeito e veneração manifestados. Aguentaram firmes durante horas ao sol com o calor que se fazia sentir. Mas nada os demovia. Queriam manifestar o seu amor à Virgem Maria. Uns, em peregrinação palmilhando estradas durante dias; outros, em grupo - 160 -, oriundos de 31 países: Sul coreanos, Filipinos, do Sri Lanka. Todos os peregrinos são movidos por uma enorme fé. Alguns vêm pagar promessas, deixar algum pedido, intenção, ou unicamente para render homenagem e agradecer as graças concedidas pela Virgem Maria, nossa Mãe do Céu, que vela por nós, que nunca se cansa de manifestar a Sua misericórdia. Contudo, temos a certeza de que cada um de nós é abençoado, fortalecido, confortado, com um amor imenso sob a sua proteção infinita. Os coros que se fizeram ouvir ajudaram-nos a rezar duas vezes, entoando os cânticos alusivos a Nossa Senhora de Fátima e aos videntes São Francisco Marto e a Santa Jacinta. Em Fátima durante a bênção aos doentes foi referida a generosidade de Jacinta que disse a Lúcia: “’Olha, diz a Nossa Senhora que sofro tudo…, sofro tudo para converter os pecadores, pela paz no mundo, pelo Santo Padre’. Sim é este o amor a Jesus e a quem sofre que dá um horizonte maior à tua vida marcada pela dor. E quando vos vemos sofrer em silêncio, sem vos queixardes, penso que aprendestes com o Francisco, a guardar no silêncio do coração de Deus, algumas dores que só Ele pode entender…”. Num dos escritos de Lúcia, foi encontrada uma frase que repetia algumas vezes perto de cada dia 12 e 13 de Maio. “Sei que muitos peregrinos vão a caminho de Fátima cantando, rezando e fazendo penitência. Espiritualmente vou com eles, oro com eles, canto com eles e uno ao seu sacrifício o meu…, uno-me às orações de todos e de cada um dos peregrinos pedindo para todos um aumento da fé, da esperança e do amor, a cura para os doentes, a paz para o mundo, o remédio para os seus males”. Agora no céu, os pastorinhos intercedem por nós.

A propósito dos pastorinhos, há uns dias atrás tive oportunidade de visitar novamente o local onde Santa Jacinta ficou instalada na cidade de Lisboa, entre meados de janeiro a 2 de fevereiro de 1920, no então orfanato de Nossa Senhora dos Milagres, hoje Convento das Clarissas de Lisboa, situado na Estrela. Recordo que se aproxima a passos largos o centenário do seu falecimento, que teve lugar no dia 20 de fevereiro de 1920, no Hospital de D. Estefânia. Faleceu sem a companhia dos familiares, em grande sofrimento. Todos os dias lhe era levada a comunhão, exceto no dia do seu falecimento, por um lapso. Contudo foi visitada por um sacerdote a quem manifestou o ocorrido, demonstrando assim o seu enorme amor à Sagrada Eucaristia. Procurando tranquilizá-la, o sacerdote disse que lhe traria no dia seguinte a comunhão, ao que Jacinta respondeu: “Amanhã já não estou cá”, e a verdade é que faleceu às 22h30 desse dia. Foi velada durante quatro dias na Igreja de Nossa Senhora dos Anjos. De enfatizar que o corpo de Jacinta, depois de falecida, cheirava então a flores (odor de santidade). Foi acarinhada na cidade de Lisboa, por várias pessoas, entre elas, a fundadora do orfanato que diariamente a ia visitar e que mais tarde entraria para a Ordem das Clarissas.

Regresso à Missa da Peregrinação do dia 13 de maio no Santuário de Fátima. O cardeal Luís Tagle, Arcebispo de Manila, Filipinas, na homilia referiu: «“Felizes as entranhas que te trouxeram e os seios que te amamentaram!” E, de facto, Maria foi abençoada por ser mãe de Jesus… Maria transmitiu ao seu Filho a sua fé e a sua forma de escutar e guardar a Palavra de Deus. Maria mostra-nos o caminho para encontrar a verdadeira bênção. O nosso mundo de hoje tem imagens de uma vida “abençoada”: muito dinheiro, o último modelo de roupas, carros, aparelhos eletrónicos, fama, influência, segurança. Estes não são desejos maus, mas Maria, nossa Mãe, faz-nos parar e fazer uma autoavaliação. Será que a fé ainda tem um lugar importante no nosso desejo de uma “vida boa”? Consideramo-nos abençoados quando abdicamos dos nossos planos, como Maria e José, para que a vontade de Deus se possa concretizar? Será que os pais criam os filhos não apenas com comida, medicamentos e formação, mas também com a Palavra de Deus, os Sacramentos e o serviço aos pobres? Será que assumem com seriedade a responsabilidade de educar os filhos na fé? Como modelo e exemplo da Igreja, a Nossa Santíssima Mãe ensina toda a Igreja a encontrar o caminho da verdadeira bênção… Não há maior bênção do que ser chamado por Deus a servir Jesus, a fazer Jesus conhecido, amado e servido…».

Senti-me muito pequena, perante a enorme fé manifestada pelos peregrinos, a sua demonstração de amor a Jesus e a Maria. Tantas histórias poderiam ser contadas! Vieram-me as lágrimas aos olhos por diversas vezes, em particular quando Maria, no seu andor, regressou à Capelinha, no Adeus à Virgem. Os peregrinos tinham-se mantido firmes, não abandonando o recinto sem se despedirem da nossa Mãe do Céu, transportava tantos pedidos de intercessão e de manifestações de amor. Maria deveria estar certamente feliz por ver que tinham escutado os Seus pedidos, entre eles, com doces palavras, a recitação do Santo Rosário diário. Graças a Deus nestas terras de Santa Maria, no dia 13 de Maio, na Cova da Iria apareceu brilhando a Virgem Maria, cercada de luz, nossa Mãe bendita e Mãe de Jesus.

Reconfortados os peregrinos regressavam a suas casas, com o coração repleto de amor a Maria. Recebemos muitas graças e bênçãos. Depois, ainda houve tempo de regressar à Capelinha das Aparições, para rezar o terço por diferentes intenções particulares, pela graça que nos foi concedida de aqui nos encontrarmos, pela paz no mundo, e fazer um ato de entrega a Nossa Senhora. Interiormente, pensei numa das orações dos pastorinhos: “Meu Deus, eu creio, adoro, espero e amo-vos. Peço-vos perdão para os que não creem, não adoram, não esperam, e não vos amam”.

Maria Helena Paes



domingo, 23 de junho de 2019

Comércio de armas

Já várias vezes o Papa Francisco condenou severamente o comércio de armas como fator que contribui para o eclodir e agravar de muitas guerras. Uma boa parte desse comércio é clandestino e decorre à margem dos governos, mas outra é por estes autorizada.

A Comissão Nacional Justiça e Paz, em ação concertada com as comissões Justiça e Paz europeias (Justiça e Paz Europa), lançou recentemente um apelo aos deputados que vierem a ser eleitos para o Parlamento Europeu, onde, entre outras causas, define como prioritária uma ação contra a exportação de armas que possam vir a ser utilizadas em guerras e conflitos.

Os países da União Europeia no seu conjunto são o segundo maior exportador de armas do mundo. As exportações gerais de armas de países da União Europeia aumentaram 10% no período de 2013 a 2017 em relação ao período de 2008 a 2012 e esse aumento foi de 103% no que se refere ao Médio Oriente.

A Posição Comum sobre exportação de armas na União Europeia veda essa exportação para países envolvidos em guerras e conflitos, que cometam sérias violações dos direitos humanos, que apoiem organizações terroristas, ou em que os altos custos dos equipamentos de defesa possam afetar seriamente as suas perspetivas de desenvolvimento. Estes critérios não têm sido observados.

A questão tem sido levantada a propósito da venda de armas à Arábia Saudita, que mantém uma guerra no Iémen onde são sistematicamente provocados danos em vítimas civis. Entre os maiores exportadores de armas para a Arábia Saudita estão, para além dos Estados Unidos, países europeus como o Reino Unido, a França, a Alemanha e a Itália. A decisão recente do governo alemão de suspender essa exportação suscitou a oposição dos governos francês e britânico.

Para serem utilizadas no Iémen pelo exército da Arábia Saudita, seguem armas provindas de fábricas da Sardenha. Este facto tem suscitado a mobilização, local e nacional, de várias organizações da sociedade civil, católicas e laicas. Disseram a propósito os bispos dessa região: «A gravíssima situação económico-social não pode legitimar uma qualquer atividade económica e produtiva, sem que se avalie responsavelmente a sua sustentabilidade, a sua dignidade e o seu respeito pelos direitos de cada pessoa. Em particular, não podem ser equiparadas a produção de bens necessários à vida com a que certamente provoca a morte. É o que se verifica com as armas construídas no nosso território regional e usadas para uma guerra que provocou, e continua a provocar, no Iémen, milhares de mortos, na sua maior parte civis indefesos.»

 Sobre esta questão, foi publicado, já há vários anos (em 1994), um documento do Conselho Pontifício Justiça e Paz, O Comércio Internacional de Armas – Uma reflexão ética. Aí se afirma: «Nenhum Estado exportador de armas pode renunciar à sua própria responsabilidade moral perante os efeitos negativos eventuais desse comércio. Os diversos organismos e instâncias interessadas nunca são eximidos da obrigação de se perguntarem porque se comprometem com esse comércio. E, sempre que se apresente a eventualidade de uma transferência, devem perguntar-se com toda a lucidez: porquê exportar tais armas a tal país? A quem aproveita este comércio? O argumento, tantas vezes invocado, de que se um Estado se recusa a fornecer armas, um outro o fará, está privado de todo o fundamento moral».

Reconhece tal documento a licitude do comércio de armas destinadas a fins defensivos dos governos importadores, mas segundo «um estrito critério de suficiência».

Em suma, podemos dizer que não estamos perante uma atividade económica como qualquer outra, em que uma solicitação da procura deva ser sistematicamente satisfeita e em que os ganhos da balança comercial, ou mesmo a manutenção de postos de trabalho, possam justificar uma qualquer venda.

A ética de defesa da vida e da paz impõe que se considere sempre a utilização previsível das armas que são vendidas. Está em causa uma eventual cumplicidade quanto a essa utilização.

Pedro Vaz Patto



Abolicionismo

Abolir a prostituição pode ser visto como uma utopia, pois «sempre existiu e sempre existirá». O mesmo se disse da escravatura, mas num e noutro caso estamos perante a redução da pessoa a mercadoria.

Decorreu de 2 a 4 de abril, em Mainz (Alemanha), o terceiro congresso mundial «contra a exploração sexual de mulheres e meninas», organizado pela CAP (Coalition for the abolition of prostitution) International. Esta plataforma reúne trinta organizações de vinte e quatro países (dela faz parte a associação portuguesa “o Ninho”) que pugnam pela abolição da prostituição enquanto violação da dignidade da pessoa e da igualdade entre homem e mulher, recusando a sua qualificação como “trabalho sexual”. Nessa linha, pugnam pela implementação do regime legal inicialmente implantado na Suécia (por isso, habitualmente designado por “modelo nórdico”) e sucessivamente adotado por outros países (a Noruega, a Islândia, o Canadá, a Irlanda do Norte, a República da Irlanda e a França), regime que pune o proxenetismo e também o cliente da prostituição e encara a pessoa prostituída como vítima a quem é devido apoio psicológico e social.

Não foi escolhida por acaso a Alemanha como anfitriã do congresso. O regime legal aí adotado situa-se no polo oposto: a prostituição é aí encarada como um trabalho como qualquer outro, com cobertura legal. Os malefícios deste sistema (uma experiência de mais de dezasseis anos que faz com que a Alemanha seja por vezes descrita como “o bordel da Europa”, com cerca de quatrocentas mil pessoas prostituídas) foram vigorosamente denunciados no congresso, de onde surgiu uma declaração dirigida ao governo federal alemão (a “declaração de Mainz”), reclamando a sua alteração e a adoção do “modelo nórdico” (ou “abolicionista”).

Um assinável protagonismo foi dado nesse congresso às chamadas “sobreviventes” da prostituição, mulheres firmemente empenhadas na causa da sua abolição e que falam com a autoridade de quem sentiu na pele os seus malefícios. As “sobreviventes” presentes no congresso provinham da Alemanha, da Irlanda, da Roménia, da França, dos Estados Unidos, do Canadá, da África do Sul e da Austrália. Umas de idade mais avançada, outras muito jovens. Uma destas, desde muito jovem vítima de uma rede de tráfico, salientou como a circunstância de a prostituição ser (na Alemanha) legalizada, reconhecida e apoiada pelo Estado como um qualquer trabalho, a levou a não reconhecer de imediato os riscos que corria quando foi capturada por essa rede. Todas elas afirmaram que nunca conheceram no meio alguma mulher que encarasse essa atividade como uma escolha que respondesse a alguma forma de realização pessoal. Uma outra afirmou em termos categóricos: «esta é uma forma de escravatura que existe desde há séculos, mas que nunca foi tão normalizada (porque apoiada pelo Estado e organizações filantrópicas) como hoje». E essa normalização reduz o impacto do grito sofrido dessas “sobreviventes”.

Dos danos inerentes a qualquer forma de prostituição no plano da saúde psíquica, falaram as especialistas Michaela Huber e Ingeborg Kraus (cujos estudos são divulgados em www.trauma-and-prostitution.eu). Realçaram como o exercício da prostituição conduz à dissociação entre “corpo e alma”, à tentativa de alheamento em relação a uma prática corporal que se considera não desejada e repugnante, com graves consequência no plano da estruturação da identidade pessoal. A ocorrência de stress pós-traumático é, nas vítimas de prostituição, mais frequente do que em militares que experimentaram cenários de guerra. Nelas é frequente a extrema dificuldade em vivenciar a sexualidade associada ao afeto e à comunhão pessoal. A autoestima é gravemente afetada. Estes danos têm sido incrementados na Alemanha desde a legalização da prostituição e a sua consequente expansão.

Da ligação entre a legalização da prostituição na Alemanha e a criminalidade organizada, falou o comissário de polícia reformado Manfred Paulus. Nas redes de prostituição alemãs estão hoje infiltradas mafias de países da Europa de Leste, países de onde provém a esmagadora maioria das mulheres prostituídas. Para essas mafias, este é um negócio altamente lucrativo, que exige pouco investimento (é barato recrutar mulheres pobres iludidas com a possibilidade de um trabalho na Alemanha) e não envolve grandes riscos, pois pode ser exercido a coberto da legalidade (as sua facetas criminalmente mais graves escondem-se por detrás de uma fachada legal).

Melissa Farley salientou as características típicas do cliente da prostituição, que vem estudando desde há vários anos (veja-se www,prostitutionreserch.com). Este, por ter pago, sente-se com o direito de reduzir a mulher prostituída a objeto (uma sex machine), a exigir dela o que outra mulher nunca consentiria (paga para ter um “sim” quando sem pagar teria um “não”). Por isso, a violência é inerente à prostituição. Normalizá-la é aceitar que todos os impulsos sexuais dos homens não podem deixar de ser satisfeitos (o que também poderia justificar a violação).

Sobre o balanço da implementação do modelo abolicionista na Suécia (desde há vinte anos, um tempo suficiente para se fazer um balanço), falou Per-Anders Sunesson, embaixador do governo sueco para a luta contra o tráfico de pessoas. A prostituição de rua foi aí reduzida para menos de metade. Segundo dados da Interpol, as redes de tráfico praticamente deixaram de ter como destino a Suécia (o que revela como a redução da procura á a melhor forma de reduzir a oferta). Os números globais de pessoas prostituídas são cerca de dez vezes inferiores, proporcionalmente, aos da Holanda e da Alemanha. Um notável esforço financeiro sustem projectos de reinserção social de pessoas prostituídas (tidos como uma prioridade). E o efeito mais significativo será o da transformação da mentalidade comum a respeito da prostituição, que deixou de ser encarada como uma inevitabilidade, O apoio à lei é transversal entre os partidos políticos e na população em geral passou de 30% na altura da sua aprovação para 70% atualmente.

O modelo sueco serviu de inspiração à lei vigente em França desde 2016. Os deputados franceses que a aprovaram, com uma maioria transversal, basearam-se em estudos aprofundados sobre os efeitos dos sistemas legais de vários países. Para a aprovação da lei, contribuíram em grande medida as organizações presentes no congresso. Foi rejeitada pelo Conseil Constitutionnel um recurso que invocava a inconstitucionalidade da lei por ofensa ao direito à privacidade e à liberdade de empresa.

Abolir a prostituição pode ser encarado como uma utopia, porque ela «sempre existiu e sempre existirá». Foi isso mesmo que se disse da escravatura durante séculos. Num e noutro caso estamos perante a redução da pessoa a objeto e a mercadoria. Talvez um dia possamos encarar a prostituição como olhamos hoje para a escravatura. Esta também não desapareceu da face da Terra, mas já deixou de ser tolerada pela consciência moral e jurídica da humanidade. Assim poderá suceder um dia com a prostituição. Foi esta a ideia que este congresso pretendeu transmitir.

Presidente da mesa da assembleia geral de “O Ninho”.

PVPatto, 08.04.2019, publicado no Jornal: O Observador: https://observador.pt/opiniao/abolicionismo/



Viver para bem morrer

         Iniciamos este artigo polémico com palavras recolhidas do livro do Papa Bento XVI, “A Contracorriente y por Amor”[1] : ao escrever a encíclica Humanae Vitae, Paulo VI “tinha a intenção de defender o amor contra a sexualidade como consumo, o futuro contra a pretensão exclusiva do presente e a natureza do homem contra a sua manipulação”.

         A encíclica atrás nomeada foi muito contestada meio século atrás, mas revelou-se profética como se constata na frase do Papa emérito recolhida no parágrafo anterior. Mas a Humanae Vitae ou melhor, os ensinamentos de Jesus Cristo recolhidos e entendidos pelos apóstolos e centenas de anos de tradição, continuam a produzir frutos admiráveis de humanidade e amor, unindo fé e ciência. Conversas recentes sobre dois factos, acontecidos em países diferentes, um no final do séc. XX, e outro já no séc. XXI, mereceram a nossa atenção. Aqui os resumo, numa só história, escondendo nomes e contextos.

         Camila e Zenão esperavam o seu sexto filho, mas bem cedo foram informados de que a gravidez era de alto risco e o bebé, se chegasse ao final da gestação, teria poucas probabilidades de sobreviver ao parto devido às múltiplas deformidades do seu débil corpo. Os pais tinham uma prioridade: que o seu filho nascesse com vida para poder ser batizado  e pediram ao médico que os ajudasse, com a sua ciência, a alcançar esse objectivo. E conseguiram! Foram longas semanas de oração e sacrifícios em que toda a família esteve empenhada. Rezava-se o terço em família, pais e filhos, e estes comiam coisas que não lhes agradavam. Irmãos e cunhados apareciam por casa e ajudavam nas compras e tarefas domésticas. O médico seguia com atenção a vitalidade do feto. Combinou-se optar por uma cesariana na esperança de o bebé nascer com vida. E chegou o grande dia.

         Uma “pequena grande” equipa de pessoas emocionadas esperava o final da cesariana: cirurgiões, anestesista, instrumentista, enfermeiros, familiares e um sacerdote. Aquela pessoa minúscula e deformada estava viva. Foi batizada e crismada pelo sacerdote consciente de que estava a participar, a ser ministro, de mais uma das misericórdias de Deus. Testemunhou o carinho que rodeou aquela criança durante as suas breves  horas de vida. Pais e irmãos puderam abraçá-la, e beijá-la, e tirar fotografias com ela. Médicos e enfermeiros empenharam-se em enobrecer a sua profissão ao serviço da vida; estavam emocionados ao consciencializar que tinham colaborado na missão de dar a Vida, aquela que dá sentido à vida e à morte.

         Dois dias depois, foi celebrada a Missa de corpo presente. Ali estava toda a família, o pároco que batizara o bebé, médicos e enfermeiros, amigos, e até professores e o coro dos colégios onde andavam os irmãos. O luto era diferente de todos os outros. Estava ali o corpo de alguém que fora um dos filhos prediletos de Deus e dos homens. Nem ideologias, nem política, nem ambiente abortista, nem leis puderam algo contra esta pessoa. Parecia indefesa, mas teve a seu favor a ciência e, sobretudo, uma enorme manifestação de Amor: a contagiante paternidade responsável de seus pais.

Isabel Vasco Costa




[1] Citado em “Humanae Vitae! Cincuenta años después”, Nuestro Tiempo, nº701, pg. 88.



Mulheres ousadas e destemidas

Sempre me surpreendeu o facto de à volta de Jesus Cristo, haver um leque enorme de mulheres.


Privilégios de mulheres corajosas, que com santa ousadia foram as primeiras a saber da notícia e a transmiti-la aos apóstolos.

Maria como Sua Mãe era normal, mas com Ela apareciam sempre outras mulheres, umas porque tinham sido curadas das suas enfermidades e Lhe estavam muito gratas, outras devido à sua imensa capacidade de amar, reconheceram a enorme bondade e superioridade com que Ele as tratava, nomeadamente, naquela época e lugar em que as mulheres não tinham qualquer dignidade. 

Ao longo do seu ministério, como lemos em S. Lucas capítulo 8, versículos 1 a 3: “(…) andava Jesus de cidade em cidade e de aldeia em aldeia, pregando e anunciando o evangelho do reino de Deus, e os doze iam com ele, e também algumas mulheres que haviam sido curadas de espíritos malignos e de enfermidades: Maria, chamada Madalena, da qual saíram sete demónios; e Joana, mulher de Cuza, procurador de Herodes, Suzana e muitas outras, as quais lhe prestavam assistência com os seus bens.

Recordemos também Maria e Marta, irmãs de Lázaro, os grandes amigos de Betânia.

Foram as mulheres que Lhe ungiram os pés com bálsamos, foi Verónica que no doloroso caminho do calvário se atreveu a um corajoso acto de ternura e limpando-lhe o rosto cheio de sofrimento e desfigurado pela dor.

No momento da Sua morte todos O abandonaram, excepto o discípulo João e as santas mulheres que ficaram a fazer companhia a Sua Mãe. E no primeiro dia da semana, alta madrugada, elas foram ao túmulo, levando aromas que haviam preparado e assim foram as primeiras a ver que o Corpo do Senhor não estava lá. Os Anjos disseram-lhe que Ele tinha ressuscitado, por isso não estava entre os mortos, mas no meio dos vivos.

Voltando a toda a pressa, anunciaram esta descoberta aos onze e a quem estava com eles. Eram elas Maria Madalena, Joana e Maria, mãe de Tiago, como nos conta S. Lucas, médico e grego, que com toda a minúcia, rigor e amor pela verdade não se desviava dos factos verídicos relatados pelos próprios conterrâneos de Jesus. 

Que honra, que exemplo, que nobreza de alma, em pura simplicidade de transmitir o ocorrido, de fazer passar as notícias vividas e presenciadas.

Sem fantasias nem ficções, tal como nos é retratado no Novo Testamento, é ali que devemos ir beber esta parte da história, bem localizada no espaço e no tempo, com todos os pormenores e relatos, deixando de lado interpretações fílmicas, cujo fim é sempre distorcer e afastar o sentido divino e transcendente dos planos de Deus para o homem e para a humanidade inteira.

Emanuel do Carmo Oliveira


Alterações comportamentais

Tempos de mudança geraram fortes alterações comportamentais e a sociedade foi perdendo os seus contornos e limites morais, ultrapassando as fronteiras dos valores tradicionais e desaguando, lentamente, num mar sem margens, onde o mal e o bem parecem ter o mesmo peso.

A precária ou diminuta educação ministrada em casa, a ausência ou presença ausente dos pais, a deficiente atenção familiar aos filhos, é um caminho muito permeável para que todas as perniciosas influências oriundas do exterior se infiltrem de mansinho no seio do agregado familiar e corrompam a criança ou adolescente em fase de crescente moldagem de carácter e personalidade, mas sempre carente de afectuosas e bem definidas normas de conduta.

Pais com excesso de trabalho e reduzido tempo disponível para os filhos, desagregamento familiar com consequente reflexo afectivo e educacional e ausência de inter-ajuda entre gerações, permitiu um abandono e isolamento, diminuindo as defesas e a protecção necessárias e indispensáveis para fazer frente a eventuais agressões, que sempre incidem sobre os mais frágeis, tímidos, inseguros e indefesos.

Permanentemente na sociedade acontecem situações dramáticas que se projectam na mente de todos nós, deixando marcas pouco saudáveis, como a violência doméstica, com episódios de forte cariz patológico e acentuada gravidade social e psicológica, que se banalizam à força de repetidas e mal assimiladas explosões mediáticas. Urge haver uma atitude crítica, lúcida e vigilante de apoio e esclarecimento por parte de todos os educadores, nomeadamente os pais, avós e outros familiares que não podem nem devem ignorar o seu papel de orientadores e condutores de boas maneiras e de bons exemplos.

O excesso de informação mal digerido, a confusão de papéis a desempenhar na sociedade e a ausência ou rejeição de normas e padrões de bom comportamento social, de educação, de saber estar e saber agir, conduziu-nos a este caos de violência em que todos saímos um pouco salpicados, mas no qual também temos a nossa quota-parte de culpabilidade.

É nossa obrigação moral e ética estarmos atentos às constantes mutações da sociedade. Será, sem dúvida, uma tarefa árdua mas desafiante da nossa parte, podermos contribuir de forma construtiva e democrática para a criação de condições de resolução dos imposições destrutivas que surgem também no ambiente escolar e se refletem em toda a comunidade social, muitos deles consequência da leviandade com que se abordam alguns temas educativos nas escolas, nomeadamente no que toca ao foro íntimo da criança.

Maria d´Oliveira






Duas Iniciativas Diferentes

Esta semana participei em duas ações de formação. Uma na Fundação Calouste Gulbenkian sobre o Lançamento dos Concursos 2019 do Programa Cidadãos Ativos/EEA Grants promovido pela Fundação Calouste Gulbenkian e a Fundação Bissaya Barreto. Este programa foi criado na sequência do concurso para a gestão em Portugal do Active Citizen Fund, um fundo destinado a Organizações Não Governamentais (ONG). O Programa Cidadãos Ativos (2018/2024) pretende fortalecer a sociedade civil e a cidadania ativa, e a capacitação de grupos vulneráveis em Portugal, mas também estimular a cooperação entre a sociedade civil portuguesa, entidades dos três países financiadores (Islândia, Liechtenstein e Noruega) e organizações intergovernamentais. Já conhecia este programa, mas importa divulgar, quem sabe se existe alguma ONG que o desconhece, podendo ainda vir a concorrer beneficiando deste apoio? Falou-se da “importância da aprendizagem, do fator humano, das pessoas, que constituem o pilar fundamental para o desenvolvimento, e fatores ativos de mudança e de prevenção do reforço de uma sociedade onde haja “liberdade igual, diferença igual”. “Nunca estamos vacinados contra o populismo. Para não sermos surpreendidos a única maneira de prevenir é agindo, trabalhando, alfabetizando, educando, ajudando as pessoas a organizarem-se rumo ao progresso, rumo ao futuro. Em Portugal existe todo um contexto positivo para se elaborarem projetos. “Eu sou parte de tudo o que encontrei”. “Tudo requer um elemento de investigação científica que demonstre que se sabe perfeitamente o que fazemos”. “As mudanças requerem tempo. Ter constância na ação”. “Salvar e melhorar a vida das pessoas”. “Não se podem mudar as políticas a não ser que tenhamos as pessoas connosco”. “Transformação vis-à-vis novos modelos de organização da sociedade”. Cabe aos cidadãos, à sociedade civil, reforçar a cidadania através da representação, da mobilização, para que se evite a tentação, de que ocorram toda uma série de situações, uma vez que, quando se sai para a rua em manifestação, é devido ao facto de que as Instituições não funcionaram. “As pessoas têm que se encantar com os projetos”. “Temos de nos meter nos projetos, para alcançarmos os objetivos iniciais propostos”. Também, nos projetos de mudança social, aprende-se com aquilo que não alcançou, os resultados propostos, porque nos ajuda a corrigir e a construir uma nova mudança”. Em suma pretende-se contribuir para aumentar o bem-estar das populações.

A outra iniciativa em que participei tocou-me profundamente. Talvez por ser uma temática sobre a qual ainda não me tinha debruçado em profundidade. Mas a vida faz sentido. Ultimamente, tenho lidado com alguns casos que requerem um maior conhecimento, no sentido de melhor poder apoiar e também divulgar o que está a ser feito na área das tecnologias enquanto solução para todos. Também porque “o saber não ocupa lugar”. Posto isto foi com o maior gosto que divulgo a ação de formação subordinada ao tema: “O Mundo do Silêncio nas Patologias Neurológicas”, promovido pela Associação de Cooperação e Cultura AC2, que, em boa hora, teve lugar no dia 4 de maio no Hotel Continental. Na brochura distribuída constava uma frase de Leon Tolstoi: “Na vida só há um modo de ser feliz: viver para os outros”. Também um panfleto distribuído referia: “O desenvolvimento de novas abordagens e de novos sistemas tecnológicos, baseados numa investigação científica aprofundada, tem permitido que qualquer pessoa, independentemente da causa e da gravidade da sua patologia, possa encontrar um sistema alternativo e aumentativo de comunicação adequado que lhe permita comunicar e interagir em todos os contextos que se pretenda inserir. A aplicação de tecnologias emergentes na área das Tecnologias de Apoio (AT) está a originar a criação de novos dispositivos que podem contribuir para a melhoria da qualidade de vida de pessoas com deficiência e pessoas idosas”.

As tecnologias de apoio à comunicação constituem uma componente essencial… permitindo ao seu utilizador a transmissão de uma mensagem… e uma interação eficaz com os quais pretende comunicar. Por outro lado, os sistemas de acesso ao computador incluem sistemas informáticos integrados (ratos, joysticks) bem como programas especiais… que permitem a utilização do computador por pessoas com disfunção neuromotora grave. Desta forma, qualquer pessoa, independentemente da sua incapacidade, poderá comunicar (através da fala sintetizada), escrever, desenhar, jogar, ou até ter acesso à internet, consultando e procurando informação, comunicando à distância através de email ou mesmo participando ativamente nas redes sociais. Quão importante se torna deitar abaixo este muro do silêncio, concedendo o acesso a funcionalidades às pessoas. Temos um exemplo impressionante Steven Hoopkins, por todos demais conhecido, que é a prova do que refiro. Infoincluir as pessoas com deficiência, como é o caso da Esclerose Lateral Amiotrófica, a paralisia cerebral, autismo, deficiência mental, sequelas de acidentes vasculares cerebrais, doenças neurológicas progressivas entre outros, já que a Fala é a forma de expressão mais utilizada pelos seres humanos quando pretendem comunicar. No entanto, há muitas pessoas que, por razões diversas, estão incapacitadas de o fazer, tendo contudo, necessidades e capacidades comunicativas idênticas. Logo, torna-se necessário, dotá-las, tão cedo quanto possível, de um “Sistema Alternativo e Aumentativo de Comunicação”, que englobe um conjunto de Técnicas, Ajudas, Estratégias e Capacidades, que uma pessoa com limitações na comunicação necessita. A Comunicação Aumentativa e Alternativa (AAC), constitui um instrumento, que se torna essencial no sentido de vencer os obstáculos que muitas pessoas com incapacidade de utilizar a fala, têm de enfrentar… Através destes meios, das tecnologias de apoio à escrita, as pessoas podem expressar os seus desejos e sentimentos, e tomar decisões sobre a própria vida. Foram dados alguns exemplos que muito me sensibilizaram, entre eles, um pai que escreveu uma carta à filha, outro que fez o seu testamento vital. Enfim, estas novas tecnologias revestem-se da maior importância para o bem-estar dos doentes e suas famílias.

Deus queira que o Estado contemple, nos seus apoios a nível da saúde, estes equipamentos tão necessários e eficazes no sentido de derrubar o muro do silêncio em que se encontram tantos doentes, a vários níveis, podendo assim ser integrados na vida ativa, interagindo com o mundo que os rodeia. A Comunicação constitui um Direito Humano básico para TODOS. Também me impressionou saber que algumas crianças com estas patologias são mais abusadas sexualmente, podendo o abuso morrer com a própria pessoa.

Que Santa Maria, Rainha da Esperança, nos ajude a promover ações que contribuam para ajudar a minimizar e a encontrar soluções e mais apoios para as situações referidas, intercedendo por essa intenção tão necessária, em prol do bem-estar dos doentes, das famílias, da sociedade.

Maria Helena Paes



A força da fé

A Fé é verdadeiramente um dom e um tesouro! Um dom, porque só Deus a pode conceder... Um tesouro, porque quem a encontrou, encontrou Deus, encontrou o sentido da vida, das alegrias e tristezas de cada dia, encontrou o Amor verdadeiro e o caminho para a Vida Eterna...

“Quando o Filho do Homem voltar, encontrará Fé sobre a terra?” (Lc 18, 8). Será que os cristãos deixaram de acreditar que as verdades que Jesus revelou são verdadeiramente libertadoras? Que Ele é o Caminho, a Verdade e a Vida e que ninguém vai ao Pai senão por Ele? Que a oração e os Sacramentos são os meios da Graça? Que o pecado é a maior prisão que a alma pode encontrar?

As sociedades estão confusas acerca de tudo isto... uma grande força avança no mundo para deitar por terra os preceitos da moral católica e da lei natural, pretendendo que são limitadores e até inimigos da liberdade humana!… Mas, como respondeu Simão Pedro a Jesus, no momento em que muitos discípulos abandonaram o Mestre, por não aceitarem a Sua doutrina, e Ele lhes perguntou se também se queriam retirar: “Senhor, para quem havemos nós de ir? Tu tens palavras de vida eterna; e nós acreditamos e sabemos que és o Santo de Deus.” (Jo 6, 68-69)

Quem nos pode trazer a vitória sobre a cruz? A vitória sobre todos os pecados, misérias, prisões, egoísmos, erros? Sobre o sofrimento e a morte? Quem nos pode trazer essa vitória, senão Aquele que morreu por nós na cruz e ressuscitou ao Terceiro Dia? Aquele que venceu a morte e está vivo? Que, depois de ressuscitar, apareceu aos Apóstolos, a muitos discípulos e habitantes de Jerusalém? Que veio para nos dar a Vida e a Vida em abundância? Que passou fazendo o Bem e em Nome de Quem tantos deram a vida ao longo dos séculos em favor do bem e da salvação dos irmãos?

“Tudo começou a existir por meio d’Ele, e, sem Ele nada foi criado” (Jo 1, 3)

Em Seu nome, veio a Mãe de Deus à terra de Fátima prevenir-nos para o pecado dos homens e para os perigos daí consequentes: o inferno, as guerras, a destruição de nações, os erros da Rússia (o comunismo, as ideologias materialistas e ateístas), o martírio dos bons, o sofrimento dos Papas, ... Ela veio revestida do poder da Mulher do Apocalipse que vencerá o dragão infernal; poder sobre o Sol, que girou diante da multidão maravilhada, no milagre que Ela tinha anunciado...

Se queremos que o dragão do Apocalipse, a “serpente antiga”, o diabo e satanás, o mentiroso desde o princípio, não vença com os seus enganos (disfarçados de ideologias que afinal pretendem é esmagar a Verdade salvadora de Deus) a sociedade atual, não desprezemos os pedidos urgentes e amorosos da Mãe de Deus em Fátima:



      Rezemos o Terço todos os dias!

      Rezemos em Reparação ao Coração Imaculado de Maria!

      Consagremo-nos ao Coração Imaculado de Maria!

     Ofereçamos os nossos sofrimentos e sacrifícios a Jesus e Maria, pela salvação de todos.

“Por fim, o meu Imaculado Coração triunfará.” (Nossa Senhora, em 13 de Julho de 1917)

E teremos nas nossas famílias e na sociedade a tranquilidade e a Paz que todos ansiamos... mas não sem antes realizarmos o que a Mãe do Céu nos pediu!

Terço Reparador por Portugal




Para afastar a tristeza

Nestes dias tenho andado menos bem de saúde. Nada de importante mas que me causa algum desconforto, sentir alguma limitação. Resolvi fazer um esfoço. Dar o meu contributo para melhorar. Na realidade, face ao inverno e ao frio que se fazia sentir, tinha deixado de fazer as caminhadas habituais. A saúde ressentiu-se. Agora que o tempo melhorou torna-se necessário retomar esse hábito. É melhor do que tomar medicamentos. Com algum grau de dificuldade venci a minha resistência. Graças a Deus que o fiz. O sol brilhava. O dia estava ameno. O rio tinha uma cor azul cintilante. Maré alta. Uma fila de pescadores entretinha-se a ver se algum peixe mordia o isco. Questionei se a pesca era abundante. “Mais uma distração”, referiu um dos pescadores, acrescentando: “A água ainda está fria”. Não me canso de observar o rio. Lisboa é mesmo uma cidade privilegiada, cheia de luz e de histórias centenárias para contar. Já me encontrava envolvida no contexto ribeirinho. Como o sol, brilhou a alegria, acompanhando o movimento das águas ondulantes do rio, devido a uma brisa suave que se fazia sentir. Quantas vezes, terei feito este percurso do qual não me canso. Foram momentos vivenciados bem diferentes. Depende da companhia que tive. Umas vezes solitária, imbuída nos meus pensamentos, algumas vezes a rezar o terço. Doce monotonia das “Ave-Maria” que me embalavam, com o carinho e o amor da Nossa Mãe do Céu. Outras vezes com a neta. Eram momentos de muita alegria e de algum desassossego. Alguma vez na companhia de uma amiga ou familiar partilhando confidências, que o vento depois levava. Recordei que vai começar o mês de Maio, consagrado a Maria. Também constitui a melhor época para se fazer uma romaria a um local consagrado a Nossa Senhora, de preferência a um santuário mariano. Tenho uma amiga com a qual faço habitualmente a romaria do mês de Maio. Temos de agendar para não cair no esquecimento. Na verdade andamos tão ocupados, com a vida profissional, familiar e com pequenas coisas, que às vezes nos esquecemos das mais importantes. É preciso uma maior generosidade para cumprimos as obrigações espirituais. Temos de reconhecer as nossas fragilidades. Mas a vida constitui uma verdadeira escalada no sentido de procurarmos alcançar a perfeição. O Papa Francisco referiu que Deus nos procura mesmo que não o procuremos, ama-nos, mesmo que nos tenhamos esquecido d´Ele. Vê-nos como algo belo ainda que pensemos que gastámos todos os nossos talentos em vão. Também que o Espírito Santo deve ser o protagonista da nossa vida.

Bem, a minha amiga parece que adivinhou a minha intenção de fazer uma romaria tendo-me telefonado para agendar. Este ano seria uma primeira romaria na Igreja de Nossa Senhora da Porta do Céu. Encontrámo-nos no jardim em frente onde dêmos início à romaria rezando o primeiro terço do rosário, colocando as diferentes intenções em cada mistério. Seguidamente, entrámos na Igreja. O Santíssimo Sacramento encontrava-se exposto. Que bom. Iríamos certamente rezar melhor. “Graças e louvores se deem a todo o momento, ao Santíssimo e Diviníssimo Sacramento". Rezámos um segundo terço do rosário bem como a Ladainha a Nossa Senhora. Saímos seguidamente da Igreja, continuando a nossa romaria, ou seja, rezando um terceiro terço do rosário. Graças a Deus há sempre tantas intenções para colocar! S. Josemaria in “Cristo que Passa”, a propósito das romarias escreveu: “Respeito e estimo essas outras manifestações de piedade, mas, pessoalmente, prefiro tentar oferecer a Maria o mesmo carinho e o mesmo entusiasmo por meio de visitas pessoais, ou, em pequenos grupos, com intimidade”.

São João Paulo II, referiu em Fátima: “Uma manifestação particular da maternidade de Maria em relação aos homens, são os lugares em que Ela se encontra com eles; as casas onde Ela habita; casas onde se sente uma presença toda particular da Mãe… Aí o homem sente-se entregue e confiado a Maria e vem para estar com Ela, como se está com a própria mãe. Abre-Lhe o seu coração e fala-Lhe de tudo. “Recebe-A em sua casa”, dentro de todos os seus problemas, por vezes difíceis. Graças a Deus, que tinha feito esta primeira romaria. Se possível, tenciono realizar uma segunda romaria a Nossa Senhora de Fátima no dia 13 de Maio. Também possuo a intenção de participar na Procissão de Nossa Senhora da Porta do Céu que tem lugar no dia 10 de maio. O “Diretório sobre a piedade popular e a liturgia”, publicado pela Santa Sé de 2002, explica o que está por detrás dessa manifestação popular de amor a Nossa Senhora: “A piedade popular à santíssima Virgem, diversa nas suas expressões e profunda nas suas causas, é um facto eclesial relevante e universal. Brota da fé e do amor do povo de Deus a Cristo, Redentor do género humano, e da perceção da missão salvífica que Deus confiou a Maria de Nazaré, para quem a Virgem não é apenas a Mãe do Senhor e Salvador, mas também, no plano da graça, a Mãe de todos os homens. De facto os fiéis entendem facilmente a relação vital que une o Filho e a Mãe. Sabem que o Filho é Deus, e que ela, a Mãe, é também sua mãe. Percebem a santidade imaculada da Virgem, e venerando-a como Rainha gloriosa no céu, têm a certeza de que ela cheia de misericórdia, intercede em seu favor, e portanto, imploram com confiança a sua proteção…Celebram com gosto as suas festas, participam com gosto nas suas procissões, peregrinam aos seus santuários, gostam de cantar em sua honra, apresentam-lhe ofertas votivas…A própria Igreja exorta todos os seus filhos a alimentar a sua piedade pessoal e comunitária através de exercícios de piedade, que aprova e recomenda”.

À laia de conclusão deste artigo denominado “Para afastar a tristeza”, recomendo vivamente a recitação piedosa do terço. O Papa Francisco tweetou e, com as suas palavras, termino: “Se com as nossas fragilidades retornamos ao Senhor, se tomarmos o caminho do amor, abraçaremos a vida que não termina. E estaremos na alegria”.    
                                                        
Maria Helena Paes



Será que o cristianismo tem futuro?


Não é uma pergunta nem uma questão e muito menos um presságio, esteja o caro leitor tranquilo, tão pouco é um aviso muito ao estilo New Age, substituindo a era dos peixes pela do aquário, com esoterismos e outras crendices pouco credíveis, senão mesmo, eivadas de espiritismo ou paganismo.

“Sem dúvida que hoje um dos grandes problemas globais é o futuro do Cristianismo no continente europeu. Segundo as estatísticas, hoje em dia, o Cristianismo é a religião mais perseguida (actualmente, mais de 220 milhões de cristãos são vítimas de perseguição em mais de 50 países em todo o mundo).“

“Quando posta em confronto com os cultos pagãos que grassavam entre a população da Europa, a fé cristã saía sempre vitoriosa. Tornou-se gradualmente o alicerce da visão que os povos tinham do mundo, e da ordem social e estatal. O sistema estatal europeu foi erigido sobre uma base cristã, e o Cristianismo tornou-se uma religião nacional para os países europeus, tendo tido um grande impacto no desenvolvimento do Direito e da moral pública. A Idade Média na Europa já foi um período cristão, porque nessa altura diversas áreas da vida pública e privada se estavam a desenvolver de acordo com os ensinamentos de Cristo.

Os pregadores cristãos trouxeram para o continente europeu não só a `Boa Nova´, mas também o ensino. A igreja tornou-se a fonte de literacia das pessoas, e as igrejas e os mosteiros os centros do ensino. Os mosteiros maiores constituíram as primeiras bibliotecas, e o clero e os frades ensinavam a população local a ler e a escrever.”*

Volvida a Idade Média, o modelo teocêntrico de entendimento do mundo deu lugar ao antropocêntrico; a modernidade reforçou estas ideias e o panorama religioso europeu sofreu uma enorme clivagem, o secularismo, o ateísmo, os totalitarismos e o laicismo ajudaram a afastar ou mesmo quase a extinguir a crença e saber religioso.

“(…) A tónica na modernização, que na essência é a secularização do Cristianismo, foi a principal razão pela qual o Cristianismo tem sido mais associado ao papel de guardião da herança cultural e histórica, e deixou de se tornar fé viva para as pessoas. (…) Hoje em dia, vemos como o processo de legalização da imoralidade e do pecado na Europa está em rápido crescimento. A lista de situações deste género está a aumentar. Se primeiro estávamos a lidar com a prostituição e o aborto, depois os países começaram a reconhecer os relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo, a eutanásia e o transgenderismo. (…) Por esta razão, então, é que a Europa enquanto bastião do Cristianismo se tornou hoje a operária e a engenheira destes processos e ideias destrutivos?”*

*in: O Futuro do Cristianismo, de Hilarion Alfeyev

O objectivo desta obra publicada pela Lucerna, é levar-nos a reflectir, com base em dados actuais, sobre o impacto que o nosso continente sofreu e política e religiosamente, destinando-se ainda a esclarecer sobre as grandes questões da actualidade, com especial destaque para a situação do Cristianismo, para os desafios do mundo contemporâneo no sentido duma esperança renovada no regresso ao espírito cristão que habita há séculos e séculos entre nós, bem como no regresso à união entre a Igreja Católica e a Igreja Ortodoxa, eternos baluartes na defesa da vida, da dignidade humana e dum mundo com valores.

Maria Susana Mexia



Uma efeméride intemporal

O Dia Internacional da Família é celebrado anualmente a 15 de Maio, data escolhida pela Assembleia Geral da ONU.

Esta efeméride, com inicio em 1994, tem por objectivo recordar a importância da família e o seu relevo na base da educação infantil.

A família é a primeira e principal educadora, ela é, por excelência, o lugar onde se praticam as virtudes da convivência, da justiça, do amor e da disponibilidade para os outros, nomeadamente para os mais frágeis.

Berço dos valores, das normas e dos afectos, só a família tem capacidade para gerar e produzir crianças felizes, equilibradas e bem adaptadas.

Toda a criança precisa de uma família mas não de uma família qualquer.

Nela tem de haver afecto, protecção, normas, educação, uma pitada de bom humor e muita, muita alegria.

Pretende-se, através da celebração deste dia, recordar os direitos e deveres da família, sensibilizando para a união e compreensão geracional, de modo a promover um bom e afectivo relacionamento entre todos.

Estabilidade familiar com uma estreita união entre pais, filhos, avós, netos, tios e primos é sempre um bom serviço prestado à pessoa humana na sua integridade física, psíquica e espiritual em cada lar, com reflexos positivos na sociedade e como sementes de paz por todo o mundo.

Suzana Maria de Jesus



Para-raios

É este o segundo Domingo da Páscoa, o Domingo da Misericórdia, e é do tema da Misericórdia que trataremos agora. E a que propósito vem o para-raios? Pois, não só pedirei ajuda a Benjamin Franklin, que foi o seu inventor em 1752, como a Michael Faraday e à “gaiola” por ele inventada e experimentada em 1930. Vamos a isso.

Todos conhecemos os perigos que acompanham as tempestades, particularmente se há queda de raios, o que pode ser fatal para os homens e ruinoso para edificações e para os bens nelas protegidos, sejam produtos agrícolas, animais, obras de arte ou meros utensílios. O para-raios, colocado em locais elevados, como uma torre, não só atrai a si o raio como permite “encaminhá-lo”, através de um fio metálico, para a terra sem causar danos. A “gaiola de Faraday” é uma espécie de caixa, ou “gaiola”, que serve de barreira contra campos eléctricos ou magnéticos, protegendo o que se encontra no seu interior [1]. Hoje em dia, quase todas as construções (os navios também) são como que “envolvidas” numa espécie armação metálica - gaiola - e encimadas por um para-raios que as mantêm protegidas dos raios.

Esse foi, continua e continuará a ser, o papel dos mártires que seguem o exemplo de Jesus Cristo. Há precisamente oito dias, os atentados no Sri Lanka, vitimaram fiéis que assistiam à Missa de Páscoa em quatro igrejas, e também a pessoas alojadas em quatro hotéis. Existe negação de Deus, visível na perseguição feita a pessoas de Fé, sobretudo aos cristãos católicos. São estes os nossos para-raios, aqueles que atraem sobre si os raios dos ódios, invejas, cobiças, prepotências... protegendo os que se abrigam dentro da “gaiola de Faraday” que é a Igreja Católica Apostólica Romana liderada por Pedro.

Os últimos papas têm-nos recordado muito o dever de viver a Misericórdia seguindo o exemplo de Cristo. Recorde-se a festa da Misericórdia, que hoje celebramos por ser o segundo Domingo da Páscoa, e foi instituída por João Paulo II, segundo as revelações feitas a Stª Faustina; e os Anos ou Jubileus da Misericórdia que se repetem cada 50 anos; o último iniciou-se a 8 de dezembro de 2015 e terminou a 20 de novembro de 2016. Porém, o Papa Francisco não se cansa de nos recordar e exortar a viver as obras de misericórdia todos os dias e em momentos normais com gestos normais de cristãos normais e correntes. Os mártires do Sri Lanka não esperavam ser vítimas de um atentado, mas foram-no por serem cristãos que cumpriam com os seu dever de participar na Missa dominical, no sacrifício de Cristo que se renova em cada Missa. Muito provavelmente, os seus assassinos não os conheciam, mas Deus escolheu-os, como aos apóstolos, para serem nossos intercessores junto do Pai.

Também é comum encontrarmos “para-raios” na nossa vida corrente. São aquelas pessoas que sabem calar as críticas e desviar as conversas desagradáveis; os professores que além de ciência nos enriquecem com lições práticas de bem fazer para evitar erros habituais; os pais que nos protegem com a sua sabedoria e  bons conselhos; as mães que chamam a si a resolução de conflitos familiares, fazendo-os deslizar pelos fios da conversa carinhosa e da compreensão que leva ao perdão e ao esquecimento.

Que sorte têm aqueles que vivem entre pessoas que exercem o papel de para-raios e gaiolas de Faraday! Que louvores merecem aqueles que, à imitação do Mestre, cumprem com a suas obrigações habituais e se tornam assim, não só bons para-raios e gaiolas de Faraday, mas verdadeiros mártires.

Isabel Vasco Costa


[1] É fácil investigar na internet, para melhor compreensão destes inventos e sua aplicação. Não é este, porém, o objetivo do artigo.